terça-feira, 23 de novembro de 2010

Submarino: Cruel Vinterberg

O rapaz responsável pelas legendas eletrônicas passou mal e o ar-condicionado não estava funcionando. Bom presságio não era. Com atraso de mais de meia hora, chegou a substituta para operar o computador das legendas. Ótimo, um problema a menos.

O filme, finalmente. As primeiras cenas parecem idílicas: duas crianças e um bebê. Logo se percebe que os dois cuidam sozinhos dele. Um deles prepara o leite para a mamadeira na cozinha, os dois vão ao supermercado e afanam alimentos. Uma pergunta provisória: será outro filme sobre filhos abandonados como o Ninguém Pode Saber, de Kore-eda?

Assoma à porta uma mulher bêbada e descontrolada. Deve ser a mãe dos três meninos. Grita e estapeia o mais velho porque não acha a garrafa de vodca. Escorrega na cozinha e, caída, assim fica. Os filhos a veem largada sobre a poça de sua urina. Numa travessura típica de crianças, deixam o aquecedor em contato com a urina e ligam. Mesmo com o choque, ela continua desmaiada.

Depois que a mãe some de novo, o mais velho pega a garrafa que havia escondido. Bebem até cair, ouvem música em altíssimo volume, dançam, fumam. Próxima cena: a sala desarrumada e os dois “desmaiados” no sofá. Um deles vai até o quarto ver o bebê. A quem os irmãos tinham batizado de Martin, está morto.

Nick (Jacob Cedergen) e o irmão (Peter Plaugborg)
Corte. Anos depois. Nick (Jacob Cedergren) mora num abrigo municipal, é um desocupado que se ocupa fazendo musculação, depois te ter ficado dois anos preso por agressão física. Bebe muito e sofre pela perda de Mona (Helene Reingaard Neumann). Ela tem um irmão amalucado e infantilizado – Ivan (Morten Rose). Lamuria-se por ser virgem. Gordo e abobalhado, não consegue se aproximar de nenhuma mulher. Recebe ajuda do ex-cunhado, que o “aproxima” da vizinha de quarto do abrigo, com quem tem relações íntimas casuais. A mulher é morta, pois, assustado com seus gritos e gemidos, Ivan a estrangula. Esse acontecimento representa a gota-d’água para Nick. Procura Mona e pede que Ivan não o procure. Nick é considerado suspeito e é preso. Não faz nada para se inocentar.

O irmão (Peter Plaugborg) vive num apartamento com um filho pequeno. Vive de algum subsídio que ampara dependentes químicos que tentam se livrar do vício. Inicialmente, mantém as responsabilidades básicas de um pai, como levar o filho para a escola, preparar a comida. Sem conseguir se livrar da heroína, droga-se em doses cada vez maiores. Martin, às vezes, tem de acordar o pai caído no chão para que o leve à escola. Envolve-se com o tráfico para sustentar o vício e o filho. Acaba sendo preso, como era previsto.

Ambos, por coincidência, encontram-se presos na mesma cadeia. Depois de tantos anos à procura do irmão, consegue trocar algumas palavras com ele, mas separados por grades. É o limite. Conseguir cuidar do filho era um jeito de se redimir do passado. Estando na cadeia, não mais seria possível. Mata-se.

A morte é a impossibilidade definitiva. O segundo “encontro” dos irmãos é na igreja onde é velado o corpo. O menino, órfão de pai e mãe, senta-se ao lado do tio. Este lhe diz que mais tarde irá explicar por que seu nome é Martin.

Não há redenção em Submarino, de Thomas Vinterberg, conhecido entre nós por Laços de Família e por ter sido, com Lars von Trier, um dos criadores do movimento Dogma 95. O mundo é cruel. Para alguns, mais, para outros, menos. É um pouco uma frase de James Joyce: “A história é um pesadelo do qual  estou tentando acordar.”

Ao final da exibição, percebe-se que a sala BNDES, da Cinemateca São Paulo, está realmente quente. O ar não estava funcionando mesmo.

O trailer de Submarino:

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