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terça-feira, 30 de junho de 2015

Downbeat anuncia os melhores discos do ano 2014-2015

Bem entendido: os melhores da revista Downbeat são escolhidos por críticos de vários países e correspondem ao que acontece e é lançado de março, mais ou menos, presumo, até o março seguinte. Assim, alguns álbuns recentíssimos entram na lista com outros que saíram no ano passado.

A opinião da crítica nem sempre corresponde com a dos leitores. Imagina-se que os primeiros são mais “cultos” que a segunda turma. Estou neste grupo, portanto, menos informado, mas curioso. No texto de hoje, listo apenas os que foram considerados os 10 melhores álbuns do ano e alguns comentários..

Aos 10:
1.  Rudresh Mahantappa, Bird Calls (ACT)
2.  Steve Lehman Octet, Mis en abîme (PI)
3.  Jason Moran, All Rise: A Joyful Elegy for Fats Waller (Blue Note)
4.  Wadada Leo Smith, The Great Lakes Suites (TUM)
5.  Chick Corea Trio, Trilogy (Stretch/Concord)
6.  Kenny Barron/Dave Holland, The Art of Conversation (Impulse)
7.  Vijay Iyer, Break Stuff (ECM)
8.  José James, Yesterday I Had the Blues: The Music of Billie Holiday (Blue Note)
9.  Brian Blade & The Fellowship Band, Landmarks (Blue Note)
10. Fred Hersch Trio, Floating (Palmetto)


A curiosidade – ou coincidência – é que Rudresh Mahantappa e Steve Lehman tocam saxofone alto. A música deles é sem concessões. Não é tão avant garde quanto Cecil Taylor, mas não é o tipo de som que vai agradar alguém que não está tão acostumado a ouvir música instrumental de improviso. O mesmo ocorre com as últimas incursões de Wadada Leo Smith. Com uma produção intensa, o trompetista anda compondo temas longos que podem ser consideradas “suites”. Esta última é até menos ambiciosa do que The Freedom Summers, composta de quatro CDs.

Ouça Lake Superior, de Leo Smith.




Ouça Segregated and Sequential, do octeto de Lehman.O vibrafone de Chris Dingman e alto de Steve nos lembra Eric Dolphy. A formação da banda, no entanto é diferente e conta com mais membros.



Entre os três, em terceiro na votação, está Jason Moran, considerado um músico também associado ao que designam genericamente como post-bop. Excelente compositor, não privilegia tanto composições próprias como os outros. É considerado um dos melhores pianistas da atualidade. Foi considerado “artista do ano” em 2011, e Ten foi eleito o melhor lançamento. Este All Rise é um tributo, e um complemento a um projeto em que está envolvido, ao grande Fats Waller. Como se percebe pelo título, Moran privilegia a alegria. Assim, a música é mais “fácil”. Não toca apenas o piano. Em várias faixas pilota um Fender Rhodes e também conta com vários cantores. E, para confirmar que o mundo é pequeno, Lehman é o saxofonista alto em All Rise.

Veja um pequeno trecho, em Montreal, relacionado ao Jason Moran's Fats Waller Dance Party.




O quinto lugar, para a nossa felicidade, ou seja, a de nós, menos “eruditos”, foi concedido a Trilogy, de Chick Corea. Com tanta coisa sendo lançada nos últimos anos deste pianista, ainda não ouvi este álbum. Aliás é o único que não conheço dos dez. Mesmo assim, acho que deve ser bom. Pelo que leio agora, toca com Christian McBride e Brian Blade, o que já é uma recomendação.

É deste baterista o álbum que ficou em nono lugar. A primeira vez em que me chamou a atenção foi em um show em DVD de Joni Mitchell. Fiquei fascinado com a sutileza do seu modo de tocar um instrumento em que, normalmente, privilegiam a força bruta e o barulho. Quando conheci seu primeiro solo – Brian Blade Fellowship (Blue Note, 1998) – fiquei mais impressionado ainda. A sua música é sofisticada e densa, rica em matizes sonoros. Um dos responsáveis por esse colorido é o pianista Jon Cowherd, muito bom. Blade nunca excede no volume. Deve ser a bateria mais tonal do planeta.

Ouça Friends Call Her Dot, de Landmarks.




Vijay Iyer é o pianista da vez. É o “artista do ano” de 2015 pela Downbeat. Merecido. Grande músico, é um dos xodós da crítica. Tem grandes discos no currículo: Raw Material, duo com Rudresh Manhatappa, Historicity (ACT, 2009), Solo (ACT, 2010), Accelerando (ACT, 2012), considerado por muitos críticos o melhor naquele ano, e os mais recentes Mutations, o primeiro na ECM, e Break Stuff, o mais recente, que ficou em sétimo.

Assista ao vídeo promocional da ECM.




Kenny Barron é um dos melhores pianistas atuais. Sem o protagonismo de Keith Jarrett e nem tão associado à avant garde como Jason Moran e Vijay Iyer, inscreve-se na história dentro da tradição que nos legou Hank Jones, Wynton Kelly, Ray Bryant e Hank Jones. O que não o torna tão incensado é o fato de preferir executar composições próprias e menos batidos standards.

Mesmo daqui a 50 anos, Dave Holland vai estar entre os dez grandes baixistas da história. É também grande compositor. Inglês, portanto, um pouco fora do circuito principal, tocou com Miles Davis, na mesma época de outro conterrâneo: John McLaughlin. Fora da banda elétrica de Miles, construiu sólida carreira com ótimos álbuns pela gravadora ECM.

Pois Barron e Holland se juntaram para fazer um dos grandes discos do ano: The Art of Conversation. Os dois juntam talento, elegância e beleza. A harmonia entre eles é algo especial. Na minha lista, estaria entre os três melhores do ano.

Veja uma apresentação deles no La Villette.




O álbum que ficou em oitavo, ficaria facilmente dentre os meus três melhores. José James é o melhor cantor da atualidade. Mais uma vez, a crítica não acha o mesmo. O primeiro foi, de novo, Gregory Porter (sobre ele, leia http://bit.ly/UjCi2R). Yesterday I Had the Blues é o melhor álbum lançado em homenagem aos 50 da morte de Lady Day. Sobre ele leia: http://bit.ly/1NHLW4i, http://bit.ly/1DkXQRS e http://bit.ly/1Are1GR.

Quer a prova? Ouça Body and Soul com ele.



Ouça Strange Fruit. Genial.




Ouça também Tenderly.




Bom, não posso deixar de falar do décimo. Fred Hersch é um sobrevivente. Literalmente. Portador do vírus HIV, em 2008, ficou dois meses em coma, e sobreviveu. Mesmo acometido pela doença, nunca parou de tocar. É um tanto impressionante ver aquela criatura frágil aproximar-se do piano. Fui espectador por uma vez. Mas quando senta-se e toca as primeiras notas, agiganta-se. É um dos bons acompanhantes de cantores da atualidade; e é craques no formato trio. A enfermidade é um detalhe na sua vida. Gravou quase uma centena de discos. Floating, que ficou em 10º, é o mais recente.


Ouça You and the Night and the Music.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O jazz rock revisto por Rez Abbasi

Índia, Goa, Bangladesh ou Paquistão não são países com tradição no jazz. A música dessa região exerceu forte influências na música popular ocidental, seja em suas formas mais tradicionais, por meio dos sons de Ravi Shankar e Nusrat Fateh Ali Khan ou de instrumentistas menos “puros”, como L. Shankar (nenhum parentesco com o citarista), Zakir Hussain, Badal Roy, Trilok Gurtu e Christine Correa. Esta última, nascida em Bombaim, é a única que pode ser dlassificada como “jazz”. A cantora é conhecida por dois álbuns em duo com o pianista Ran Blake. Fora do espectro da música popular, o indiano mais famoso é Zubin Mehta. De origem judaica, natural de Bombaim (atual Mumbai), é um dos maestros vivos mais respeitados.

Curiosamente, dois músicos de jazz de origem indiana estão entre os melhores atualmente: Rudresh Mahanthappa e Vijay Iyer. Ambos nasceram no mesmo ano – 1972 –, mas vieram de lugares diferentes. O primeiro nasceu em Trieste, Itália, e logo emigrou para os EUA. Vijay é de Albany. É formado em matemática e física pela Yale University. Poderia seguir uma brilhante carreira acadêmica, considerando-se o currículo, mas preferiu ser brilhante como pianista. Cada qual seguiu por uma seara, mas um dia se cruzaram lançando o brilhante Raw Materials (ACT, 2006). Apresentaram-se juntos em um dos BMW Jazz Festival, no Brasil. Na revista Downbeat, que estará nas bancas em alguns dias, Iyer é a capa. É o “Artist of the Year” pela votação dos críticos. De quebra, ganhou na modalidade “Jazz Group” e Break Stuff (ECM, 2015) ficou em sétimo entre os discos do ano. Mahantappa não ficou atrás: Bird Calls (ACT, 2015) foi considerado o “Record of the Year”. Leia sobre Bird Calls em http://bit.ly/1RtjEfM.

Como Rudresh Mahanthappa, Rez Abbasi não é americano por acidente. Nasceu em Karachi, Paquistão, país de maioria muçulmana. É paquistanês, como foi dito, por um acidente geográfico. Sequer fala a língua pátria. Ao contrário do primeiro, não se interessou pelas formas musicais indianas. Seu gosto moldou-se pela música ocidental.

Como nasceu em 1967, na adolescência estava gostando da geração que se firmava fazendo um jazz pós-Bitches Brew, eletrônico, com influências da sonoridade do rock e menos no jazz mainstream. É um diferencial relevante. Seus ídolos declarados em seu instrumento são Pat Metheny, Bill Frisell e Jim Hall. E deve ter crescido ouvindo Chick Corea e Herbie Hancock em suas fases jazz-rock, Weather Report, John McLaughlin e outras bandas que se projetaram nos anos 1970 e 1980.

O referência do mais recente álbum de Abbasi é justamente essa música que ouviu na adolescência. A pedra de toque de Intents and Purposes (Enja, 2015) é a de reinterpretar clássicos do jazz eletrônico apenas com instrumentos acústicos. Seu “acoustic quartet” é composto por ele no violão, Bill Ware no vibrafone, Stephan Crump no contrabaixo e Eric McPherson na bateria. Boa sacada.

Na lista estão clássicos do Weather Report (Black Market), Herbie Hancock (Butterfly), Pat Martino (Joyous Lake), Mahavishnu Orchestra (Resolution), Return to Forever (Medieval Overture), Billy Cobham (Red Baron), Larry Coryell (Low-Lee-Tah) e Tony Williams (There Comes a Time).

Intents and Purposes é um prato cheio para os fãs do Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, e do Return to Forever, de Chick Corea, Al Di Meola, Stanley Clarke e Lenny White.

Ouça Black Market na interpretação acústica do Rez Abbasi Acoustic Quartet.




Veja o Weather Report em apresentação em Montreux executando Black Market.





A melhor faixa do CD de Abbasi é Medieval Overture. Ouça.






Ouça no original do Return to Forever. A guitarra é de Al DiMeola.







quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Charlie Parker “encarnado” em Rudresh Mahantappa

Não é todo dia que surge um grande instrumentista que seja grande compositor também, ainda mais que tão bem consegue incorporar valores da música oriental à ocidental, mais especificamente no jazz. Por isso e por outras razões, qualquer novo disco de Rudresh Mahanthappa deve ser celebrado. Já está disponível para venda no site da ACT Music (www.actmusic.com) Bird Calls.

Com “Bird” no título e sendo de um saxofonista alto, a associação automática seria com o maior nome desse instrumento de todos os tempos: Charlie Parker, também conhecido como “Bird”, que já é uma derivação sintetizada do primeiro apelido “Yardbird”.

Rudresh fala sobre Bird Calls.




As “bird calls” são quatro. A primeira, com ares imponentes, abre com um arco de contrabaixo, o piano, e depois o sax alto de Mahanthappa. Há um eco coltraneano de Meditations. Bird Calls II é “cantada” por um solo do sax conversando com o trompete para a posterior entrada dos outros instrumentos. Bird Calls III é uma continuação da anterior, desta vez, com um solo do alto. E a quarta começa com um belíssimo solo de contrabaixo, até a entrada do resto da banda.

Sem alguma composição de Charlie Parker, o álbum foi concebido tendo-o como motivo: “Cada composição é baseada em um solo ou canção de Charlie Parker, em particular. Na verdade, a melhor forma de pagar-lhe um tributo é mostrando como aprendemos com ele – não apenas tocando sua música.”

Mahanthappa é o melhor saxofonista alto do momento. Pau a pau estão Miguel Zenón, que vem efetuando um belo trabalho pesquisando a música de Porto Rico; talvez Tim Berne e Kenny Garrett e menos, Ornette Coleman e Phil Woods, dois veteranos que, naturalmente, já foram melhores. Como em Zenón, a música de Rudresh é fortemente influenciada em suas origens. Nascido em Trieste, mas vivendo nos EUA desde criança, suas composições são baseadas na linguagem do jazz e na forma microtonal da música indiana. Tanto ele como Zenón receberam bolsas para pesquisarem a música de seus pais. Pelo Guggenheim Fellowship, Rudresh viajou para a Índia para estudar a música carnática.

Em pouco mais de dez anos, Mahantappa tem mais de uma dezena de álbuns como líder. Foi considerado por três anos como o melhor saxofonista alto pela crítica na revista Downbeat. Tem muito a contribuir para a música instrumental, principalmente, pelos projetos em que está envolvido.

Veja Mahanthappa em Bird Calls.






Nota: tinha disponibilizado alguns áudios, mas foram removidos.




Discografia selecionada

Raw Materials, com Vijay Iyer (Savoy Jazz 2006) | sobre Vijay Iyer, leia em http://bit.ly/1Bw5PcY
Samdhi (ACT Music 2012)
Gamak (ACT Music 2013)
Bird Calls (ACT Music 2015) – o álbum está com lançamento marcado para o dia 27 de fevereiro.



quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os melhores discos do ano, segundo a revista Downbeat

O mês de agosto é quando sai, na Downbeat, a lista dos melhores segundo a crítica. Em dezembro sai o “Readers Poll”. Primeiro, vou listar os dez melhores discos:

1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33



Vijay Iyer (© ACT / Jimmy Katz)
Com tantos lançamentos, é impossível acompanhar tudo, mesmo que meus ouvidos passem os dias a ouvir música. Dos dez listados, ouvi seis, e desses, o que mais gostei mesmo foi o de Keith Jarrett (escrevi sobre esse álbum duplo em http://bit.ly/MF8xTz). Sobre o disco de Chick Corea e seus companheiros do Return to Forever, faço menção quando da apresentação deles no BMW Jazz Festival, edição 2012 (http://bit.ly/SSSvGE). De vez em quando me enjoo de Corea, mas é gênio; acho que isso acontece um pouco por sua prolixidade e por, a cada hora, gravar discos de gêneros tão diferentes. No último ano (2011-2012) foram lançados seis discos, sendo dois com os companheiros do Return to Forever (Forever e The Motherships Returns), dois duos (Hot House, com Gary Burton – veja: http://bit.ly/L3cXmz –, e Orvieto, com o pianista Stefano Bollani), outro em trio, com Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations, 2012), e um último (The Continents, 2012), erudito, lançado pela Deutsche Grammophon.

Vijay Iyer é a bola da vez, assim como Jason Moran foi na votação do ano passado. Além de ter seu disco Accelerando considerado o melhor do ano, ficou em primeiro lugar nas categorias “Jazz Artist”, “Jazz Goup”, “pianista”, e foi até lembrado na categoria “Rising Star”, ficando em segundo lugar. Nessa categoria, ganhou, com 2% de votos a mais, Robert Glasper, possível candidato a ser a “bola da vez” em anos vindouros na categoria principal.

Accelerando é um bom disco. Está no nível dos anteriores. Filho de indianos, Iyer passou pela Yale University e pela Columbia, estudante de matemática e física, e o título de sua dissertação de mestrado era Microstructures of Feel, Macrostructures of Sound: Embodied Cognition in West African and African-American Musics. Alta cultura, não? Não é possível uma simples transposição do conhecimento científico para as habilidades musicais, no entanto, percebe-se uma tremenda sofisticação no que toca; e, para arrematar, seus discos são belamente ilustrados por obras de um dos melhores artistas atuais: Anish Kapoor. Quem mora em São Paulo, Brasília ou Rio de Janeiro deve ter visto a bela exposição promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em 2006.

Veja uma das obras de Anish Kapoor (Ascension), no CCBB. Kapoor é gênio. Veja também uma entrevista sobre Leviatan, exposta no Grand Palais, em Paris, no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=12Ni0c4D27Y&feature=fvwrel). É uma obra impressionante. Pena que não estava em Paris em no segundo quadrimestre de 2011.





Ouça Mmmhmm (Steve Ellison, Stephen Bruner), do álbum Accelerando. Iyer toca com Stephen Crump no baixo e Marcus Gilmore na bateria. É uma das faixas mais interessantes. Vijay imprime uma melodia meio estranha em acordes repetitivos nos graves, com predominância de acordes nos médios e agudos em tons dramáticos, enquanto a “cozinha” parece tocar outra música.




Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Basicamente, o som de Iyer é tenso. Toca sempre em um ritmo em que há poucos espaços de respiração, quase sem silêncios, em ritmos quebrados.


O segundo melhor do ano

Rollins. Até no visual, inova
Coube a Sonny Rollins, com seu Road Shows, vol. 2, com, praticamente, metade dos votos. Este e o primeiro volume são de gravações de shows no Japão e do Beacon Theatre em comemoração aos seus 80 anos ocorridos em setembro de 2010. Esse mês é emblemático na vida do saxofonista. Rollins morava a quatro quadras do World Trade Center. No dia 11, em 2001, teve de sair às pressas de seu apartamento levando apenas seu saxofone. Tinha, na agenda, uma apresentação em Boston marcada para cinco dias depois. O show virou CD. O nome? Without a Song: The 9/11 Concert. Rollins nasceu em 7 de setembro de 1930.

A voz está fraca. Percebe-se quando fala para apresentar os músicos ou anunciar os temas. Quando começa a tocar, aí, é outra história; mantêm vigor invejável. Não parecem ser a mesma pessoa. Na votação dos críticos, no sax tenor, foi considerado o melhor do ano, com 20 % de votos a mais que Joe Lovano. Justiça? Deve ser mais por aquele sentimento de reverência aos mais velhos. Rollins é o último de uma geração posterior à de Coleman Hawkins, Ben Webster e Lester Young. São seus contemporâneos, John Coltrane, Dexter Gordon, Stan Getz e Johnny Griffin. Todos estão mortos. Dos que estão vivos – Houston Person e Charles Lloyd –, ambos são mais novos que Rollins; nasceram, respectivamente, em 1934 e 1938.

O set de Road Shows vol. 2 consiste de temas conhecidos. Valorizam o disco convidados especiais como Jim Hall (In a Sentimental Mood), Ornette Coleman – com um longo solo –, e o baixista Christian McBride e o baterista Roy Haynes, em Sonnymoon for Two, e, finalmente, o trumpetista Roy Hargrove, em I Can’t Get Started e Rain Check. A música que fecha o CD é St. Thomas, o tema mais conhecido de Rollins. Dos músicos acompanhantes, o destaque mesmo é a guitarra delicada de Russell Malone.

Ouça Sonnymoon for Two.



Um gênio como o sax tenorista só deve ser reverenciado, mas é um exagero Road Shows vol. 2 ser considerado o segundo melhor do ano.

A carreira de Sonny Rollins passou por algumas oscilações, algumas provocadas por ele mesmo. Em 1950, foi detido por roubo à mão armada. Antes disso, já tinha tocado com Babs Gonzalez, Jackie McLean e Kenny Drew. Apesar de condenado a três anos de cadeia, Dez meses depois saiu e ficou em liberdade condicional. Violou-a ao ser preso por porte de heroína. No total, passou três anos detido. Conseguiu se livrar do vício por meio de tratamento à base de metadona. Foi a sua sorte.

Antes de fazer parte da legendária banda de Clifford Brown e Max Roach, havia tocado com Miles Davis e Thelonious Monk. Em 1956 lançou o disco que é considerado um dos melhores de todos os tempos, não dele, mas da discografia do jazz: Saxophone Colossus. Estava sendo considerado o melhor saxofonista tenor pela crítica, mas na mesma época John Coltrane começava a se firmar como líder. Foi eclipsado, porém não deixou de lançar discos muito bons, principalmente nos que era acompanhado apenas pela bateria e pelo baixo, sem piano.

A década de 1960 foi um tempo de grandes transformações sociais, e Rollins não iria ficar “fora” dessa”. Foi fazer ioga e ligou-se, como muitos, a certas práticas orientais. Na música, incorporou instrumentos eletrônicos como a guitarra e o baixo elétrico e também absorveu influências do R&B, do funk de Sly and The Family Stone e até do pop. Sonny não foi o único. O mesmo aconteceu com Charles Lloyd e muitos outros intérpretes do jazz.

Um solo de Rollins é reconhecível de longe. Waiting on a Friend é uma das faixas em que participa no disco Tattoo You (1981), dos Rolling Stones. As outras duas são Neighbours e Slave.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O disco solo de Vijay Iyer

O pianista Vijay Iyer
Algumas evidências vão-se delineando para que o pianista americano de origem indiana Vijay Iyer seja considerado o melhor pianista da nova geração pelos críticos de jazz. Em 2010, seu disco em formato trio, Historicity (sobre ele leia o que escrevi em http://bit.ly/9jHaME), foi considerado o melhor do ano, desbancando medalhões como Keith Jarrett e Joe Lovano. Os citados, reconheça-se, são capazes de surpreender registros renovadores.

Solo, lançado em meados de agosto, pelo selo ACT, é excepcional. Segundo Vijay, sua “dívida” musical é com Thelonious Monk, Andrew Hill, Duke Ellington, Muhal Richard Abrams, Randy Weston, Cecil Taylor e Sun Ra. Um disco solo proporciona – ou desvela – as influências que teve de outros músicos, mais até do que tocando com os outros. É como um desnudamento: é você e o piano.

Se no álbum anterior em que foi acompanhado por Stephan Crump e Marcus Gilmore é notória a forma enérgica e rica, lembrando o estilo do pianista Andrew Hill, em Solo, Iyer “estica a corda” e em alguns momentos soçobra a forma atonal do teclado de Cecil Taylor. Em outros momentos, consegue criar uma atmosfera etérea na digitação das notas graves, como em Fleurette Africaine, de Duke Ellington, uma das faixas mais belas do disco. 

É impressionante a sua capacidade improvisativa e de propiciar novo olhar em composições tão batidas como Human Nature, conhecida na interpretação de Michael Jackson e gravada também por Miles Davis. É brilhante a interpretação de Epistrophy, de Thelonious Monk, desconstruindo-a em ritmo frenético em uma tempestade de notas que passeiam pelos agudos e graves, sobre um tema tocado à exaustão por zilhões de músicos. Faz a mesma coisa com Darn That Dream, de Jimmy van Heusen e Eddie DeLange. Um último destaque é Desiring, de sua própria lavra.

A forma de como desenvolve temas alheios e próprios se esclarece nas notas internas escritas por Iyer: “Autoscopy refere-se a um tipo de experiência fora do corpo no qual você lhes observa as ações de fora (normalmente acima) de seu corpo; tocar música, ocasionalmente, proporciona essa experiência. Num sentido diferente, um álbum solo proporciona isso.” Autoscopy é o nome de uma de suas composições.

Ouça a bela Fleurette Africaine.