sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O piano sublime de Jamie Saft

Jamie Saft em êxtase ao piano
Um estudo feito Instituto Max Planck para Cognição Humana e Ciências do Cérebro, em Leipzig, Alemanha, revela que a atividade cerebral de músicos eruditos e de jazz é bem diferente. Reside aí a razão de virtuoses do piano, como Arthur Rubinstein, Maurizio Pollini e Nelson Freire, por mais habilidosos que sejam, terem dificuldade em improvisar. Enquanto “aprendem a dar mais ênfase à técnica, visando a uma execução mais fiel à proposta do compositor”, o músico do jazz foca na harmonia e “na adaptação mais ágil nas mudanças musicais inesperadas.” No documentário dirigido por João Moreira Salles, Nelson Freire revela sua admiração pelo modo de tocar de Erroll Garner. É a prova das diferenças entre o erudito e o jazz.

O pianista, que procura transitar entre os dois terrenos, mais conhecido é Keith Jarrett. Além das gravações que  o ser médio conhece, pelo mesmo selo ECM, tem álbuns executando Bach (principalmente), Handel, Mozart, Samuel Barber e Shostakovich. Esquece porém de sua veia jazzística e incorpora o do virtuose erudito. Provavelmente, pianistas de jazz são os que mais se aventuram em explorar temas eruditos, por seus aprendizados iniciais em conservatórios musicais. Há exceções, como Garner, que conseguia tocar até peças clássicas sem sequer sabia ler uma partitura.

Bem, depois dessa explanação sobre a diferença entre pianistas eruditos e do jazz, entro no assunto de modo bem torto, pois o texto é sobre um que, apesar do aprendizado formal na New England Conservatory of Music, e ser considerado do jazz, preferiu olhar para o “andar de baixo”. Eclético, em sua música percebem-se elementos do reggae, da country music, do rock, até do heavy metal, como em seus discos com Bill Brovold e com Nick Millevoi.

Com uma extensa discografia, revela seu enorme talento em vários gêneros musicais, e em “Solo a Genoa”, seu álbum mais recente e seu primeiro solo ao piano. Nele, apresenta temas tradicionais do jazz, como “Naima”, de John Coltrane, e “Blue in Green”, de Bill Evans, mas também o repertório da música americana (Stevie Wonder, ZZ Top, Curtis Mayfield e Joni Mitchell), e até do erudito Charles Ives. Em tudo imprime sua marca, em acordes belos, harmonicamente ricos, em sonoridades ondulantes, pulsantes e de tons impressionistas. Merecidamente, John Ephland, deu quatro estrelas e meia de um máximo de cinco. Eu daria cinco. Sou fã incondicional de Jamie Saft.

Ouça “Solo a Genoa” pelo Spotify.