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quinta-feira, 30 de maio de 2019

O amor por Irene Kral

Uma vírgula faz muita diferença. Seria o meu amor por Irene Kral? Meu caso é muito antigo. Não sei precisar quanto tempo e nem quando começou. Quem me apresentou, acho, foi Alberico Cilento. Sabendo do meu interesse por vozes femininas, sempre colocava um CD de alguém que achasse eu não conhecer, quando ia à sua casa. Quem me acompanha aqui no blog, sabe que ouvi pela primeira vez Helen Merrill por seu intermédio. E acho que com Kral foi a mesma coisa.

Não são muitos os que a conhecem porque morreu jovem: nasceu em 1932 e morreu em 1978, em decorrência de um câncer na mama. Um deles é Clint Eastwood. Fã e profundo conhecedor de jazz, chegou a patrocinar eventos musicais em Carmel, cidade da Califórnia em que chegou a ser prefeito; e é pai do contrabaixista Kyle Eastwood. Dono de um gosto refinadíssimo, na trilha sonora de “The Bridge of Madison County” (1985), incluiu dois intérpretes considerados underrated: Johnny Hartman e Irene Kral. Assim, alguns mais tiveram o privilégio de conhecê-la.

Kral é aquele segredo que seus admiradores ciumentos receiam em contar. Outra grande admiradora sua é Stacey Kent. Leia o que escreveu no encarte de “Gentle Rain”, álbum de 1977, em que é acompanhada pelo brilhante Alan Broadbent: “Irene Kral é uma das maiores cantoras de todos os tempos. Minha primeira exposição a ela foi ouvir esse álbum, com Alan Broadbent e eu fiquei imediatamente hipnotizada. Ela tem um ataque, uma maneira de se aproximar de uma nota, que é clara e incisiva, mas tão suave e quente. Há uma sublime ressonância como um violoncelo na sua voz, um som que fala diretamente ao coração. As músicas desse álbum são todas perfeitamente compatíveis com a sua voz incomparável, e suas interpretações são, ao mesmo tempo, pungentes e sinceras, seguras e ainda assim passam a impressão de fragilidade.”

Seu sobrenome, àqueles que ouvem jazz, não é estranho: era irmão de Roy Kral, da dupla Jackie and Roy. Alguns, quando souberam da existência de Irene, pensaram que tinha parentesco com Diana Krall. Mas, não: além do “L” a mais no sobrenome, esta última é canadense, e ela, natural de Illinois, Chicago.

Bem menos conhecida que o irmão mais velho, Irene começou tocando piano. Depois de uma breve passagem na banda de Woody Herman, participou do grupo vocal The Tattletales. O impulso importante foi quando, por recomendação de Carmen McRae, passou a fazer parte da banda de Maynard Ferguson, em 1957. Nela, conheceu Joe Burnett, com quem casou.

Em 1959, virou vocalista do programa The Steve Allen Show. Gravou seu primeiro disco – “Steveireneo!” –, pela United Artists, apenas com composições do apresentador, com uma banda de estrelas: Al Cohn, Zoot Sims, Urbie Green, Jimmy Raney, Danny Banks, Eddie Cane e Hank Jones, dentre outros. No mesmo ano, saiu outro disco, com a big band de Herb Pomeroy – “The Band and I”. Depois que passou a morar na Califórnia, cantou na banda de Shelly Manne.

Pelo início de sua carreira, parecia que Irene estava talhada para ser uma cantora de big bands, como June Christy, Chris Connor e Anita O’Day, para citar suas mais ou menos contemporâneas. E parecia ser esse o seu maior desejo. Afirmou uma vez que tinha nascido na época errada. Suas preferências eram pelas big bands como a de Woody Herman e Stan Kenton. Mas o fim dos anos 1960 representou o fim delas, ou quase. Na nova era, quatro ou cinco cabeludos tinham mais público e fãs do que uma big band de Count Basie ou Duke Ellington.

Irene Kral, entretanto, adaptou-se maravilhosamente aos novos tempos, assim como Christy, Connor e O’Day. Em relação às três citadas, não ficou tão conhecida, provavelmente, por, mudando-se para um pequeno subúrbio de Los Angeles, com filho para criar, preferir apresentar-se apenas em clubes das proximidades. Mas, um dia, o casamento acabou. Até que durou bastante.

Arrumou um namorado, Dennis Smith, que lhe deu a maior força para retomar a carreira efetivamente. Em 1975, gravou “Where Is Love?”, pelo selo Choice, ela e Alan Broadbent ao piano. Na nova era, optou pelo formato mais minimalista. E assim, revelou-se a tremenda intérprete que era, uma voz cálida, intimista, levemente anasalada, suave, sedutora, num formato em que não é possível enganar.

Nas notas do encarte, Kral escreveu: “Deve ser ouvido apenas naquela hora tranquila do dia, de preferência com alguém que você ama, quando você pode afundar na sua poltrona favorita, fechar os olhos e deixar pensamentos externos de lado.” Foi, antes de mais nada, uma cantora de baladas. Dizia que preferia três vezes mais esse tipo de canção que as “up tunes”.

Antes desse álbum, o anterior foi “Better Than Anything”, em 1963, com Junior Mance, Bob Cranshaw e Mickey Rocker. Nesse, temas mais uptempo, como “Better Than Anything”, “Rock Me to Sleep”, “Passing By”, It’s a Wonderful World”, “Just Friends” e “Nobody Else But Me”, equilibram-se com “The Touch of Your Lips” e “Guess I’ll Hang My Tears out to Dry”. Belo disco!

Ouça “When I Look in Your Eyes”, de “Where Is Love?”




No álbum seguinte, “Kral Space”, de 1977, pela Catalyst, com o mesmo Broadbent, dessa vez acompanhada por um contrabaixo, bateria, percussão e vibrafone, é um pouco mais suingado. Matthew Ball, do site allmusic é só elogios quanto às qualidades vocais dela: “Sempre impecavelmente afinada, Irene Kral tinha um registro de contralto seco e ressonante que empregava com efeito devastador. Sua arte estava em seu fraseado, que foi ajudada pela dicção perfeita e marcada por sua tendência a alongar suas vogais.” Outra grande qualidade é a dela mesclar clássicos como “Everytime We Say Goodbye” e “The Song Is You”, com músicas dos cult Dave Frishberg (“Wheelers and Dealers”) e Bob Dorough (a belíssima “Small Day Tomorrow”) e “Star Eyes”, e um clássico nem tão conhecido de Gene De Paul e Don Raye. Pelos dois álbuns – “Where Is Love” e “Kral Space” – foi indicada no Grammy como melhor performance vocal.

Ouça “Small Day Tomorrow”




Não sei precisar qual foi o último que lançou em vida. Morreu em agosto de 1978. “Gentle Rain”, mais um disco com Alan Broadbent, foi gravado em 1977, mas não sei se saiu quando ainda estava viva. Nesse, além do clássico de Luiz Bonfá, tem duas de Dave Frishberg – “The Underdog” e “You Are There” – e standards como “Something to Live for”, Blue Gardenia”, “What’s New?” e “If You Could See Me Now”.

Ouça “Gentle Rain”.




Depois da morte
Quando Kral podia consagrar-se, veio um câncer. Lutou contra por cerca de seis anos. Uma pena. Por conta disso e o “afastamento” para cuidar dos filhos, gravou poucos discos. Depois que morreu, foram lançados vários, na maioria com apresentações ao vivo, com resultados desiguais.

Alguns dos CDs:
• “Live” (Just Jazz, 2000)
• “Just for Now” (Jazzed Media, 2004)
•  “Second Chance” (Jazzed Media, 2010)
• “You Are There (Audiophile, 1999) coletânea
• “Gentle Rain: Live in Tokyo” (Absord, 1977)
• “Irene Kral - In the Name of Love” (2015)





quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O mais belo grave de Johnny Hartman

Ao ouvir “Wave” no álbum “Invitation”, de Art Van Damme e The Singers Unlimited, lembrei-me de Johnny Hartman. Em LP nunca lançado em CD, “Once in Every Life” (Bee Hive Records, 1980), o cantor mais subestimado do jazz solta um “together” respeitável no verso “The fundamental loneliness goes whenever two can dream a dream together”. É um grave de respeito.

O título original “Vou Te Contar” quase caiu no esquecimento. Até no Brasil lembram dela como “Wave”. Uma das coisas que irritava Antônio Carlos Jobim era ouvir suas músicas com letras vertidas para o inglês por Ray Gilbert e Norman e Marilyn Bergman. Fora a perda do espírito original, os letristas ficavam com metade dos royalties, o que não era nem um pouco justo. Por conta disso, Jobim resolveu ele mesmo escrever várias das versões. “Wave” é uma delas. Se não me engano, foi cantada com letra em inglês pela primeira vez por Frank Sinatra. Hartman deve ter ouvido esse registro, de 1969 pois, tão bom quanto o seu grave, é o de Sinatra. Bom, não vale comparar algum cantor com o velho Frank. É covardia. Apenas para registro, “Wave” teve sua primeira gravação nos Estados Unidos no álbum do mesmo nome, com arranjos de Claus Ogerman, em 1968.

Johnny Hartman é considerado cult, portanto, é aquele conhecido apenas pelos considerados “descolados”. Pelo menos, é o que parecia quando alguns “formadores de opinião”, como certo jornalista conhecido, em meados da década de 1990, decretou que em Nova York o álbum do momento era “Johnny Hartman and John Coltrane”. Detalhe: o disco é de 1963. Bom, dando um desconto, é provável que tenha lido alguma matéria sobre o álbum que estava sendo lançado pela primeira vez em CD, em 1995.

Bom, moda é moda. Teve uma época em que, se você não conhecesse “Chet Baker Sings”, era considerado um inculto e out. Lembro de quando trouxe esse álbum em CD, quando voltei do Japão, em 1988. Foram muitos os pedidos de cópias em fitas cassete, único meio de duplicação naquele tempo. Apenas os por volta de 50 anos tinham “CB Sings” em formato de LP e, provavelmente, em estado precário para audição, de tanto terem escutado. Os mais jovens estavam sendo apresentados àquele que diziam ter sido o grande influenciador da forma suave de cantar dos intérpretes da bossa nova. Nem o complete, inédito também no resto do mundo, de Billie Holiday na CBS, que eu tinha pago uma quantia considerável, fez tanto sucesso.

John e Johnny
Com a fama e prestígio adquiridos como sideman de Miles Davis e tocando com Thelonious Monk e os lançamentos dos excepcionais “Giant Steps” (1961). “Coltrane Jazz” (1961) e “My Favorite Things” (1961), Creed Taylor contratou John Coltrane a peso de ouro para a Impulse. Tinha recebido uma bela bolada na assinatura com a Atlantic Records. Mas no novo selo, seu passe só não foi maior do que a assinatura de Miles Davis com a CBS: 10 mil dólares no primeiro ano por dois discos, e 20 mil pelos próximos dois anos.

Os que ouviam Coltrane conheciam a sofisticação lírica inigualável ao tocar baladas e em composições próprias como “Naima”. Esse estilo belo e dinâmico nos andamentos lentos ficou registrado em “Ballads” (1963) e “Duke Ellington & John Coltrane” (1964). Sua interpretação de “In a Sentimental Mood”, neste último, é um dos clássicos de todos os tempos.

Ouça “In a Sentimental Mood”.



Hartman não atingiu a fama de Eckstine. Na fase pós Segunda Guerra Mundial, as orquestras ainda estavam à toda. Johnny começou com Earl Hines e logo depois com Dizzy Gillespie. Início brilhante. O primeiro disco que gravou como líder foi “Songs from the Heart” (1955), pela Bethlehem Records, e lançou apenas mais três LPs antes de “John Coltrane and Johnny Hartman”. O cantor mais famoso, fora Frank Sinatra, era Billy Eckstine. Era considerado o Sinatra negro. Bonitão, sua voz grave, de macho, como se falava antigamente, e carisma atraía milhões de ouvintes e, como não fosse isso suficiente, em suas orquestras tocavam os melhores músicos do jazz.

“John Coltrane and Jonnhy Hartman” foi gravado na mesma época dos dois citados. A escolha de Hartman foi a ideal. Os três álbuns representam o “gentle side” do gigante do saxofone. 

O crítico A.B. Spellman, autor das liner notes do disco original, escreve que a era dos cantores, principalmente os do sexo masculino, perderam o protagonismo com o fim das bandas de bebop. Vários crooners que ficaram conhecidos eram barítonos, com vozes potentes, casos de Hartman, Herb Jeffries, Arthur Prysock e o grande Billy Eckstine.

Ouça “My One and Only Love”. A introdução de Coltrane é doce e genial.



Devido à boa repercussão, Hartman gravou mais dois álbuns na Impulse: “I Just Dropped to Say Hello” (1963) e depois, “The Voice That Is” (1965). Mas havia um problema que acometeu o mundo do jazz. O evolução e popularidade do rock matou esse gênero tão americano. Lançou vários discos depois, mas nem tudo é bom, por conta da escolha de repertório, por razões de mercado. Nem Tony Bennett escapou.

Na minha opinião, a canção mais marcante dos dois álbuns é “Charade”. É a melhor interpretação de todos os tempos do clássico de Henry Mancini e Johnny Mercer. Ouça.



De todos os posteriores, a obra prima é “Once in Every Life” (1980), pelo selo BeeHive. Quando ninguém mais ligava para ele, nos surpreende com essa pérola. A banda que o acompanha, com exceção do pianista Billy Taylor e do flautista e saxofonista Frank Wess, mais conhecidos, é completada por Joe Wilder no trompete e flugelhorn, Al Gafa na guitarra, Victor Gaskin no contrabaixo e Keith Copeland na bateria.

Neste álbum, nunca lançado em CD, Johnny Hartman reforça o talento que tinha em cantar baladas. São clássicos como “Easy Living”, “For All We Know”, “I Could Write a Book”, “I See Your Face Before Me”, “By Myself” e “Wave”.

Clint Eastwood que, além de ator e diretor, é um grande entendedor de jazz, comprou os direitos do disco e resolveu “picá-lo” e incluir todas as canções nos dois CDs que lançou como trilha de “Madison County”. Bom, a solução foi, ideia do Carlos Conde: montar o CD com as músicas na ordem original e copiar a capa original do LP. Foi o que fiz.

Ouça “Wave”, a música que me inspirou a escrever esse texto.



‘Moonlight in Vermont” fica mais genial na voz de Hartman.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O melhor disco da última fase de Johnny Hartman não saiu em CD

Johnny Hartman, Elvin Jones e Coltrane no fundo
Um jornalista, que chegou a ocupar os cargos mais altos, “chique no último”, como se dizia, no alto de sua autoridade, escreveu uma vez que John Coltrane & Johnny Hartman era o “disco do momento” em Nova York. Isso foi no fim do século 20. Não faz tanto tempo. Se ele e essas pessoas estavam “descobrindo” Hartman, estavam um pouco atrasados. Pode ter pesado que o álbum originalmente lançado em 1963, saiu pela primeira vez em formato CD em 1995. Esses moderninhos estavam, provavelmente, ouvindo esse clássico pela primeira vez.

O cantor, que um dia foi chamado de “Bronze Sinatra” nunca ficou efetivamente conhecido. Mas foi cultuado por muitos. Não era um cara bonitão como Billy Eckstine, que chegou a ser considerado um Sinatra negro. Este foi um verdadeiro ídolo em seu tempo e um talento para arregimentar grandes músicos para a sua orquestra.

Hartman, pelo contrário, nem unanimidade foi entre os apreciadores do jazz. Seus crítico diziam que não tinha suingue. É uma verdade, parcialmente. Cantores com registro de barítono têm esse problema. Mas cantando baladas, foi inigualável.

É possível que não tenha feito tanto sucesso como Billy Eckstine ou Arthur Prysock, este nitidamente inferior a Hartman, ficando entre os de voz de barítono, em razão de ter sido uma pessoa de natureza mais retraída e alguém que nunca frequentou páginas de jornais e revistas fazendo o modelo do músico doidão, drogado ou alcoólatra, ou notado por sair com estrelas de Hollywood. Outra coisa que pesou, foi a falta de sorte com produtores e gravadoras.

Johnny e John
Bob Thiele, diretor da Impulse Records, tencionava gravar um álbum de John Coltrane com algum cantor. Sugeriu Sarah Vaughan. Este se mostrou reticente e falou de Hartman. Marcou, pois foi a única vez que Coltrane gravou com cantores e foi o disco de Hartman que mais vendeu. O crítico Will Friedwald classificou-o como o “Kind of Blue dos álbuns com vocalistas”.


Ouça Lush Life, de Billy Strayhorn.



Ouça My One and Only Love, com a linda abertura com o tenor de Coltrane.



Aproveitando a onda do sucesso, gravou mais alguns álbuns para o mesmo selo. I Just Dropped By to Say Hello, lançado no mesmo ano, apresenta a mesma qualidade do que gravou com Coltrane. Charade, de Henri Mancini, é a primeira faixa. É, simplesmente, a melhor interpretação de todos os tempos da música tema do filme do mesmo nome, de Richard Donen.

Ouça Charade.



Depois de The Voice That Is, saiu da Impulse e foi para a ABC-Paramount. Seus produtores acharam que gravando um repertório mais acessível, teriam vendas melhores. Não deu certo. Não agradou nem esse público que almejaram e muito menos os seus fãs. Com 60 anos, faleceu em decorrência de um câncer no pulmão.

O único álbum bom que lançou depois da Impulse foi Once in Every Life, pelo selo Bee Hive, em 1980. É excepcional e recebeu a cotação máxima pela Downbeat na época. Conta com músicos como Frank Wess na flauta e saxofone, Billy Taylor ao piano, Joe Wilder no trompete e flugel, e Al Gafa na guitarra. Creio que foi último em vida, pois morreu em 1983. Todos os demais lançados depois são de gravações anteriores.

Pegadinha
Once in Every Life saiu apenas em LP e, infelizmente, nunca no formato CD e, provavelmente, nunca sairá. Os direitos pertencem a Clint Eastwood. Muitos devem saber do apreço que o ator e diretor tem pelo jazz. Ele é autor da cinebiografia Bird, sobre Charlie Parker, já foi o homenageado no show After Hours, no Carnegie Hall, Nova York, com participações de Slide Hampton, Hank Jones, Joshua Redman, Christian McBride, dentre outros, e costuma inserir bons números em seus filmes. Tem um filho, Kyle Eastwood, que tomou gosto pelo gênero e é um contrabaixista de talento.

Quem assistiu ao filme As Pontes de Madison (Bridges of Madison County) deve lembrar-se das belas músicas que acompanham a história de Francesca e Robert Kincaid. Na trilha, Eastwood, foge do óbvio. Fora Dinah Washington, a mais conhecida, os outros intérpretes são Irene Kral, grande cantora, falecida precocemente de câncer, Barbara Lewis e Johnny Hartman. São escolhas de alguém que tem um conhecimento além da superfície do jazz. De Johnny são quatro as que constam no CD lançado.

Quando percebi que eram de Once in Every Life, fiquei endoidecido. Era um daqueles álbuns que sonhava em repor no formato CD.

Não sei quanto tempo depois, um segundo CD referente ao filme de Clint, foi lançado. Em Remembering Madison County tinha mais sete números de Hartman, que eram exatamente as que faltavam para completar Once in Every Life. Quando comentei com o Carlos Conde, expert do jazz, cque tinha um programa exclusivamente sobre o gênero na Rádio Cultura, contou-me que “montou” o CD conforme o original. Não tinha pensado nisso. Fiz o mesmo.

Anos depois, acho que nem o Conde deve ter percebido, senão teria falado. Clint Eastwood tinha nos pregado uma peça. No primeiro CD, Easy Living é a terceira, I See Your Face Before Me é a de número 5, It Was Almost Like a Song a nona, e For All We Know, a décima primeira.

Faltaram a primeira (I Could Write a Book), a segunda (Nobody Home), a quarta (Will You Still Be Mine), a sexta (Wave), a sétima (By Myself), e a oitava (I See Your Face Before Me). Juntando os dois “Madison County”, na ordem, dava Once in Every Life completo.

Na plataforma que uso para streaming, o Tidal, não tem o LP disponível. Por sorte o Spotify tem. Ouça na íntegra e perceberão como Hartman era genial.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Clint Eastwood, o homem que veio do oeste

His name is Clint. Eastwood
Alguém se lembra de que Clint Eastwood foi prefeito de Carmel? Pelo partido republicano, o que nos faz pensar que, gostos musicais são apartidários. Ele ama o jazz, assim como adorava Eisenhower e, até o caso Watergate, apoiou Richard Nixon. Depois disso, suas posições se tornaram dúbias, defendendo causas que estariam mais associadas ao partido democrata.

Não assisti a nenhum dos Dirty Harry, da vida, dirigidos por seu parceiro de muitos filmes, Don Siegel. Não vi Por um Punhado de Dólares ou suas continuações por causa de Clint: vi porque o filme era de Sergio Leone, um dos meus diretores preferidos. Quem fez Era Uma Vez no Oeste não precisa fazer mais nada para ser considerado gênio. Digo tudo isso, porque, confesso, até um certo tempo, tinha preconceito em relação a Eastwood. E preconceito é uma m….! Porém comecei a “rever os meus conceitos” ao assistir Bird, dirigido por ele. Forrest Whitaker faz o papel do maior sax alto de todos os tempos, Charlie Parker. Só fui ver um outro de Clint muitos anos depois: Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992) – grande filme –, e depois, Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1995), sensível leitura do amor da meia-idade.

No entanto, a razão desse texto não são seus filmes especificamente. São os soundtracks lançados por sua gravadora Malpaso. O álbum lançado em razão do filme Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal (Midnight in the Garden of Good and Evil, 1997) contém verdadeiras preciosidades, a começar pela sempre competente k.d. lang cantando Skylark. A tia do ator George Clooney, Rosemary Clooney, cantora das “antigas”, contribui com Fools Rushes In. Temos belas interpretações de Cassandra Wilson (Days of Wine and Roses), Tonny Bennett (I Wanna Be Around), o basieano Joe Williams (Too Marvelous for Words), Diana Krall (Midnight Sun) e o “Barry White do jazz”, Kevin Mahogany (Laura). As faixas instrumentais também são de primeira: Dream, com o pianista Brad Mehldau e I’m an Old Cowhand, com o sax tenor Joshua Redman. Como curiosidades há um registro de Ac-cent-tchu-ate The Positive, cantado por Clint e That Old Black Magic, com o ator – e bom cantor – Kevin Spacey, protagonista do filme.

Melhor ainda são as músicas dos álbuns The Bridges of Madison County (1995) e seu apêndice, Remembering Madison County. São preciosidades como Dinah Washington cantando I’ll Close My Eyes, Easy Living e Blue Gardenia e Irene Kral, grande intérprete, morta prematuramente em razão de um câncer, cantando It’s a Wonderful World e This Is Always. O destaque dentre as instrumentais são as interpretações do pianista preferido de Miles Davis, Ahmad Jamal, com (Put Another Nickel in) Music! Music! Music! e o consagrado Poinciana. Porém o melhor são as canções interpretadas pela “voz de trovão’, Johnny Hartman. Aqui, Clint Eastwood cometeu um verdadeiro crime: detentor dos direitos de alguns registros da extinta gravadora BeeHive, picotou o genial LP – nunca saiu em CD – Once in Every Life. Nele tem uma versão maravilhosa de Wave, de Tom Jobim e um não menos brilhante Moonlight in Vermont.

Em 1996 aconteceu um concerto em homenagem a Clint Eastwood no Carnegie Hall, com vários músicos de primeira. Quem tiver interessse em assisti-lo, está disponível em DVD: Eastwood After Hours: Live at Carnegie Hall. Grande concerto e grandes músicos.

Ouça algumas preciosidades do gosto de Clint.
Kevin Spacey canta That Old Balck Magic.




Dinah Washington canta I’ll Close My Eyes.




Johnny Hartman
Ouça uma que não está no disco do John Coltrane e é o máximo: “Charade”.




Esse texto foi publicado, pela primeira vez, em 2011.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Clint Eastwood trata da vida em Além da Vida

O americano Philip Roth, quase octogenário, lança um romance atrás do outro. São narrativas relativamente curtas, e os assuntos recorrentes são relativos à morte, finitude, decrepitude e outros a “tudes”, mas nada “além da vida”.

A explicação à presença desse tema é justificada pelo escritor em entrevista concedida a Lúcia Guimarães de O Estado de S. Paulo: “Nos últimos anos, tenho me encontrado cercado pela morte de amigos. E, antes disso, meus pais morreram. Mas, nos últimos cinco anos, morreram meus amigos e meu irmão. Então é muita morte. Você começa a passar mais tempo em cemitérios. Passa algum tempo escrevendo tributos e falando nos funerais. E trata com os sobreviventes dos mortos. Volta para casa e se lembra dos mortos. Então, a morte entrou na minha vida com mais força do que em qualquer outro momento. Acho que, nesse período, perdi seis dos meus amigos mais próximos, a maioria 5 ou 10 anos mais velhos do que eu. A minha reação à morte dessas pessoas não foi de raiva. Não. Foi de tristeza e de incredulidade diante do fato de que partiram. (OESP, 3/6/2010)

Eastwood em ação, com Cécile de France
Mesmo com o aumento da expectativa de tempo de vida, hoje, é até natural que alguém com mais de 80 anos se imagine na “contagem regressiva”. Não dá para conjecturar se Clint Eastwood está se sentindo no crepúsculo da vida e tenha sido esse o motivo a de ele fazer um filme como Além da Vida (Hereafter), lançado no fim de 2010.

Filmes e romances espíritas, digo; desses que tratam de vidas depois da morte – ou de vidas passadas –, com essa história de conversar com os mortos, têm apelo forte. Quem não se interessa em saber se existe uma “além-vida”? Dois filmes brasileiros de grande bilheteria, em 2010, são relativos a isso: Nosso Lar, direção de Wagner de Assis, baseado em escritos de Chico Xavier; e outro, cujo título é o próprio nome do médium, e dirigido pelo diretor global Daniel Filho. Se ambos deram boa bilheteria, é sinal de que milhões de pessoas acreditam ou se interessam por esses assuntos.

As temáticas dos filmes de Eastwood têm sido bem diversas. Gran Torino ocupa-se de um durão veterano de guerra que passa a ter como vizinho uma família coreana. Trata, sob certos aspectos, da velhice, mas nunca da proximidade da morte. No mais recente – Além da Vida –, a morte, ou a possibilidade de outra vida depois, é onipresente.

O início é a força da natureza e sua imprevisibilidade. Marie LeLay (Cécile de France; para quem não se lembra dela, é a protagonista do belo Um Lugar na Plateia) passa férias com o namorado, produtor de seu programa de entrevistas. Sobrevive ao tsunami. É levada pela onda gigante e é resgatada por dois nativos que a reanimam. Esse episódio mostra que ser uma apresentadora famosa, garota-propaganda do Blackberry, rosto visto nos televisores e anúncios de rua, não significa nada. No fundo, é uma pessoa igual a qualquer outra. Aparentemente, Marie passou pelo “hereafter”, bendito, não “after life”.

Abalada pela experiência, deixa de fazer o programa de entrevistas e decide levar em frente seu antigo projeto de escrever uma biografia de François Mitterand, por sugestão do namorado produtor. Como continua tendo algumas “visões”, e obcecada por isso, acaba por apresentar aos editores alguns capítulos sem nenhuma relação com o primeiro presidente socialista da França. Eles recusam, mas apresentado a outras editoras, consegue fechar contrato para publicação.

O filme acontece em três países diferentes. Em Londres, dois irmãos gêmeos convivem com uma mãe drogada. Os dois, para não serem mandados a um abrigo ou serem entregues a alguma família, ficam tentando encobrir a condição da mãe ante o serviço social de assistência. A mãe pede que um deles vá até a farmácia para pegar um medicamento – certamente algum para minorar ou afastá-la do vício da heroína. O mais velho – dezessete minutos – diz que ele vai, pois o menor precisa terminar as lições escolares. No caminho de volta, três garotos tentam roubá-lo. Na fuga é atropelado e morre. O menor é entregue a um casal enquanto a mãe é internada em uma clínica de recuperação.

No outro lado do Atlântico, vive George (Matt Damon). Ele tem o dom de se comunicar com os mortos. Trabalha como operador de empilhadeira depois de ter desistido de ganhar dinheiro fazendo consultas mediúnicas. Considera o dom maldito, por lidar com a morte. Deixando de trabalhar com isso, seu desejo é o de ter uma vida normal.

Os destinos dos três (de George, Marie e Marcus, o menino) se cruzam em Londres. Não existe lugar melhor do que a ficção para que ocorram tais coincidências. Bem que a vida real pudesse ser uma sucessão de felizes coincidências.

Jason procura desesperadamente comunicar-se com o irmão gêmeo mais velho. Rouba dinheiro da família que o abriga e vai a todo tipo de videntes, charlatães e congêneres em busca desse contato. Em suas pesquisas nos “google da vida”, descobre a página do site que George Lonegan possuía quando vivia de “fazer” a comunicação dos vivos com os mortos.

Bem, agora chegamos à cena do encontro de Marcus, George e Marie. O americano é demitido do trabalho, apesar de funcionário exemplar (lembre-se, há pouco a América estava em crise). O irmão oportunista quer é mais que George volte a exercer seu dom e com isso ganharem dinheiro juntos. Tem um esquema montado – escritório, site etc. Não é o que George deseja da vida. Vai para Londres, terra de seu escritor preferido: Charles Dickens.

George não lê Dickens. Ouve. Em suas noites solitárias fica ouvindo narrativas de seus livros. É fã dos audiobooks. Na visita turística à casa do escritor, em Londres, depara-se com um cartazete anunciando uma leitura por parte, imagino, de seu narrador preferido dos livros de Dickens, numa feira de livros. No mesmo lugar, ocorre o lançamento do livro Hereafter, de Marie LeLay. George se interessa pelo livro, entra na fila dos autógrafos. Trocam aquele olhar que só acontece em filmes. Sincronicamente, o menino reconhece George na feira e vai atrás dele. Rechaça as abordagens de Marcus repetidamente. Volta para o hotel e pela janela, vê que o menino foi atrás dele. Diante de tal insistência, deixa-o subir ao seu apartamento. Pega as duas mãos dele e começa a dizer o que o mais velho tem a dizer. Fica-se sabendo então que Jason sempre protegeu o irmão gêmeo poupando-o das dificuldades, resolvendo tudo por ele. Através de George, pede que deixe de usar o boné que fora seu (usá-lo era uma forma de continuar “ligado” ao irmão). Em suma, pede que o menor se liberte dessa tutela.

O menino, ao ver o exemplar de Hereafter sobre a mesa, diz ter notado que George se mostrara interessado pela escritora. Ele refuta. O menino vai e liga mais tarde dizendo o nome em que Marie está hospedada. Agora, adivinhe o que acontece?

Na cena final, George espera por Marie sentado num bar de uma galeria londrina. Num“click”, ele tem a visão dos dois se beijando. O que isso pode significar? George, em vez de se “comunicar” com a morte, tem a “comunicação” com a vida. Além do que pode ser a “além vida”, é ver a vida, ou viver. Marcus não conseguia viver sua vida, pois enquanto tinha o irmão do seu lado, era protegido e tutelado. Jason era a “vida” de Marcus. George então, não viu apenas a morte; através de sua comunicação, faz com que Marcus vá viver a sua vida. Marie, quando “morre” e é reanimada, torna-se uma outra Marie. Deixa de ser a imagem da mulher de sucesso, retratada sorridente nos outdoors com um Blackberry na mão.

A morte é um ato de “desprendimento”, assim como, para viver, é necessário desprender-se do que está morto. Para viver, é preciso se libertar do que o prende, é preciso “matar”.

O trailer do filme.