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Quando James Brown morreu, disseram
que seu corpo tinha desaparecido do túmulo
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Coisas do destino, minha nega
Jones nasceu em 1956 e quem a ouviu ou acaba de conhecê-la, achará estranho nunca ter ouvido falar dela antes, se é tão boa cantora. Como muitas pessoas pobres de ascendência negra, cresceu frequentando e cantando em corais de igrejas. E como tantas outras de sua idade, cresceu ouvindo músicas lançadas pelas gravadoras Stax e Motown, tendo como ídolos James Brown, Otis Redding e Sam Cooke.
Para não sair tanto do script, quis ser cantora. Além de cantar na igreja, fez backing vocals para diversos intérpretes. Mas quando imaginou que poderia gravar discos sob seu nome, ouviu coisas como “você é muito negra e gorda” ou “você não é bonita” etc.
O tempo foi passando e notou que aquilo de tornar-se cantora não era para ela. Foi pegar no pesado e, pelo seu porte físico, quem sabe, poderia trabalhar na polícia. Passou no teste e virou carcereira de uma penitenciária em Nova York (nascera na Geórgia, mas cedo mudara para essa cidade). Depois, ainda, trabalhou de segurança de carro-forte do tradicional Wells Fargo Bank.
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| Nem todos os Daps são negros |
Gabriel Roth e Philip Lehman eram donos de um selo francês, a Pure Records. Em 1996, para o álbum que estavam gravando com o cantor soul Lee Fields, precisavam de três cantoras para os backing vocals. Uma delas era Sharon, que deixou os produtores impressionados com sua voz. Gravaram uma faixa apenas com ela intitulada Switchblade, que foi incluída em Soul Tequilla, disco da banda Soul Providers.
Sharon não caiu das nuvens. Tinha sido casada com um saxofonista componente do Soul Providers, que lembrou dela quando os produtores precisaram de vocalistas para os backings. Os donos da Pure resolveram montar uma nova gravadora nos EUA e chamaram-na de Desco. Dois membros da banda Mighty Imperials se juntaram ao Soul Providers e mudaram o nome para Dap-Kings, e a Desco virou Daptones. Já como Sharon Jones & The Dap-Kings, gravaram dois álbuns, um em 2001 (Dap-Dippin’), e outro em 2005 (Naturally). Quando lançaram 100 Days, 100 Nights, em 2007, Sharon e a banda já eram muito prestigiadas por uma legião de fãs, bem como pela crítica especializada.
Não foi obra do acaso o som dos Dap-Kings chamar a atenção de Mick Ronson, produtor de Amy Winehouse. O som sessentista dessa banda não fazia feio comparado às que acompanharam Otis Redding, Wilson Pickett e outros reis do funk e do soul. Por obra do destino – ou das conjunções – Sharon Jones ficou conhecida, por tabela. Que eram os tais Dap-Kings. E assim cumpriu-se o destino de Jones, que quisera ser cantora e gravar um disco. Tardiamente, mas nunca é tarde. E quem a ouve, surpreende-se, pois parece que nasceu feita.
A primeira faixa do disco 2007, 100 Days, 100 Nights, é um aviso do que virá. A combinação dos sopros, trumpetes e saxes em riffs contagiantes e o sax-barítono fazendo o contraponto grave aos sons agudos é eletrizante. A voz vigorosa de Sharon tem personalidade e ela é a rainha. Até na pose da capa, com vestido dourado cintilante e sandálias idem, isso fica claro.
Com caras de homens maus, em costumes pretos e blusas vermelhas de gola olímpica, posam atrás de Sharon Jones que, mais uma vez, faz aquela pose de “eu posso”, altiva, queixo levantado, uma das pernas pouco a frente da outra, pouco mais gordinha do que no disco anterior, em I Learned The Hard Way. O título é perfeito para essa cantora que o destino e as circunstâncias revelaram. O disco é bom, mas não tão impactante como o anterior. Soa, às vezes déjà vu, lembrando ora Marvin Gaye; ora os Dap-Kings parecendo uma emulação da fabulosa banda que acompanhava Otis Redding. A música, no entanto, é uma realimentação do que já foi feito. As brancas Joss Stone e Amy Winehouse são exemplos. Mesmo assim, fazem boa música; que é o mais importante.
Ouça Money. Tem um pouco de Al Green, um pouco de Marvin Gaye. E daí? É da boa.


guen,
ResponderExcluiragora uma visita mais demorada. eu até já tinha ouvido money recorrendo a sua dica e achando no youtube. ouvi outras coisas dela. gostei mais de 100 days...
sabe guen... lembra que um dia eu falei, num tópico seu lá no portal, que meu gosto não era guiado por nenhum conhecimento maior sobre música. ouvia com a alma, e pronto? (achei até que vc não gostou do comentário... mas não era uma crítica, mas mais uma autocrítica) então... sharon jones de 100 days sounds better to my soul... o que eu não gostei em money? o grito. me lembra elza soares... remete para o jazz, mas não me emociona, entende? ainda que tenha gostado demais da letra...
mas teu blog é delicioso. aulas de emoção. da tua emoção compartilhada com quem te lê. e isto é muito gostoso. virei sempre te visitar, pode ter certeza.
Luzete, não lembro de não ter gostado de algum comentário seu. Que bom que vc está gostando. Coloquei Money porque, apesar de não achar que seja ruim, é um pouco pastiche, uma mistura de vários intérpretes do soul. Ouvi os dois CDs e o “100 Days…” é bem melhor que o último, “I Learned the hard way”.
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