quinta-feira, 5 de setembro de 2019
Norah Jones, Brasil e o eterno retorno
Quando “Come Away with Me” foi lançado, proclamou-se o surgimento de uma nova grande intérprete do jazz. Ao sair pela tradicional Blue Note, a associação foi automática. Esse selo, no entanto, desde a década de 1960, com a invasão avassaladora do rock, abriu-se às novas sonoridades, sem sair exatamente das trilhas do gênero, por meio de músicos jovens, como Grant Green, Wayne Shorter, Larry Young, Herbie Hancock, dando um novo gás ao mainstream. Era um jazz mais vigoroso, incorporando ritmos vindos do rhythm’n’blues. Como exemplo, cito “Cantaloupe Island”, de Hancock, sucesso quando lançado e, “incorporado” por vários músicos, mais recentemente, como o US3.
O selo Blue Note, portanto, não mudou muito. Apenas adaptou-se aos novos tempos. Em seu plantel, nos dias de hoje, estão incluídos os melhores intérpretes desse gênero que, se não é mais jazz, não deixa de ser música, que é o que importa, como Gregory Porter, considerado um dos melhores cantores da atualidade, José James, genial, tanto cantando antigos standards de forma maravilhosa, como em “Yesterday I Had the Blues” (2015), ou incorporando novas sonoridades. Norah Jones foi uma das primeiras contratadas nessa nova onda em que o termo “jazz” ficou amplo demais, motivado por razões mais comerciais que artísticas.
Pois, em 1992, Jones estreou com “Come Away with Me”, alardeada como a nova revelação no jazz. Essa álbum, até hoje, vendeu quase 40 milhões de cópias. É uma cifra invejável.
A novidade, filha de Ravi Shankar — esse dado era um bom chamariz comercial, apesar de nunca ter convivido com o citarista —, tinha uma voz doce, com traços de uma melancolia muito charmosa. E não foi apenas o público que a consagrou; muitos da crítica especializada gostaram também. Na época, não me conquistou. Por motivos externos, a sua participação em “My Blueberry Nights”, de Wong Kar-Wai, me fez tornar-me fã dela. Aquela doçura de sua músixa era parte constituinte de Norah.
A “nova” Norah Jones era a mesma de “Come Away with Me”. Quem mudou foi eu. Passei a gostar dela, e resolvi até reescutar seu disco de estreia. Passei a prestar atenção em Norah. Nesse meio tempo, as vendas de seu disco decresceram. Continuava a mesma, quem sabe melhor, mas ela nunca foi uma pop star, como Madonna. Nunca deixou, contudo, de ser top ten.
“Day Breaks”, de 2016, representa uma retomada do fio do primeiro disco. É o que foi dito por ela e pela crítica. Ladeada por músicos estelares, como o brilhante e discreto baterista Brian Blade, o organista Lonnie Smith e o saxofonista Wayne Shorter, canta e toca alguns jazz standards, como “Fleurette Africaine”, de Duke Ellington, e “Peace”, de Horace Silver. Composições de sua lavra complementam o disco.
Se Norah intitula seu mais recente de “Begin Again”, seria um terceiro começo ou retomada? Não sei dizer. Em “Little Broken Heart”, de 2012, contou com a participação do produtor Danger Mouse, em “Day Breaks”, com um mundo de músicos do jazz, e, no recente, volta a ter parceiros do universo pop, em parcerias nas composições e na produção: Jeff Tweedy,de Wilco, e Thomas Bartlett (Doveman).
Quem acompanha atentamente aos seus novos lançamentos — não é o meu caso —, já devia conhecer todas as músicas do álbum. Cada uma foi lançada em formato single. Na sua totalidade, são apenas 28 minutos, mas a brevidade não é problema. Cada canção representa um pedacinho de doce melancolia, emoldurada por um mundo que é só dela, em que é dado a nós participar.
“My Heart Is Full”, a primeira é totalmente climática, com sua voz reproduzida em eco, sobre uma batida que marca o ritmo, emulando um coração. Junto com os versos “My heart is open/ Eyes are wild/ My mind is free/ My hands are tied/ I can see/ People hurting”, à medida em que sobe o tom de sua voz, vai ficando cada vez mais sufocante. E, pergunta: “Are we broken?” Replica, porém: “I will rise”. “I am tired/ I am strong/ I am human/ I will listen/ I can think/ I will love/ If we love/ Then we’ll love/ We can love/ Without hate.” Letra simples e, tremendamente — ou imperfeitamente — humana.
A segunda é a música-título. Bem Norah. É assim com “It Was You”, outro desatque, com uma seção de sopros, de linhas simples e muito bela, relaxante. O mesmo se pode dizer da tranquila “A Song with No Name”, sempre com letras muito pessoais. Completam o álbum “Uh Oh”, “Wintertime” e “Just a Little Bit”. Novamente, a seção de sopros dá um colorido especial a esta última.
Norah Jones fará apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, em dezembro. Quer ir? Clique aqui.
Ouça o álbum.
Se você não conseguir acessar por aqui, vá em https://open.spotify.com/album/0iDASlJ6faB4ZDVkKlqbHj?si=y6ILsw1LT8u8eeJO8uNBXw
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