A opinião da crítica nem sempre corresponde com a dos leitores. Imagina-se que os primeiros são mais “cultos” que a segunda turma. Estou neste grupo, portanto, menos informado, mas curioso. No texto de hoje, listo apenas os que foram considerados os 10 melhores álbuns do ano e alguns comentários..
Aos 10:
1. Rudresh Mahantappa, Bird Calls (ACT)
2. Steve Lehman Octet, Mis en abîme (PI)
3. Jason Moran, All Rise: A Joyful Elegy for Fats Waller (Blue Note)
4. Wadada Leo Smith, The Great Lakes Suites (TUM)
5. Chick Corea Trio, Trilogy (Stretch/Concord)
6. Kenny Barron/Dave Holland, The Art of Conversation (Impulse)
7. Vijay Iyer, Break Stuff (ECM)
8. José James, Yesterday I Had the Blues: The Music of Billie Holiday (Blue Note)
9. Brian Blade & The Fellowship Band, Landmarks (Blue Note)
10. Fred Hersch Trio, Floating (Palmetto)
A curiosidade – ou coincidência – é que Rudresh Mahantappa e Steve Lehman tocam saxofone alto. A música deles é sem concessões. Não é tão avant garde quanto Cecil Taylor, mas não é o tipo de som que vai agradar alguém que não está tão acostumado a ouvir música instrumental de improviso. O mesmo ocorre com as últimas incursões de Wadada Leo Smith. Com uma produção intensa, o trompetista anda compondo temas longos que podem ser consideradas “suites”. Esta última é até menos ambiciosa do que The Freedom Summers, composta de quatro CDs.
Ouça Lake Superior, de Leo Smith.
Ouça Segregated and Sequential, do octeto de Lehman.O vibrafone de Chris Dingman e alto de Steve nos lembra Eric Dolphy. A formação da banda, no entanto é diferente e conta com mais membros.
Entre os três, em terceiro na votação, está Jason Moran, considerado um músico também associado ao que designam genericamente como post-bop. Excelente compositor, não privilegia tanto composições próprias como os outros. É considerado um dos melhores pianistas da atualidade. Foi considerado “artista do ano” em 2011, e Ten foi eleito o melhor lançamento. Este All Rise é um tributo, e um complemento a um projeto em que está envolvido, ao grande Fats Waller. Como se percebe pelo título, Moran privilegia a alegria. Assim, a música é mais “fácil”. Não toca apenas o piano. Em várias faixas pilota um Fender Rhodes e também conta com vários cantores. E, para confirmar que o mundo é pequeno, Lehman é o saxofonista alto em All Rise.
Veja um pequeno trecho, em Montreal, relacionado ao Jason Moran's Fats Waller Dance Party.
O quinto lugar, para a nossa felicidade, ou seja, a de nós, menos “eruditos”, foi concedido a Trilogy, de Chick Corea. Com tanta coisa sendo lançada nos últimos anos deste pianista, ainda não ouvi este álbum. Aliás é o único que não conheço dos dez. Mesmo assim, acho que deve ser bom. Pelo que leio agora, toca com Christian McBride e Brian Blade, o que já é uma recomendação.
É deste baterista o álbum que ficou em nono lugar. A primeira vez em que me chamou a atenção foi em um show em DVD de Joni Mitchell. Fiquei fascinado com a sutileza do seu modo de tocar um instrumento em que, normalmente, privilegiam a força bruta e o barulho. Quando conheci seu primeiro solo – Brian Blade Fellowship (Blue Note, 1998) – fiquei mais impressionado ainda. A sua música é sofisticada e densa, rica em matizes sonoros. Um dos responsáveis por esse colorido é o pianista Jon Cowherd, muito bom. Blade nunca excede no volume. Deve ser a bateria mais tonal do planeta.
Ouça Friends Call Her Dot, de Landmarks.
Vijay Iyer é o pianista da vez. É o “artista do ano” de 2015 pela Downbeat. Merecido. Grande músico, é um dos xodós da crítica. Tem grandes discos no currículo: Raw Material, duo com Rudresh Manhatappa, Historicity (ACT, 2009), Solo (ACT, 2010), Accelerando (ACT, 2012), considerado por muitos críticos o melhor naquele ano, e os mais recentes Mutations, o primeiro na ECM, e Break Stuff, o mais recente, que ficou em sétimo.
Assista ao vídeo promocional da ECM.
Kenny Barron é um dos melhores pianistas atuais. Sem o protagonismo de Keith Jarrett e nem tão associado à avant garde como Jason Moran e Vijay Iyer, inscreve-se na história dentro da tradição que nos legou Hank Jones, Wynton Kelly, Ray Bryant e Hank Jones. O que não o torna tão incensado é o fato de preferir executar composições próprias e menos batidos standards.
Mesmo daqui a 50 anos, Dave Holland vai estar entre os dez grandes baixistas da história. É também grande compositor. Inglês, portanto, um pouco fora do circuito principal, tocou com Miles Davis, na mesma época de outro conterrâneo: John McLaughlin. Fora da banda elétrica de Miles, construiu sólida carreira com ótimos álbuns pela gravadora ECM.
Pois Barron e Holland se juntaram para fazer um dos grandes discos do ano: The Art of Conversation. Os dois juntam talento, elegância e beleza. A harmonia entre eles é algo especial. Na minha lista, estaria entre os três melhores do ano.
Veja uma apresentação deles no La Villette.
O álbum que ficou em oitavo, ficaria facilmente dentre os meus três melhores. José James é o melhor cantor da atualidade. Mais uma vez, a crítica não acha o mesmo. O primeiro foi, de novo, Gregory Porter (sobre ele, leia http://bit.ly/UjCi2R). Yesterday I Had the Blues é o melhor álbum lançado em homenagem aos 50 da morte de Lady Day. Sobre ele leia: http://bit.ly/1NHLW4i, http://bit.ly/1DkXQRS e http://bit.ly/1Are1GR.
Quer a prova? Ouça Body and Soul com ele.
Ouça Strange Fruit. Genial.
Ouça também Tenderly.
Bom, não posso deixar de falar do décimo. Fred Hersch é um sobrevivente. Literalmente. Portador do vírus HIV, em 2008, ficou dois meses em coma, e sobreviveu. Mesmo acometido pela doença, nunca parou de tocar. É um tanto impressionante ver aquela criatura frágil aproximar-se do piano. Fui espectador por uma vez. Mas quando senta-se e toca as primeiras notas, agiganta-se. É um dos bons acompanhantes de cantores da atualidade; e é craques no formato trio. A enfermidade é um detalhe na sua vida. Gravou quase uma centena de discos. Floating, que ficou em 10º, é o mais recente.
Ouça You and the Night and the Music.
Ouça também Tenderly.
Bom, não posso deixar de falar do décimo. Fred Hersch é um sobrevivente. Literalmente. Portador do vírus HIV, em 2008, ficou dois meses em coma, e sobreviveu. Mesmo acometido pela doença, nunca parou de tocar. É um tanto impressionante ver aquela criatura frágil aproximar-se do piano. Fui espectador por uma vez. Mas quando senta-se e toca as primeiras notas, agiganta-se. É um dos bons acompanhantes de cantores da atualidade; e é craques no formato trio. A enfermidade é um detalhe na sua vida. Gravou quase uma centena de discos. Floating, que ficou em 10º, é o mais recente.
Ouça You and the Night and the Music.

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