quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A dor maior em tom menor

A Nana da época dos festivais, aqui com Gil
Se no “amor por toda a vida” o tom é menor, imagine então quão “menor” é o tom em Canção em Tom Menor, outra composição de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes. A amiga Luzete disse que falar sobre esse assunto “é matéria complicada; melhor deixar pras coxias da vida!” Verdade. Musicalmente, o juramento que faz é “sofrido” e “ser somente teu e amar-te como nunca / ninguém jamais amou, ninguém” é uma atitude radical se, em nome desse amor, aparta-se do mundo externo. Talvez essa dubiedade entre felicidade e “apartamento” tenha dado o tom que Jobim imprimiu à letra.

Sofridos mesmo são os versos de Canção em Tom Menor: “Porque cada manhã me traz/ O mesmo sol sem resplendor/ E o dia é só um dia a mais/ E a noite é sempre a mesma dor/ Porque o céu perdeu a cor/ E agora em cinzas se desfaz/ Porque eu já não posso mais/ Sofrer a mágoa que sofri/ Porque tudo que eu quero é paz/ E a paz só pode vir de ti/ Porque meu sonho se perdeu/ E eu sempre fui um sonhador/ Porque perdidos são meus ais/ E foste para nunca mais/ Oh, meu amor/ Porque minha canção morreu/ No apelo mais desolador/ Porque a solidão sou eu/ Ah, volta aos braços meus, amor.”

É de cortar os pulsos. Se Por Toda a Minha Vida é a jura do amor eterno, nessa é a dor da perda e a súplica pela volta do amado. Quem seria a(o) intérprete ideal para uma música tão dilacerante? Nana Caymmi? Para muita gente seria o primeiro nome lembrado.

Dinair de nome original, Nana é de uma família musical: o pai Dorival, e a mãe Stella Maris. Fora isso, tem dois irmãos, músicos excepcionais. Foi “apresentada” a um público maior na época dos festivais de música, tão populares a partir do meio da década de 1960, mas já tinha participado de Tom Canta Caymmi, em 1964, e tinha gravado o solo Nana, ambos pela gravadora Elenco. (leia mais sobre Nana em http://bit.ly/p90k1D)

Depois de um “sumiço” por conta do casamento e nascimento do filho, separada, voltou à ativa gravando discos pela gravadora CID, já em meados da década seguinte. São todos excepcionais, contando com participações especialíssimas como as do irmão Dori nos arranjos, Milton Nascimento e Tom Jobim. São músicas, no geral, densas. É uma pena que tais discos estejam fora de catálogo ou que suas músicas estejam espalhadas em coletâneas. Quando passou a gravar pela EMI, Nana não deixou de ser densa, mas ficou menos. Lançados ainda na época dos LPs, as embalagens da CID passavam uma imagem de baixa qualidade. O que estava contido, no entanto, nessas pobres capas mal plastificadas eram diamantes brutos “dramaticamente” lapidados. Nana gravou e revelou canções – algumas pouco conhecidas – como Branca Dias (Edu Lobo e Cacaso), Tens Calmaria e Mãos de Afeto (Ivan Lins), Sacramento e Boca a Boca (Milton Nascimento), e Se Queres Saber (Peterpan) em leituras, na falta de melhor palavra, viscerais. Mesmo canções mais conhecidas, como a citada Sacramento, ganham um tom autoral. É dessa época a gravação de Canção em Tom Menor. Ela canta acompanhada por ninguém menos que Antônio Carlos Jobim. É impressionante o grau de dramaticidade que Tom imprime ao piano com tão poucas notas. Confira.




Canção em Modo Menor, executada e cantada por Antônio Carlos Jobim.


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Por toda a minha vida ou o amor incondicional

Nunca haverá o “amor por toda a minha vida”, mas não custa pensar de que possa existir; ou seguir o princípio “viniciano” – um neologismo torto para a conhecida frase de Vinícius de Moraes: “o amor, que seja eterno enquanto dure”.

Qualquer ser humano, um dia, sonhou ou se iludiu que o amor nutrido por outra pessoa seria eterno, provavelmente. Imagino que existam alguns felizardos e esses devam ser invejados. Às vezes, penso se o amor que a Brisa – minha cachorra – nutre por seu dono é um amor incondicional. Mas é um animal de reino diferente ao qual pertencemos. Mesmo assim, por um átimo de tempo ou num impulso em que tudo pode parecer tão perfeito e harmônico, o “apaixonado instantâneo” poderia ter escrito versos assim: “Oh, meu bem amado/ Quero fazer de um juramento uma canção/ Eu prometo por toda a minha vida/ Ser somente teu e amar-te como nunca/ Ninguém jamais amou, ninguém// Oh, meu bem amado/ Estrela pura, aparecida/ Eu te amo e te proclamo/ O meu amor, o meu amor/ Maior que tudo quanto existe/ Oh, meu amor”. Melhor esclarecer: nunca seriam tão belos como esses, que são de Vinícius de Moraes. Outra observação: o “amor por toda a vida” é uma música em tom menor e, em vez de transmitir ideia de felicidade, passa uma sensação fatalista.

Difícil discordar do quase consenso de que o Por Toda a Minha Vida gravado por Elis Regina em Elis & Tom, acompanhada por uma orquestra de cordas arranjada por seu marido à época, Cesar Camargo Mariano, é “A” interpretação. Aliás, esse disco gravado em 1974, em pouco mais de duas semanas, é uma coleção de “melhor das melhores” das composições de Jobim.

Elis & Tom transformou alguns paradigmas da interpretação do repertório jobiniano, mas nem por isso alguém vai deixar de gravá-lo. Ouvindo a brasileira radicada em Londres (não sei se continua lá) cantando Por Toda a Minha Vida, faz-me pensar que standards de qualquer classe ou categoria podem (e até devem) ter um “quê” de transgressão, algo como um ato psicanalítico de ruptura criador/criatura.

Cibelle no encarte do segundo CD
O percurso de Cibelle, como o de alguns músicos e intérpretes brasileiros que estão na “bem falados”, passaram pelas mãos do produtor sérvio Suba, trágica e precocemente morto. Foi a principal vocalista de São Paulo Confessions, lançado pela Crammed Discs. A cantora, que foi modelo também, chamou a atenção e foi convidada a continuar a trabalhar com a gravadora. No primeiro, de 2003, já mostrava ao que veio. Fez um belo disco e desvela a candura de sua voz; e a parte bacana: resgata Johnny Alf do esquecimento (sobre ele leia: http://bit.ly/q2KkEw) em que toca teclados (Fender Rhodes) e canta Inútil Paisagem com Cibelle.

O segundo, de 2006, é um álbum de nome meio psicodélico e intrigante: The Shine of Dried Electric Leaves. É apenas o título do disco; não tem nenhuma música com esse nome. Mistura músicas compostas por Cibelle, só ou em parcerias com Apollo Nove e Mike Lindsay, conta com participações de Seu Jorge e Lany Gordin, e canta composições de Jobim, Caetano Veloso (London London, Cajuína), e Tom Waits (a belíssima Green Grass, a primeira do CD). A de Jobim é, exatamente, Por Toda a Minha Vida, que você ouve a seguir.

Seu último CD é puro estilo. Cibelle se traveste de Sonia Khalecallon, um trocadilho com os nomes da artista mexicana cult Frida Khalo e da artista conceitual Sophie Calle, que resulta em sonoridade que traz à memória a expressão “canecalon”. Gerações mais recentes devem não conhecer as famosas perucas femininas de canecalon, que eram feitas de material sintético imitando cabelos naturais. Apesar de todo o conceito e do nome impactante do CD – Las Vênus Resort Palace Hotel –, não é tão bom quanto o anterior.


Cibelle canta Por Toda Minha Vida.



Será a versão de Por Toda Minha Vida, de Elis & Tom, a definitiva?