quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Resposta de Nana Caymmi ao tempo

Em Rio Sonata, Nana Caymmi diz, não lembro exatamente as palavras, mas é algo assim: “na minha vida só teve coisa bonita.” Pois, que privilégio é esse de ser filha de um dos maiores compositores brasileiros, possuir uma voz especial e ter dois irmãos tão talentosos?

Nana, muito tempo atrás, à direita de Gil, na Passeata dos 100 mil
Georges Gachot é o autor de um belo documentário sobre a argentina Martha Argerich. Em Conversa Noturna (2002) – saiu em DVD pela Biscoito Fino – é revelada uma Martha que, sendo uma das maiores virtuoses vivas do piano, parecia inatingível sob aqueles olhos levemente puxados e expressão séria. Ao contrário do que deixa transparecer, é falante, sorridente, e mais, não pinta os cabelos. Vendo-a desse modo, ela nos parece quase “íntima”. A melhor qualidade desse registro é o equilíbrio entre mostrá-la ao público como ela é, com histórias contadas pela própria Martha, e exibindo também performances públicas e ensaios.

Anos depois, Gachot dirigiu Maria Bethânia – Música É Perfume. Agora, em 2010, na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio foi exibido seu mais recente documentário. A protagonista é Nana Caymmi. Chama-se Rio Sonata, título um tanto vago. Uma pergunta: é o Rio de Janeiro pelos olhos da cantora? Nesse ponto, Gachot fica entre mostrar um Rio folclorizado – para turista ver – de belas paisagens, favelas, ruas esburacadas, meninos jogando bola e retratar algumas passagens da vida da cantora. Fica num meio termo que faz dele inferior aos anteriores.

Mas para os fãs mais fanáticos é um documentário essencial. No começo, vemo-la dentro de um carro, câmera fixa nela, falando. Bem naquele esquemão do qual estamos acostumados a ver, amigos dão seus depoimentos, assistimos aos ensaios e gravações num estúdio com o irmão Dori, presenciamos Nana, Miúcha e Maria Bethânia às gargalhadas no camarim (as três cantam, se não me falha a memória, João Valentão, de seu pai), jogando baralho com as amigas etc. E, claro, como não devia faltar, o pai é assunto em várias circunstâncias. Conta de Acalanto, música feita para embalar o sono da filha que tinha nascido. Imagine o privilégio?

Alguns fatos importantes na vida de Nana não são abordados, tais como certas desavenças que teve com o pai conservador, como o episódio do desquite dela do marido Gilberto José Paoli, com quem teve os três filhos, em que Caymmi ficou um tempo sem falar com ela, e do problema de ter de cuidar do filho João Gilberto com sequelas do acidente de moto. Mas não fazia parte do script que Gachot imaginou, afinal, o título do documentário é Rio Sonata. É alegria, nada de momentos problemáticos.

Uma lembrança vem com a citação de Resposta ao Tempo, de Aldir Blanc e Cristovão Bastos. Foi o tema principal da minissérie Hilda Furacão, exibida pela rede Globo. Das muitas belas letras de Aldir, essa é uma daquelas especiais. É fácil qualquer um se identificar com algum trecho dela. Paulo Caruso, num almoço, comentou sobre um episódio especial de sua vida em que ele e sua namorada ouviam Nana cantando essa música. Ouvindo-se a interpretação de Milton Nascimento no último CD – … E a gente sonhando –, mesmo bela, nos remete imediatamente a Nana, intérprete de alguns clássicos do mineiro como Sentinela, Cais, Ponta de Areia e, especialmente, Boca a Boca. Resposta ao Tempo? É dela e de ninguém mais. É, Nana tem razão quando confessa: “eu me adoro cantando.”

Ouça a clássica Se Queres Saber, de Peterpan, mais antiga e menos conhecida que Resposta ao Tempo, com o irmão Dori.




Bom, não pode faltar Resposta ao Tempo.




O trailer oficial de Rio Sonata.


Nenhum comentário:

Postar um comentário