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quinta-feira, 16 de março de 2017

Quando dá tudo certo para Larry Coryell

O jovem Larry Coryell
Quase um mês após a morte de Larry Coryell, depois de ouvir alguns discos com mais de uma centena – imagino – de lançamentos, uma confirmação: atirou para todos os lados e nem sempre acertou. O mérito vai por alguns álbuns marcantes, e são esses que vou destacar.

Pelas notícias, matérias e obituários, Larry será lembrado como um dos pioneiros do jazz progressivo, por meio de sua música na banda Eleventh House. Confesso nunca ter gostado dele nessa fase. Comprei o primeiro – Introducing The Eleventh House (Vanguard, 1974) –, e não gostei. Não me agradou o som de sua guitarra elétrica e nem o som da banda.

O interesse foi por ter gostado bastante de Spaces, lançado em 1970. Contava com John McLaughlin, Chick Corea, Miroslav Vitous e Billy Cobham. Cada um deles eram ou seriam depois parte de bandas importantes do jazz elétrico. McLaughlin tinha gravado o espetacular Extrapolation, participara da banda de Tony Williams e de Miles Davis, e estava montando a Mahavishnu Orchestra, Corea, depois de um auspicioso início acústico, tocava com Miles e gestava a Return to Forever, Vitous era um dos fundadores do Weather Report, e Cobham foi o baterista da banda criada por McLaughlin. Era um grupo estelar, deveras.

Ouça Spaces (Infinity), a primeira faixa. Tudo é genial a partir da abertura do contrabaixo de Vitous no arco, as notas acordes esparsos de McLaughlin para os solos de Coryell.



The Eleventh House, diferentemente, ao contar com Randy Brecker, Mike Mandel, Danny Triffan e Alphonso Mouzon, sinalizava para o brilho único de Larry. Não deu muito certo. Nem chegava aos pés do Return to Forever, Weather Report e Mahavishnu Orchestra.

The Restful Mind, na minha opinião, é o melhor disco de Coryell. São possíveis duas conclusões: sua melhor sonoridade é com o violão, e não com a guitarra elétrica; a outra é a de que abre-se aqui um veio para o seu trabalho posterior, que é a releitura de compositores da música erudita. Em várias faixas, Larry toca composições de Robert De Visée. Pode-se terceira uma terceira conclusão, no entanto, está evidente em Spaces: ele brilha quando acompanhado de bons músicos. É o que acontece com o LP que saiu em 1974. Os músicos são Ralph Towner, Colin Walcott e Glen Moore. Na verdade, até por serem contratados da mesma gravadora, a Vanguard, esse disco é praticamente o Oregon, sem Paul McCandless, com Larry. O som, evidentemente, remete à banda de Towner, mas os dois violões funcionam em perfeita harmonia.

Ouça Robert de Visée’s Menuet II. A guitarra de Coryell, o violão de Ralph Towner, a tabla de Collin Walcott e a marcação do contrabaixo de Glen Moore, tudo é perfeito.




Posso estar enganado, pois sua discografia é muito grande, mas o primeiro disco que Coryell lançou tocando com outro guitarrista é Two for the Road, com Steve Khan. Se for, é uma brilhante primeira vez com outro guitarrista/violonista.

Deixando de lado a preocupação cronológica, Larry gravou vários álbuns em dupla ou em trio com outros guitarristas: Philip Catherine, Emily Remler, Joe Beck, John McLaughlin, Paco De Lucia, John Abercrombie, John Scofield, Kazuhito Yamashita, Badi Assad, dentre outros. Aparentemente, quando tem concorrência, toca melhor.

Um dos melhores shows da primeira versão do Free Jazz Festival, foi a apresentação de Larry Coryell, em dupla com o belga Philip Catherine. Acho que foi em 1978 ou 1979. O repertório era do recém lançado Twin-House. Foi uma bela surpresa para os brasileiros, um tanto por fora da cena mundial do jazz. Foi tanta que originou o surgimento do Grupo D’Alma, um trio de violonistas que fez bastante sucesso. De repente, todo violonista queria ter um Ovation, que era a marca que ambos usaram nas apresentações. Na minha escala Richter, esse álbum fica em terceiro lugar.

Ouça Home Comings, composição de Philip Catherine.



Depois de Twin-House, os dois lançaram Splendid, nem tão bom quanto o primeiro, apesar da sugestão do título. Ainda no formato duo, Larry gravou dois bons álbuns com a boa guitarrista Emily Remler que, infelizmente, morreu cedo. Sobre ela, leia: Por que pouco se falou de Emily Remler?.

Os encontros de violonistas renderam um bocado, assim como os dos tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Placido Domingo. Em formações que variaram, Larry tocou com o espanhol Paco Di Lucia, Al DiMeola e John McLaughlin. Prevaleceu essa formação, mas ele chegou a participar de algumas apresentações, se não me engano, no lugar de DiMeola.

Veja Coryell com McLaughlin e De Lucia em Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá.

 

Releitura de clássicos
A música erudita estava presente no repertório desde The Restful Mind, com temas de Robert De Visée e Maurice Ravel (tinha esquecido dele na primeira parte), com uma estupenda interpretação da Pavane pour une enfant défunte. Posteriormente, foram agregadas outras obras de Ravel, como o Bolero, Vivaldi, Stravinsky, Manuel De Falla, Pablo de Sarasate, George Gershwin e Rimsky Korsakov. Em The Four Seasons (1984), com o violonista clássico Kazuhito Yamashita.

Ouça Pavane pour enfant défunte.



Os outros que conheço, que seguem a vertente erudita são: Boléro (Ravel, De Falla e Sarasate), Scheherazade (Rimsky-Korsakov), L’Oiseaux de feu/Petrouchka (Stravinsky) e Visions in Blue (Ravel e Gershwin), mas nenhum é tão bom quanto As Quatro Estações.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Por que pouco se falou de Emily Remler?

Apesar de ter nascido em plena Manhattan, Emily Remler gostava de dizer que era uma “jersey girl”. Verdade. Nasceu na ilha, mas cresceu na aprazível Englewood Cliffs, do outro lado do rio Hudson. O irmão tinha uma guitarra elétrica. Gostava de Jimi Hendrix, Beatles e Rolling Stones, como qualquer garoto de sua geração. Foi com a sua guitarra, uma Gibson ES 330, que Emily arriscou suas primeiras notas. Nem chegara à adolescência. Suas primeiras referências, aqueles que admirava, eram Eric Clapton, B.B. King e Johnny Winter. Se fosse pelo gosto, o caminho natural seria virar uma blueswoman.

Emily gostava de desenhar. Entre ser músico, achava que seria melhor optar pelas artes visuais, profissionalmente pensando. Pretendia entrar na Rhode Island School of Design, mas suas notas baixas eram um impedimento para ser aceita em boas escolas. Meio que por falta de opção e por ver que tinha jeito com a guitarra, mesmo não lendo música, acabou indo para a Berkleee College of Music, que a aceitara. Para ela, jazz era um gênero em que se tocava um monte de notas. Nem Miles Davis ou John Coltrane lhe pareciam interessantes. Ao ouvir Charlie Christian e o sax alto de Paul Desmond passou a considerá-lo. Wes Montgomery e Pat Metheny fizeram com que realmente passasse a gostar e interessar-se pelo jazz.

A música brasileira foi outra coisa que chamou a sua atenção, graças à aproximação com Célia Vaz, que estava na Berklee estudando regência e composição. Deve em seu estilo o jeito meio bossa à brasileira.

Ao terminar a Berklee, com alguns amigos da escola, foi parar em New Orleans. Em 1977, nem tinha completado 20 anos, e acontece o que iria mudar a sua vida. Conhece Herb Ellis, o guitarrista que tocou por muito tempo com Oscar Peterson. Foi convidada a participar com Herb Ellis, Charlie Byrd, Joe Pass, Tal Farlow, Barney Kessel e o contrabaixista Ray Brown do “Great Guitars”, no Concord Jazz Festival. De volta a Nova York, tocou com Astrud Gilberto, Nancy Wilson e John Clayton. Convidada por Gregory Hines, participou do musical “Sophisticated Ladies”.

O ano de 1981 foi “a very good year”, como está escrito no site http://allthingsemily.com. Estava casada com o pianista Monty Alexander, e fora considerada a “woman of the year” pelo crítico Leonard Feather. Lançou seu primeiro álbum, “Firefly”, pelo Concord, e tinha entre seus acompanhantes nada menos que o pianista Hank Jones.

O futuro parecia róseo para Remler. Gravou vários discos pelo mesmo selo, um deles com um de seus ídolos, Larry Coryell. Em 1989, assinou contrato com a Justice Records. Buscava por mudanças, estilísticas também. No ano seguinte, estava em Sidney, Austrália, e sofreu um ataque do coração fulminante. Dizem que pode ter sido consequência de seu consumo de opiáceos. Não foi a primeira a ter a carreira interrompida pelo uso abusivo de drogas.

Emily toca “How Insensitive”.



Ouça “Softly as in a Morning Sunrise”. Esta canção está em “East to Wes” (Concord, 1988).





quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O jazz se encanta com Pavane pour une infante défunte, de Maurice Ravel

Maurice Ravel e seu piano



Pavane é composição da juventude; fora composta quando ainda era estudante. Como outras dezenas, fora feita originalmente para o piano e, depois, feita uma versão orquestral pelo próprio Ravel. Nesse quesito sempre foi um mestre; basta ouvir a transposição para orquestra que fizera de uma obra alheia: Quadros de Uma Exposição, de Mussorgsky.

Não deve ter havido peça mais maltratada do que a conhecida como “Ode à Alegria”, que corresponde ao último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven, por intérpretes da música popular. Perpetraram versões “pop”, virou hino e tema de encerramento de eventos esportivos etc. Lembro de uma versão da Ode à Alegria lançada no fim da década de 1960 – ou será início dos 1970? – que atingiu sucesso estrondoso. Beethoven e Schiller mereciam um pouco mais de consideração. Perto do que foi feito, a versão “elétrica” do tecladista Walter Carlos, mais tarde, Wendy Carlos, para o filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, era refresco. No entanto, Beethoven não foi a única vítima dos intérpretes da música popular: tanto Mozart como Chopin e Richard Strauss tiveram suas músicas “vulgarizadas” para o gosto da patuleia. Esse tipo de “popularização” faz com que alguns incorram em casos parecidos à de uma amiga que, ouvindo um pedaço da Ode à Alegria, no original, disse: “oh, é a música do Laranja Mecânica!”. Beethoven não estava no seu repertório de conhecimentos.

Considerando-se alguns desses casos, pode-se dizer que Ravel foi mais respeitado. Há muito está no repertório dos jazzistas. Para o piano, é natural, pois muitos desses instrumentistas tiveram aprendizado clássico e conhecem bem música erudita. Mas não é só no piano que ela tem sido interpretada. A primeira que devo ter ouvido é uma de Larry Coryell, no álbum The Restfull Mind (Vanguard, 1974). Dos discos de Coryell, esse e Spaces (Vanguard, 1969) estão entre os melhores que gravou. The Restfull Mind é quase um disco da banda Oregon, com o acréscimo de Coryell; o único ausente do Oregon é o saxofonista e clarinetista Paul McCandless (os outros são Ralph Towner, o percussionista Colin Walcott e o baixista Glen Moore). Para que tenha atingido o estado de arte, a participação de Ralph Towner foi essencial. Excelente violonista, melhor até que Coryell, tecnicamente, “inaugurou” duos de violão que fez com o belga Philip Catherine e, mais tarde, com John McLaughlin, Al DiMeola e Paco de Lucia. Sem tirar o mérito de Coryell, responsável pela totalidade das composições e arranjos sobre obras de Ravel e do, relativamente obscuro Robert De Visée, instrumentista e compositor da corte de Luís XVI, Towner é corresponsável pela qualidade de The Restfull Mind. A Pavane de Ravel é um duo de Towner e Coryell, com arranjos do último.

Dentre as interpretações que conheço, além dessa, de Coryell, há outra no CD, com o título da peça de Ravel vertida para o inglês – Pavane for a Dead Princess (Venus Records, 2006) –, pelo pianista Steve Kuhn, tendo como sidemen o baixista David Finck e o baterista Billy Drummond. O tema recebe uma interpretação jazzística mesmo, em que Kuhn não se limita às notas originais. É interessante, mas nada de excepcional.

Os que estão acostumados a ouvir a Pavane em seu desenho original, apenas ao piano, ou na sublime versão orquestral não ficarão assustados ou mortificados e, muito menos, rogarão alguma praga em Art Farmer por sua interpretação que está contida em Big Blue (CTI, 1979). Acompanhado pela guitarra bela e econômica de Jim Hall, o vibrafone (essencial para o “clima”) de Mike Manieri, Mike Moore no baixo, e Steve Gadd na bateria, apesar dos improvisos e solos de praxe das improvisações jazzísticas, mantém-se no clima algo etéreo e evocativo da composição original.

Uma quarta interpretação da Pavane por alguém ligado ao jazz é a de Branford Marsalis em Creation (CBS, 2001). Esse álbum é dedicado apenas a composições eruditas de Ravel, Debussy, Fauré, Satie, Jacques Irert e Darius Milhaud, interpretadas por Branford nos saxes e a Orpheus Chamber Orchestra. A Pavane de Marsalis é fiel à original, arranjada para sax soprano.

A ligação mais incontestável com o jazz da Pavane está representada na música The Lamp Is Low. Essa composição da década de 1930 foi composta por Peter DeRose e Bert Schaffer com letras de Mitchell Parish e é uma adaptação dessa composição. Foi cantada pela primeira vez por Mildred Bailey e, posteriormente, por Frank Sinatra, Johnny Hartman, Carmen McRae, Doris Day e Ella Fitzgerald (são as que conheço).

Ouça Pavane for a Dead Princess com Larry Coryell.

A Pavane com Branford Marsalis é com ele no sax soprano, com a Orpheus Chamber Orchestra. Ouça.

Uma interpretação da Pavane, muito boa, é a do genial e discreto pianista Steve Kuhn.

Ouça a de Art Farmer. É de uma sonoridade rica, com guitarra de Jim Hall, e vibrafone, captando toda a magia hipnótica da música de Maurice Ravel.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Larry Coryell e Philip Catherine: o primeiro duo de violão?


Os irmãos Natalicio e Antenor Lima, 
os “índios” tabajaras
Se alguém está colocando em dúvida de que os dois foram os primeiros a gravar em duo na história, não me venham com o Los Indios Tabajaras. Para quem não sabe quem são, uma informação: apesar do nome, um pouco estranho – em espanhol? – era um duo composto por dois brasileiros, habéis no violão. Os dois irmãos, Natalicio e Antenor Lima, se vestiam de índios em suas apresentações. Nos anos 1940, eram contratados da RCA, divisão latina. Com uma música mexicana – Maria Elena – atingiram a estupenda marca de um milhão de discos vendidos e ganharam o Disco de Ouro, agraciamento máximo para qualquer artista.

O Los Indios Tabajaras são apenas um exemplo para se dizer que, certamente, o americano Coryell e o belga Philip Catherine não foram os primeiros a explorar esse formato. Mas de uma coisa não dá para duvidar: o sucesso dessa dupla ocasional inspirou muitos violonistas a montarem conjuntos de dois, ou até mais. Os dois se apresentaram nos primeiro São Paulo–Montreux Jazz Festival, 1978. Para quem não sabe do que se trata e nem assistiu às apresentações, fiquem com inveja. Além dos dois, apresentaram-se Al Jarreau, Chick Corea, John McLaughlin, Dizzy Gillespie, Stan Getz, Benny Carter, Astor Piazzolla, Ray Brown, Zoot Sims, e, entre os brasileiros, Hermeto Pascoal, Helio Delmiro, Hermeto Pascoal, Luiz Eça, Raul de Souza, Marcio Montarroyos. Ficou com inveja?

Coryell (a esq.) e Philip Catherine
Com certeza, aqueles que formariam o Grupo D’Alma – André Geraissati, Ulisses Rocha e Ruy Saleme – estavam lá. E, provavelmente, Luis Bueno, arquiteto e violonista, que, em 1977, se juntaria ao alagoano de Arapiraca, Fernando Melo, para formar uma banda de rock progressivo, inicialmente e, no ano seguinte, o que se tornaria o Duofel, em 1978, estava na plateia. Coincidência? Surgiram depois da apresentação que Larry Coryell e Philip Catherine fizeram em São Paulo. Todos os citados tinham perto de 20 anos na época quando viram essa apresentação inesquecível.

Alguns grandes violonistas conhecidos e consagrados têm se reunido e feito shows em festivais ou gravado CDs e DVs. Um dos primeiros foi o que reuniu John McLaughlin, Al DiMeola e Paco de Lucia, na Califórnia e lançado em CD como Friday Night in San Francisco (1981) . O tema de Mediterranean Sundance, de Al DiMeola, tornou-se um clássico (veja o vídeo da apresentação abaixo). DiMeola e McLaughlin eram bem conhecidos pelos fãs do fusion jazz e Paco de Lucia apenas pelos que tinham visto Carmen, filme de Carlos Saura, Após essa gravação, o mundo conheceu a arte do espanhol de cabelos longos e calva em estágio inicial, pelo menos, naqueles tempos em que ficou conhecido.

Duos, trios ou quartetos de violão ficaram comuns e fórmula certeira de sucesso. Além dos três, ressurgiu um dos criadores desse formato – Larry Coryell –, e o francês cigano Biréli Langrène, todos hábeis instrumentistas. Em todas as apresentações não faltam Mediterranean Sundance e Spain, este, um belíssimo tema de Chick Corea.

Quando Coryell e Catherine vieram ao Brasil, tinham acabado de lançar o álbum Twin House (1977). Cada um deles é ouvido em um dos canais de áudio. É interessante para se comparar as diferenças de estilo de ambos. O disco é uma coleção de originais, em que se destacam Ms. Julie (Coryell) e Home Comings (Catherine). Das alheias, Mortgage on Your Soul (Keith Jarrett) é excepcional, assim como Gloryell (Jimmy Webb), e Nuages, do pai de todos os guitarristas, Django Reinhardt. Os dois gravaram juntos uma segunda vez – Splendid Hotel –, mas é uma relativa decepção. Também, depois de um primeiro tão bom, tal possibilidade era grande.

Ouça o álbum TwinHouse.