Tenho uma admiração muito grande pelo meu lavador de carros, aliás, do meu e de muitos outros da redondeza. Trabalhava como empregado em um Lava-Carros que fica a três quarteirões da minha casa. Um dia, resolveu deixar de ser empregado. Comprou um fusquinha velho e, com um primo, passou a lavar carros a domicílio. Bom de papo, nordestino de boa conversa, “roubou” vários clientes. Em pouco tempo, eram tantos os que usavam de seus serviços que ambos, deixaram de pagar aluguel e compraram suas casas.
Raimundo, esse é o seu nome, é magro de voz forte. Da minha casa sei quando está por aqui. Enquanto lava, aspira e seca os automóveis, não para de falar, cumprimenta quem passa, conta piadas e é amigo de todo mundo. Aí, quando vejo que meu carro está necessitado de uma lavagem, vou lá falar com ele. Responde: “Agora não dá, pois tenho quatro carros programados para agora. Tem que agendar. Dá uma ligada marcando.”
Quando lava meu carro, fico conversando com ele. Gosto do sotaque e do modo como falam. Têm sempre uma resposta na ponta da língua. Adoro papear com eles. Em certa feita, dobrou a esquina uma Mercedes, cantando pneus. Freou perto de onde estávamos, com um sorriso que mostrava todos os dentes. Raimundo diz a ele: “Tá querendo se mostrar? Garanto que lá em Pernambuco você só pilotava jegue.” Quem dirigia era o manobrista de uma churrascaria perto de casa.
Lembrei da história ao ler que o presidente, em reação aos protestos de “Fora Bolsonaro”, “Genocida”, ao entrar em um avião, disse que os insatisfeitos deviam estar viajando de jegue e não de avião.
Tenho enorme respeito pelo Raimundo, um nordestino que veio para São Paulo e venceu, e nunca por um idiota capaz de dizer isso aos que o acham, isso mesmo, um idiota, imbecil, com falta total de empatia. Quer mesmo é que todos morram. Respeito mais os jegues e, por ele, não tenho nenhum.

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