Problemas digitais. A equipe da Mostra pediu às produtoras que os filmes enviados fossem, preferencialmente, em película 35mm. As projeções digitais, no Brasil, têm recebido críticas contundentes: “chapam” as imagens; não sei se é em razão de estarem defasadas. É a velha querela entre o analógico e o digital. O que é melhor? É simples saudosismo? Pode ser. O advento dos CDs, nos anos 1980, trouxe questão semelhante: apesar dos chiados decorrentes de riscos e da eletrostática, o som dos LPs era mais “redondo”. Entre audiófilos se falava muito em fadiga auditiva: não sei se era psicológico, mas cansava; o som dos CDs parecia metálico demais. Passou o tempo e muitos nem sabem mais o que é um LP e, muito menos, devem ter tido a experiência de ouvi-los. Deixamos de reclamar dos CDs, é verdade, por uma razão muito simples: que praticidade! E, agora que até os CDs estão fadados ao desaparecimento, quer coisa mais prática do que ouvir música nos iPods “inventados” por Steve Jobs?. Por questões práticas, os velhos bolachões – assim eram chamados os LPs – deram lugar aos CDs e, agora, pelos mesmos motivos, o mp3 e o streaming via internet decretam uma nova era.
O argumento mais forte – reverberando a famosa frase de Joseph Goebbels, quando diz que “quando vocês me falam em cultura, saco do meu cheque” – é financeiro. Muitos devem desconhecer o custo de uma cópia de um filme película em 35mm: a diferença é algo entre “8 e “80”. Diante de uma coisa dessas, não tem argumento. Tudo bem que no digital perdemos uma grande “qualidade” da imagem analógica: a profundidade de foco. É como no som analógico: provoca em nós uma sensação de maior “espacialidade”.
A incompatibidade dos sistemas europeu e o americano com o nosso tem resultado em várias coisas. Não sei a razão, mas assisti a mais de uma projeção digital em tons cor-de-rosa. Irritante. O problema fica sério quando nem sequer roda ou quando o áudio some. Foi o que aconteceu na primeira sessão de Habemus Papam.
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| Moretti monta um campeonato entre os cardeais |
Habemus Papam. O último filme de Nani Moretti estava programado para ser exibido no dia 23 de outubro. A cópia não chegou a tempo. O amigo Wagner Tronolone tinha ido buscar alguns ingressos e viu em uma folha de papel o seguinte aviso: “sessão de Habemus Papum cancelada”. O comentário dele foi em relação ao erro na grafia “papum”: “pá pum”, “habemus pá pum” (é como soa), e não “papa” ou “papam”..
A cópia acabou chegando e pôde ser exibida no dia 25. Aconteceu um problema com o áudio. O público reclamou, com razão.
A linhagem de grandes diretores italianos é respeitável. Depois do fim da Segunda Grande Guerra, a Itália revelou Vittorio de Sicca, Roberto Rosselini, Federico Fellini, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Ettore Scola, Dino Risi, Gillo Pontecorvo, Mario Monicelli e Valerio Zurlini. Com tantos talentos e bons produtores (Dino di Laurentis e Carlo Ponti), construíram sólida tradição na cinematografia mundial. Apesar de não tão geniais, gerações intermediárias e mais recentes continuam a realizar filmes muito bons.
Um dos mais representativos é Nani Moretti. Faz, ao contrário do – desculpem – “mala”, Roberto Begnini, filmes de humor fino. É o caso do recente Habemus Papam.
Em rápidas palavras, é a história do cardeal Melville (Michel Picoli), que é eleito papa pelo conclave dos cardeais. Este tem um ataque de pânico e se recusa a ir até a sacada para ser aclamado pelo público. O assessor do Vaticano tem a ideia de trazer um psicanalista para conversar com o cardeal Melville. Sem resultado, resolve recorrer à ex-mulher do psicanalista, profissional da mesma área e muito respeitada também.
Arma um esquema para levá-lo até seu consultório, sem que o conclave dos cardeais perceba e, muito menos, a imprensa e o público que continuam à espera de sua primeira aparição como Papa. Faz a sessão com ela e consegue falar de suas dúvidas, medos e sobre o peso da responsabilidade da qual se sente incompetente de possuí-la. Ao sair, numa distração da segurança e da comitiva, foge.
Para que o cardinalato, confinado no Vaticano, não note o sumiço, o assessor arma uma encenação com um membro da guarda suíça. Combina que ele deve ficar nos aposentos destinados ao Papa e faça de conta que está lá: basta que, de quando em quando, mexa nas cortinas e que se movimente para que percebam a sua presença.
O guarda passa os dias comendo e vendo televisão. Enfastiado, fuçando nos objetos do aposento, descobre uns discos. Coloca na vitrola – ou será um tocador de CDs? – um de Mercedes Sosa (leia “Eu vi Mercedes Sosa” em http://bit.ly/vNaUHE). O som atravessa obstáculos, naturalmente: não apenas o “papa” ouve a argentina cantando Todo Cambia; os cardeais, que estão no prédio em frente, também.
Veja a cena. É hilariante.
O trailer oficial.
