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| Elias e Johnson, parceiros na vida real e na artística |
Um tal “Sklogw” – engraçado essas pessoas que se apelidam na internet – disse “Esse cara não entende nada de jazz. A Eliane Elias é uma grande pianista e uma espetacular cantora, com um timbre delicioso, uma técnica apurada e um suingue único. Atributos, aliás, que compartilha com a não menos ótima Diana Krall.” Alberto Manoel Ruschel Filho disse: “Vai um pedido aí, Gwen [sic]: Deixa a Eliane cantar! Deixa ela tocar! Ouça sem mal-humor, relaxe e goze. E mais, deixe as pessoas ouvirem. Cada ouvido “vê’ o que quer, né?” A senhora Dulce proferiu: “‘Cabe aqui indagar por que resolveu cantar. Só porque é afinada?” É dose...ler uma crítica nestes termos. Só ??? É condição NÚMERO UM para alguém abrir a boca, e cantar, em público. ‘É, porém, bem superior com as mãos.’ Ora, desde quando alguém tem direito de limitar os talentos alheios, só porque um deles é de qualidade excepcional? Me poupe, "Só"!!!! Teve um pior que, mal escondendo sua verve preconceituosa – assina-se como Jairo99z9 –, resolveu falar mal de Ryuichi Sakamoto: “Nassif. Tocar piano como ela toca autoriza, a linda Eliane, a fazer o que bem entender!! O equívoco é do Sakamoto!” Bom, se ele acha Sakamoto um equívoco, acho que ele deve tentar conhecer um pouco mais de música. São comentários que desceram fervendo pela minha garganta. Críticas, tudo bem; não imagino que, algum dia, consiga digerir melhor agressões que são proferidas sem que, ao menos, se conheça o “agredido”. E é o que mais existe na internet: agressões gratuitas e “anônimas”.
Bom, como “vingança”, transcrevo o que Zuza Homem de Mello, o Mestre Zuza, disse, em entrevista publicada em 1º de setembro de 2012, a Roberto Muggiati: Eliane Elias é uma boa pianista que tenta cantar.”
Agora posso falar da parte do que acho boa na Eliane Elias: que boa pianista é, e como o CD Swept Away é bom! É o álbum que acaba de ser lançado pela ECM, em parceria com o maridão Marc Johnson. Sem que seja insulto, grande dívida têm os dois têm a Bill Evans. Marc tocou muito tempo com o pianista e aprendeu tudo com alguém que teve o gênio de Scott LaFaro como baixista. A maior influência de Elias é Evans e é o que se percebe claramente nesse disco. Tinha lançado, em 2008, um álbum em homenagem ao mestre: Something For You: Eliane Elias Sings & Plays Bill Evans.
Marc Johnson tem poucos discos como frontman, mas os tem gravado pela ECM, um selo de prestígio. Seu disco anterior – Shades of Jade – é de 2004, muito bom (provavelmente há uma referência a LaFaro, autor de uma composição chamada Jade Visions, da época em que tocava com Bill Evans). Morreu cedo. Tinha pouco mais de 25 anos. Dez dias depois de ter gravado um dos melhores discos de jazz ao vivo de todos os tempos (Sunday at the Village Vanguard, 1961), acompanhando Evans, faleceu em um acidente automobilístico.
Swept Away vem assinado por Marc e Eliane. Ela tinha participado de Shades of Jade também, mas sem o destaque do mais recente. Johnson é um melodista. Tanto suas composições, como seu contrabaixo, “cantam”. Os dois são acompanhados pelo baterista Joey Baron e o fenomenal Joe Lovano, que participa de algumas faixas. O saxofonista é um polivalente ubíquo. Apesar dos anos de estrada, passou a gravar como frontman um tanto tarde. Não era mais um adolescente. Depois, gravou e grava muito. Nesse disco se faz de sideman mesmo. O disco é de Elias e Johnson.
A faixa título – Swept Away —, que abre o disco, dá o tom do resto. Depois de ouvir algumas vezes, que beleza! Se o casamento real vai tão bem o quanto se entendem musicalmente, deve ir muito bem.
O CD tende ao lento. A mais “agitada” é One Thousand and One Night, a terceira. Curiosamente, é a que menos lembra Bill Evans; se você estiver distraído, vai achar que é Keith Jarrett tocando. Atenção: isso não quer dizer que esteja falando mal de Eliane. Reitero: como disse Mestre Zuza, é boa pianista. E é um alívio, pelo menos para mim, quando não canta. Fico com sentimentos divididos: não sei se curto seu piano ou me incomodo quando canta. Porém, só no piano, me encanto com seus belos acordes “à la Evans”, angulosos, plenos de beleza e poesia. Que delicadeza!
Swept Away é um álbum de composições dos dois, com exceção de Shenandoah, um daqueles clássicos americanos sem autoria, solo de Johnson que fecha o CD. São cinco temas de Elias (Swept Away, It’s Time, One Thousand and One Night, B for Butterfly e Moments), três de Johnson (When the Sun Comes Up, Midnight Blue e Foujita), e duas dos dois (Sirens of Titans e Inside Her Old Music Box). Vista pelo conjunto, é uma seleção impecável. É para se ouvir com prazer. A minha preferida, por enquanto, além de Shenandoah, é Foujita, composta em homenagem ao pintor Tsuguhara Foujita, japonês de nascimento que emigrou para a França. Um fato, interessante para nós brasileiros, é que morou no Rio de Janeiro de 1931 a 32.
Ouça Foujita.
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