quinta-feira, 25 de março de 2021

Grazing Dreams, de Collin Walcott, um dos dez melhores da ECM


Minha amiga rica voltou de San Francisco com vários LPs: “Mysterious Traveller” (Weather Report), “Bundless” (Soft Machine), “Closeness” (Charlie Haden), “Shakti” (John McLaughlin),“In Concert” (Oregon), “Low Class Conspiracy” (David Murray) e o primeiro do World Saxophone Quartet. Não consigo lembrar nomes de pessoas, não guardo um número de telefone, mas para algumas coisa a minha memória é ótima, principalmente se são inúteis.

Esses discos representaram um guinada no meu gosto musical, ou melhor, ampliaram meu horizonte sonoro. Na década de 1970, os Rolling Stones estavam lançando “Exile on Main Street” e logo mais estavam flertando com o glam-rock, os Beatles estavam em fase terminal, resultado do cisma Lennon x McCartney, e vinham novas ondas como a do rock mais pesado, com Led Zeppelin, Black Sabbath, Grand Funk Railroad, Humble Pie e alguns outras bandas, e a do que passaram a chamar de rock progressivo. As formações mais conhecidas foram King Crimson, Yes, Genesis, Gente Giant, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer, que surgiram entre o fim e o início da década. Muitos embarcaram nessa onda que, grosseiramente, poderia ser considerada rock com alguns traços de inteligência, ou uma abordagem menos visceral e mais cerebral, mais “inteligente” e culta, flertando até com a música erudita. Keith Emerson incorporava Aaron Copland e Mussorgsky, Jethro Tull, Bach, Beethoven e Schubert. 

Lembro de que os primeiros LPs que comprei foram “Led Zeppelin III”, “Pictures at an Exhibition” (Emerson, Lake & Palmer), “In the Court of the Crimson King” (King Crimson) e “The Yes Album” (Yes). A balança pendeu para o chamado rock progressivo. Mais ambiciosos – ou pretensiosos, dependendo da ótica –, as composições eram mais elaboradas, menos 4 x 4. 

Dos LPs citados no primeiro parágrafo, os que me impressionaram foram “Mysterious Traveller”, o do World Saxophone Quartet, surpreendente, apenas com sopros (saxofones, clarinetas e flauta), sem bateria e contrabaixo, e “Closeness”, o primeiro de Charlie Haden como líder, em duos, com Keith Jarrett, Alice Coltrane, Ornette Coleman e Paul Motian. Outro foi “In Concert”, da banda Oregon: transformou-se em paixão. Posteriormente, comprei todos os que foram lançados, até a morte de um de seus membros: Collin Walcott.

“Low Class Conspiracy” foi o primeiro como líder de David Murray, saxofonista que formou o World Saxophone Quartet, com Oliver Lake, Hamiet Bluiett e Julius Hemphill. Sou fã de Murray até hoje. Estava naquela fase em que estava comprando livros sobre arte e estética da turma da Escola de Frankfurt – Walter Benjamin principalmente –, Georg Lukács e “Literatura e Revolução”, de Leon Trotsky. O título do LP de Murray era, por isso, um chamariz.

Achei “Bundless” meio chato. Mas despertou-me a curiosidade de conhecer melhor o Soft Machine. Ouvindo os anteriores, quando Robert Wyatt era ainda um dos membros da banda, virei fã de carteirinha, como se dizia antigamente. Ouço até hoje os “III”, “IV” e, até mesmo, o “V”.

Nem rock, nem jazz
Paul Winter é considerado um dos pais da world music. Influenciado por Villa-Lobos – morou um ano no Brasil na década de 1960 – e amante da música inglesa do século 17, criou a Paul Winter Consort. Ralph Towner, Paul McCandless, Glen Moore e Collin Walcott, que participaram da banda, formaram o Oregon em 1970. Pela Vanguard lançaram em 1972, “Music of Anther Present Era”. Rapidamente ficaram conhecidos e o álbum que tinham saído por uma pequena gravadora, a Increase Records, em 1970, foi relançado.

Dos quatro, o que mais se destacou foi Ralph Towner, violonista de formação erudita, talentosíssimo e autor um dos melhores discos da ECM, o ao vivo “Solo Concert”, registrado na Alemanha e Suiça, em 1979. 

Tempos depois, já conhecendo outros álbuns do Oregon, acho que, em razão de uma crítica positiva na revista Downbeat de “Grazing Dreams” (ECM), acabei comprando o LP, importado, no Rio de Janeiro. Já estava gastando todo o meu dinheiro em discos. Aconteceu um festival de jazz na ex-capital do Brasil com várias atrações imperdíveis: Weather Report, Pat Metheny, Mccoy Tyner e o Art Ensemble of Chicago. Fomos eu e mais dois amigos. Ficamos no apartamento da tia de um deles. O imóvel ficava a dois quarteirões das duas melhores lojas de LPs importados: a Modern Sound e a Billboard.

“Grazing Dreams” e “Sophisticated Giant” (CBS, 1977), de Dexter Gordon, outro que comprei na mesma ocasião, estão entre os meus discos preferidos por duas razões. Uma é a de que são ótimos e a outra é porque foram os dois primeiros importados de jazz que comprei. É pouco? A vida da gente é marcada por simbolismos.

Como era – e é ainda – costume de Manfred Eicher, dono e produtor da maioria dos discos da ECM, unir os músicos do seu plantel –, nesse que é o segundo solo de Walcott pela gravadora, tocam Don Cherry, John Abercrombie, Palle Danielsson e o brasileiro Dom Um Romão, que participara de “I Sing the Body Electric”, “Sweetnighter” e “Mysterious Traveller”, do Weather Report.

Acho que “Grazing Dreams” é para quem tem uma abertura para o que é chamado de world music, a começar do fato de que os instrumentos principais de Walcott são a cítara e a tabla. Soma-se a isso a ligação de Don Cherry com instrumentos africanos como o doussn' gouni. A cuíca e o berimbau, tocados por Dom Um Romão, são “exóticos” para os não-brasileiros e, portanto, “world”. 

O disco é único por vários fatores. O que se ouve é diferente de qualquer coisa. Um bom exemplo é "The Swarm". Seu início é de sons desconexos de trompete, flauta, cítara e guitarra. Repentinamente todos os sons se conectam e, guiados pelo trompete e a cítara, vai ficando dramática e, pronto. Termina. Começa então “Mountain Morning”. Curtíssima. É um prelúdio para a ondulante e hipnótica “Jewel Ornament”. Com a tabla servindo de base rítmica, Cherry sola na flauta, mas o que se sobressai é a guitarra discreta de Abercrombie. Depois da música título, tem “Samba Tala”, um duo ótimo com Dom Um Romão e Walcott. E termina com a belíssima “Moon Lake”. O início dela, com ele na cítara, é sublime. 

Confira.




A parceria de Walcott com Cherry frutificou. Com Naná Vasconcelos, formaram a Codona – cada sílaba são as duas primeiras letras de seus nomes. Sobre eles, leia “O mundo ‘world’ de Naná Vasconcelos”

Muitos nem devem conhecer Collin Walcott por uma razão simples. O ônibus que transportava o Oregon em uma excursão na antiga Alemanha Oriental colidiu. Estava no primeiro banco e cochilava. Bateu a cabeça e morreu. Tinha 38 anos. Foi em 1984. Fazem mais de 36 anos que aconteceu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário