quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Gamei na Lianne La Havas

Lianne La Havas,com muito estilo
Com um nome desses nem é preciso inventar um nome artístico. O La Havas se deve à ascendência grega do pai. A mãe é jamaicana, Nasceu na Grã Bretanha. Em agosto, acabou de fazer 23 anos. Há dois anos foi contratada pela Warner Bros. Records, e só agora lança o CD Is Your Love Big Enough? A gravadora confiou na moça e apostou certo.

No dicionário Aurélio, o termo “gamar” merece uma linha apenas: “V. t. i. e int. Bras. Gir. V. vidrar (3)”. “Gamado” significa vidrado. “Gamação” deixa a coisa mais explícita: “S. f. Bras. Gir. Amor violento; paixão.” Se “Gir.” quer dizer gíria, aí se explica mais alguma coisa. Certo é que é um termo que caiu em desuso há tempos. É como você dizer que alguém é “batuta”. Você sabe o que significa? Uma pista: a banda de Pixinguinha se chamava “Os Oito Batutas”. Por aí, desconfia-se do que pode significar. “Vidrar”, no Aurélio, merece mais linhas. Um dos significados é “ficar encantado (com alguém ou algo); cativar-se, encantar-se; gamar.” Ou, resumindo, estou gamado (encantado) por Lianne. Perdi o número de vezes que ouvi Is Your Love Big Enough?

São várias as músicas que me “pegaram”. Desde a primeira – Forget – até They Could Be Wrong, a última. Há uma singeleza na instrumentação, sem grandes efeitos como os do disco de Janelle Monáe (leia sobre ela em xxxx) ou da “tardia” Sharon Jones (leia em xxx), puro metal, meio Motown, com os Dap-Kings, ou orquestras melo(dramáticas) ou, comparando-a com uma outra inglesa de origem negra – Sade –, instrumentação sofisticada, meio “jazzy”; na de La Havas, o que fica salientado é uma guitarra sem distorções e bases (baixo/bateria) bem básicas. Assim, o que aparece é a voz doce, sussurante e, como componente “dramático”, ofegante, às vezes. E nessa simplicidade, digamos, reside seu encanto. Parece que está moldada aos nossos sentimentos mais básicos e elementares. Pensando bem, somos pegos facilmente por coisas básicas, pois somos feitos dessas duas matérias: o mais básico possível e o mais insondável.

Chega de conversa. Algumas amostras de Lianne La Havas.


Veja e ouça Lost and Found. A letra é ótima. Uma amostra: “Suba aqui que vou te mostrar/ Onde meus demônios se escondem de você/ Basta olhar e ver o que me tornei/ Estou tão envergonhada que você tenha sido o único a fazer me sentir do jeito que me sinto.// Você acabou comigo/ E me ensinou/ A realmente me odiar/ Desdobrar-me/ E ensinar-me/ Como ser como outra pessoa.”



Veja e ouça Gone.




Veja e ouça Forget.




No Room for Doubt, no programa de Jools Holland. 




Is Your Love Big Enough?




Don’t Wake Me Up, a minha preferida.




Ouça a versão original que consta no disco.



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Eliane Elias ou o que se come frio. Sobre o novo disco de Elias e de Marc Johnson

Elias e Johnson, parceiros na vida real e na artística
É a segunda vez que volto a comentar sobre um texto acerca de Eliane Elias que postei no site do Luis Nassif (http://bit.ly/hoNDcK) falando mal dela como cantora. Em uma crítica ácida, Antonio Augusto Gonçalves (http://bit.ly/RrLxGU), de O Estado de S. Paulo, “desceu a lenha” no CD Light My Fire, da pianista/cantora.

Um tal “Sklogw” – engraçado essas pessoas que se apelidam na internet – disse “Esse cara não entende nada de jazz. A Eliane Elias é uma grande pianista e uma espetacular cantora, com um timbre delicioso, uma técnica apurada e um suingue único. Atributos, aliás, que compartilha com a não menos ótima Diana Krall.” Alberto Manoel Ruschel Filho disse: “Vai um pedido aí, Gwen [sic]: Deixa a Eliane cantar! Deixa ela tocar! Ouça sem mal-humor, relaxe e goze. E mais, deixe as pessoas ouvirem. Cada ouvido “vê’ o que quer, né?” A senhora Dulce proferiu: “‘Cabe aqui indagar por que resolveu cantar. Só porque é afinada?” É dose...ler uma crítica nestes termos. Só ??? É condição NÚMERO UM para alguém abrir a boca, e cantar, em público. ‘É, porém, bem superior com as mãos.’ Ora, desde quando alguém tem direito de limitar os talentos alheios, só porque um deles é de qualidade excepcional? Me poupe, "Só"!!!! Teve um pior que, mal escondendo sua verve preconceituosa – assina-se como Jairo99z9 –, resolveu falar mal de Ryuichi Sakamoto: “Nassif. Tocar piano como ela toca autoriza, a linda Eliane, a fazer o que bem entender!! O equívoco é do Sakamoto!” Bom, se ele acha Sakamoto um equívoco, acho que ele deve tentar conhecer um pouco mais de música. São comentários que desceram fervendo pela minha garganta. Críticas, tudo bem; não imagino que, algum dia, consiga digerir melhor agressões que são proferidas sem que, ao menos, se conheça o “agredido”. E é o que mais existe na internet: agressões gratuitas e “anônimas”.

Bom, como “vingança”, transcrevo o que Zuza Homem de Mello, o Mestre Zuza, disse, em entrevista publicada em 1º de setembro de 2012, a Roberto Muggiati: Eliane Elias é uma boa pianista que tenta cantar.”

Agora posso falar da parte do que acho boa na Eliane Elias: que boa pianista é, e como o CD Swept Away é bom! É o álbum que acaba de ser lançado pela ECM, em parceria com o maridão Marc Johnson. Sem que seja insulto, grande dívida têm os dois têm a Bill Evans. Marc tocou muito tempo com o pianista e aprendeu tudo com alguém que teve o gênio de Scott LaFaro como baixista. A maior influência de Elias é Evans e é o que se percebe claramente nesse disco. Tinha lançado, em 2008, um álbum em homenagem ao mestre: Something For You: Eliane Elias Sings & Plays Bill Evans.

Marc Johnson tem poucos discos como frontman, mas os tem gravado pela ECM, um selo de prestígio. Seu disco anterior – Shades of Jade – é de 2004, muito bom (provavelmente há uma referência a LaFaro, autor de uma composição chamada Jade Visions, da época em que tocava com Bill Evans). Morreu cedo. Tinha pouco mais de 25 anos. Dez dias depois de ter gravado um dos melhores discos de jazz ao vivo de todos os tempos (Sunday at the Village Vanguard, 1961), acompanhando Evans, faleceu em um acidente automobilístico.

Swept Away vem assinado por Marc e Eliane. Ela tinha participado de Shades of Jade também, mas sem o destaque do mais recente. Johnson é um melodista. Tanto suas composições, como seu contrabaixo, “cantam”. Os dois são acompanhados pelo baterista Joey Baron e o fenomenal Joe Lovano, que participa de algumas faixas. O saxofonista é um polivalente ubíquo. Apesar dos anos de estrada, passou a gravar como frontman um tanto tarde. Não era mais um adolescente. Depois, gravou e grava muito. Nesse disco se faz de sideman mesmo. O disco é de Elias e Johnson.

A faixa título – Swept Away —, que abre o disco, dá o tom do resto. Depois de ouvir algumas vezes, que beleza! Se o casamento real vai tão bem o quanto se entendem musicalmente, deve ir muito bem.

O CD tende ao lento. A mais “agitada” é One Thousand and One Night, a terceira. Curiosamente, é a que menos lembra Bill Evans; se você estiver distraído, vai achar que é Keith Jarrett tocando. Atenção: isso não quer dizer que esteja falando mal de Eliane. Reitero: como disse Mestre Zuza, é boa pianista. E é um alívio, pelo menos para mim, quando não canta. Fico com sentimentos divididos: não sei se curto seu piano ou me incomodo quando canta. Porém, só no piano, me encanto com seus belos acordes “à la Evans”, angulosos, plenos de beleza e poesia. Que delicadeza!

Swept Away é um álbum de composições dos dois, com exceção de Shenandoah, um daqueles clássicos americanos sem autoria, solo de Johnson que fecha o CD. São cinco temas de Elias (Swept Away, It’s Time, One Thousand and One Night, B for Butterfly e Moments), três de Johnson (When the Sun Comes Up, Midnight Blue e Foujita), e duas dos dois (Sirens of Titans e Inside Her Old Music Box). Vista pelo conjunto, é uma seleção impecável. É para se ouvir com prazer. A minha preferida, por enquanto, além de Shenandoah, é Foujita, composta em homenagem ao pintor Tsuguhara Foujita, japonês de nascimento que emigrou para a França. Um fato, interessante para nós brasileiros, é que morou no Rio de Janeiro de 1931 a 32.

Ouça Foujita.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O “careta” Clifford Brown

O “careta” Clifford Brown
Na mesma época em que tinha comprado os dois volumes que compõem A Volta ao Dia em Oitenta Mundos, referência de Julio Cortázar sobre um título de Jules Verne, estavam sendo lançados alguns álbuns duplos destacando alguns nomes do jazz pela PolyGram. De capa branca e ilustrações em tinta marrom, eram suficientemente caros para os bolsos dos universitários que tinham que se virar com mesadas “na conta”. Até essa data, meados da década de 1970, eram raros os lançamentos de jazz no Brasil, situação parecida à de agora, com o diferencial de que a Internet e a importação direta trouxeram facilidades para a aquisição de títulos não lançados no País.

Na página 109 do tomo I de A Volta…, da edição em espanhol da Editora Siglo Veinteuno – na FAU-USP, a Ciça, arquiteta formada pela UnB, montou uma “banquinha” de livros de literatura e de arquitetura em espanhol – Cortázar falava desse até então desconhecido, para mim, Clifford Brown: “Como Bird, como Bud, he didn’t stand the ghost of a chance”. O autor fazia um jogo de palavras com o título do standard composto por Victor Young, com letra de Bing Crosby e Ned Washington, de 1932, e os relacionava à morte de outras duas figuras do jazz: o pianista Bud Powell e o sax-alto Charlie Parker.

Ao contrário desses dois, o trumpetista Clifford era “careta”. Era um certinho, enfim, mas de um talento estupendo. Parker morreu antes dos 40, vítima dos excessos da droga e do alcool. Powell, apesar de “un poco loco”, decorrente – dizem – de uma surra que levara da polícia, e lhe acarretara transtornos de ordem mental – ficou internado por um ano sendo tratado com eletrochoques –, foi brilhante pianista e fez parte do lendário show no Massey Hall, Toronto, com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Charles Mingus e Max Roach, em 1953. Morreu relativamente cedo – pouco mais de 40.

Nos anos 1950 reinavam o trumpete de Miles Davis e o do atrevido Dizzy Gillespie. Brown surgiu nesse cenário e logo se destacou como, se não o melhor, tão bom quanto os outros dois. Miles era o cara do sopro sem vibrato, dos registros médios, e se destacaria por estar no lugar certo e na hora certa. Estaria entre os gestores do bebop e dentre os que criariam o cool jazz. Clifford surgiu como um furacão. Se estivesse vivo, certamente, estaria liderando as listas dos melhores em seu instrumento. Além do poder de invenção harmônica era dono de um sopro que sabia ser doce e agressivo, atingindo as notas mais altas do trumpete sem “gritar”.

Não é possível se prever o que teriam sido os percursos de Jimi Hendrix, Janis Joplin, de Jim Morrison ou do trumpetista Fats Navarro, sua grande influência – morreu antes de completar 27 anos de idade, vítima da tuberculose e da heroína –, e também de Clifford. Mas Brown teve uma carreira fulgurante num tempo em que Miles e Dizzy Gillespie estavam na linha de frente.

A ascensão de Clifford foi algo que lembra – desculpem se acharem a comparação um pouco fora de contexto – à do espetacular astro do soul Otis Redding, morto em um acidente no próprio avião, aos 26 anos. Clifford ia fazer 26 – coincidência ou não, Hendrix, Morrison e Joplin, com 27, um a mais – e ambos estavam no topo e, certamente, avançariam muito além. Redding morreu sem ter visto (Sittin’ on) The Dock of the Bay atingir o primeiro lugar das paradas. Brown gravava um disco melhor que o outro pela EmArcy. Numa noite chuvosa de junho de 1956, a caminho de Chicago, onde fariam uma apresentação, a mulher do pianista Richie Powell, que dirigia o carro, perdeu o controle e derraparam. Resultado: três mortos.

Max Roach, um dos pioneiros do bebop e dos maiores bateristas da história, já era figura de proa no jazz quando surgiu Brown. Mesmo assim, ao formarem a banda, deixou que Brown tivesse seu nome em primeiro lugar. A bateria enérgica e ritmicamente limpa combinaram perfeitamente com seu trumpete. E não seria despropósito algum dizer que Roach foi o par ideal de Brown. Juntos, com o belo sax tenor do underrated Harold Land, do pianista irmão menor de Bud e igualmente talentoso, Richie Powell, e George Morrow no baixo, formaram uma das mais integradas bandas do jazz. Eram excepcionais nas músicas uptempo, em que a bateria de Roach brilhava e que, nas baladas, Land – como em Darn That Dream –, Powell e Clifford despejavam emoção da mais pura qualidade.

Algumas músicas ficaram associadas às interpretações de Brown e Roach: Delilah, do mesmo Victor Young, que compôs I Don’t Stand a Ghost of a Chance With You – que tem um belo solo de Richie Powell e lembra seu irmão Bud –, Parisian Thoroughfare e Jordu, de Duke Jordan. Nem é preciso dizer a mesma coisa de The Blues Walk, Daahoud e Joy Spring: são composições do trumpetista.

Segundo Julio Cortázar, Brown “inventa uma ilha do absoluto na desordem, onde ele e tantos outros estamos mortos”. Talvez pensasse assim Cortázar quando se arriscava a “ser” Clifford ao tocar amadoristicamente seu trumpete.

Beleza pura de uma das formações clássicas: Brown e o baterista Max Roach.




Esse texto foi publicado e escrito em 5 de abril de 2010