sexta-feira, 4 de março de 2011

Velhos carnavais em São Paulo

Carro alegórico da Villa Kyrial dirigindo-se
para o corso na Avenida Paulista (1917)
Quem está se guardando para quando o carnaval chegar? Fugindo ou não, comemoram-se os dias, seja para descansar ou para cair na farra mesmo. Engana-se quem pensa que paulista não gosta de carnaval. No capítulo “Pierrôs e colombinas”, de Villa Kyrial – Crônica da Belle Époque Paulistana (Editora Senac), Marcia Camargos conta sobre o tradicional bloco organizado por Freitas Valle, que saía nos domingos de carnaval pela avenida Paulista. Leia:




“Morreu em pleno domínio da sua inteligência, da sua vontade e das suas energias. Morreu como vivera: aproveitando todos os instantes fugazes da vida que passa para empreender e realizar as coisas eternas que enriquecem e ilustram a nacionalidade.” (Brito Broca, A vida literária no Brasil: 1900, cit., p. 32)


Inspirado nos carnavais europeus de Veneza e de Nice, com arlequins, pierrôs e colombinas de emoções comedidas, o corso do início do século XX realizava-se no Triângulo, o ponto nevrálgico da capital, na interseção das ruas Direita, XV de Novembro e São Bento. Desfilavam tílburis e caleças que levavam meninos em pé sobre o estribo ao lado de moças e rapazes ricamente fantasiados, carregando sacos de confetes multicoloridos ou dourados, os mais chiques de todos. Do alto dos veículos enfeitados jogavam serpentina e lança-perfume uns nos outros e na multidão que acompanhava da calçada, entre maravilhada e incrédula, o jogo da ostentação.


No decorrer da primeira década a Avenida Paulista, inaugurada em 1891 com três vias carroçáveis, se transformaria na artéria elegante da futura metrópole. Durante a gestão do conselheiro Antônio Prado, em 1908, seria alvo de uma série de melhorias, como calçamento e passeios mais largos e ligustruns e ipês no lugar das quatro fileiras de magnólias e plátanos. Ampla e arborizada, enobrecida pelos suntuosos palacetes dos barões do café e imigrantes enriquecidos, atraía os foliões da elite. A partir de 1911, transferiram para lá a mania do corso, que alcançaria o ponto culminante em 1915, quando ela foi asfaltada. Entre as quatro horas da tarde e as dez da noite, o corso passava lentamente em dupla direção, percorrendo o trecho que ia da Praça Osvaldo Cruz ao final da avenida. Com quatro filas de carros em baixa velocidade, cujos motores não raro ferviam, repetiam as tardes de sábado e domingo, que vieram, na Paulista, substituir o footing.


Sem pressa, já que a lentidão, assim como o traje desconfortável, constituía prova de ociosidade e sinal de aristocracia, a nova burguesia industrial, alçada à condição de classe dominante, desfilava. Para os quatrocentões que ainda a olhavam com certo desdém, vinha exibir, no “brilho metálico de suas viaturas”, a fortuna recém-adquirida. As grandes casas armavam tablados junto aos muros para assistir ao corso, e ao anoitecer acendiam todas as luzes e convidavam os conhecidos para tomar refresco. Ao cair da tarde, provavelmente vindo da Villa Kyrial, Washington Luís, de chapéu gelô, risonho e de cavanhaque, por ali transitava, tendo a seu lado Freitas Valle, que, contente, solícito, sobre ele se debruçava certamente contando coisas jocosas.


Se ao longo do ano as ruas eram tomadas por cadillacs conversíveis, no carnaval só se viam landôs, vitórias abertas ou qualquer carro cuja capota pudesse ser completamente arriada. Na Loja Flora ou Hortolândia, recebiam roupagem especial, própria para a ocasião, ressurgindo na avenida transmutados em pagode chinês, cobertos de hortênsias ou em caramanchão de cravos vermelhos. Havia também barcos com vela de azaléias e casco de rosas e cisnes de dálias brancas. Certas famílias que não possuíam carro particular quotizavam-se para alugar caminhões decorados com fitas, folhagens e flores. Enchiam-se de rapazes e moças, cujas mães e homens do clã, sempre atentos, apertavam-se no comprido banco central, com assentos de um lado e de outro. Os de menores recursos utilizavam artifícios menos dispendiosos, adornando a lataria com colchas bordadas e arranjos florais. Num desses carnavais o florista Nemitz pôs em prática antiga idéia de Valle. Construiu sobre um caminhão uma cesta toda enfeitada, dentro da qual se colocaram cerca de trinta pessoas, entre artistas e amigos do senador, vestidos de pierrô branco com botões vermelhos. Esse carro causou furor no corso, precedido pelo automóvel do “chefe” Freitas Valle, um pierrô de cetim vermelho com botões brancos...

Os artistas e convidados reunem-se na Villa Kyrial em dia de folia


Curiosamente, Freitas Valle faleceu a 14 de fevereiro de 1958, sábado de carnaval. Em vez do domingo de folia, gerações de amigos, escritores, politicos e artistas seguiram-no em cortejo até o Cemitério da Consolação. Quando Manuel Bandeira escreveu o necrológio de Freitas Valle, “observou que as mortes ocorridas durante o carnaval passam quase despercebidas

quinta-feira, 3 de março de 2011

O morto Jeff Buckley

Buckley pai e Buckley filho, muito parecidos
Há um mistério em relação à morte de Jeff Buckley. Em 29 de maio de 1997, ele e o roadie Keith Foti passavam do lado do Rio Wolf. Pararam, pois Jeff disse que queria entrar na água. Keith foi buscar alguma coisa no carro enquanto ouvia Jeff cantando Whole Lotta Love. Quando voltou não encontrou Jeff na água como imaginava. Desapareceu e foi encontrado totalmente vestido distante vários quilômetros, perto do rio Mississippi.

Lenda ou não, se foi assim, foi uma morte cinematográfica. Imagine alguém vestido e calçando botas entrando na água, andando, cantando uma música do Led Zeppelin. Enquanto caminha, seu corpo vai submergindo na água, até desaparecer. Dá uma cena de cinema. Faz lembrar o suicídio da escritora inglesa Virginia Woolf, que entrou na água com pedras nos bolsos.

Segundo a autópsia, não tinha traços de drogas nem álcool, e a causa mortis foi afogamento acidental. Jeff não foi o primeiro da família a morrer tragicamente. Tim Buckley, seu pai, descoberto por Frank Zappa, morreu com 28 anos de idade, de overdose de heroína. Era intérprete em ascensão, como Jeff, e parecido fisicamente. O único trabalho que conheço de Tim, é o álbum Starsailor. É um pouco “intenso demais”, meio histérico. Não está entre os meus dez preferidos.

Em vida, Jeff lançou apenas um disco: Grace. Não vendeu muito, mas encantou músicos como Bob Dylan e Robert Plant, a ponto de Jimmy Page considerar Grace um de seus discos favoritos da década. Antes de morrer tinha começado a gravar Sketches for My Sweetheart the Drunk com Tom Verlaine, líder do Television.

É certo que a forma como Jeff morreu só fez ampliar o mito. Isso é forte no mundo do rock, assim como era a morte por tuberculose dos escritores românticos do século XIX. Mas é merecido. Em Grace, além de composições próprias, gravou Lilac Wine, famosa na voz de Nina Simone, Corpus Christi Carol, do compositor erudito britânico Benjamin Britten, e fez uma versão matadora de Hallelujah, de Leonard Cohen. E é essa música que você vai ouvir.

Veja Jeff Buckley em “Hallelujah”, original de Leonard Cohen.




Assista ao vídeo oficial de “Grace”. 



quarta-feira, 2 de março de 2011

O morto Nick Drake


A primeira vez que ouvi Nick Drake não sabia nada dele. Senti uma atração imediata por sua música. Tinha um quê de desamparo naquelas palavras entoadas, meio soltas no ar à cata de alguma outra dor. Nem lembro como acabei comprando um disco dele. Na capa, um rosto infantil com uma blusa de listras cobrindo seu corpo no meio de uma paisagem verde um tanto fantasmagórica.

Nick lançou três discos: Five Leaves Left (1969), Bryter Layter (1972) e Pink Moon (1972). Em 1974 morreu, aparentemente, por ingestão excessiva de antidepressivos. Era usuário de marijuana e tinha tomado LSD também. Desde o começo de sua carreira ficou evidente sua fragilidade psicológica, passando por constantes episódios de depressão e de insônia.

Filho de um engenheiro de estradas, nasceu na Birmânia e, de uma família endinheirada, frequentou escolas de elite e estudou literatura inglesa na Fitzwilliam College. De personalidade retraída, tinha poucos amigos. Descoberto por Joe Boyd, que se tornou seu produtor, assinou contrato com a gravadora Island, de Chris Blackwell. Vendeu pouco em vida, Vendeu muito mais depois de morto. Deixou clássicos como River Man, Way to Blue, Day Is Done e Things Behing the Sun. Intérpretes da área jazzística como Brad Mehldau, Tessa Souter e Norah Jones gravaram composições de Drake. O brasileiro Renato Russo gravou Clothes of Sand em The Stonewall Celebration Concert (1994).


Ouça River Man.



 

Ouça Way to Blue.


terça-feira, 1 de março de 2011

O 21 de Adele

A capa do 21
Adele nasceu em 1988 e ganhou a crítica britânica. Lançou seu segundo CD – 21 – em 24 de janeiro desse ano e vendeu 208 mil cópias na primeira semana, ficando em primeiro lugar nas paradas. O single Someone Like You atingiu o topo das paradas, depois de ter sido apresentada no Brit Awards 2011, desbancando Lady Gaga. Rolling in the Deep, a que abre o 21 está em quarto lugar. Mas quem é Lady Gaga perto dos Beatles? Pois Adele desbancou um recorde que era deles há mais de 40 anos.

A moça é minimalista. O nome artístico é, simplesmente, Adele, menos até daquela que ficou conhecida como Adele H., de sobrenome Hugo, filha do escritor Victor Hugo. Seus dois CDs são números, 19 e 21. Se continuar nessa toada, quem sabe, estará fazendo, no futuro, um álbum chamado 71… ou 91.

A moça de 22 anos tem uma voz forte e envolvente, levemente rouca. Apesar de estarmos apenas no começo do ano e termos tido a chance de ouvir o novo Radiohead – The King of Limbs, lançado em 18 de fevereiro –, provavelmente, constará na lista dos melhores de 2011.

Veja Adele cantando Someone Like You no Brit Awards.