A explicação à presença desse tema é justificada pelo escritor em entrevista concedida a Lúcia Guimarães de O Estado de S. Paulo: “Nos últimos anos, tenho me encontrado cercado pela morte de amigos. E, antes disso, meus pais morreram. Mas, nos últimos cinco anos, morreram meus amigos e meu irmão. Então é muita morte. Você começa a passar mais tempo em cemitérios. Passa algum tempo escrevendo tributos e falando nos funerais. E trata com os sobreviventes dos mortos. Volta para casa e se lembra dos mortos. Então, a morte entrou na minha vida com mais força do que em qualquer outro momento. Acho que, nesse período, perdi seis dos meus amigos mais próximos, a maioria 5 ou 10 anos mais velhos do que eu. A minha reação à morte dessas pessoas não foi de raiva. Não. Foi de tristeza e de incredulidade diante do fato de que partiram. (OESP, 3/6/2010)
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| Eastwood em ação, com Cécile de France |
Filmes e romances espíritas, digo; desses que tratam de vidas depois da morte – ou de vidas passadas –, com essa história de conversar com os mortos, têm apelo forte. Quem não se interessa em saber se existe uma “além-vida”? Dois filmes brasileiros de grande bilheteria, em 2010, são relativos a isso: Nosso Lar, direção de Wagner de Assis, baseado em escritos de Chico Xavier; e outro, cujo título é o próprio nome do médium, e dirigido pelo diretor global Daniel Filho. Se ambos deram boa bilheteria, é sinal de que milhões de pessoas acreditam ou se interessam por esses assuntos.
As temáticas dos filmes de Eastwood têm sido bem diversas. Gran Torino ocupa-se de um durão veterano de guerra que passa a ter como vizinho uma família coreana. Trata, sob certos aspectos, da velhice, mas nunca da proximidade da morte. No mais recente – Além da Vida –, a morte, ou a possibilidade de outra vida depois, é onipresente.
O início é a força da natureza e sua imprevisibilidade. Marie LeLay (Cécile de France; para quem não se lembra dela, é a protagonista do belo Um Lugar na Plateia) passa férias com o namorado, produtor de seu programa de entrevistas. Sobrevive ao tsunami. É levada pela onda gigante e é resgatada por dois nativos que a reanimam. Esse episódio mostra que ser uma apresentadora famosa, garota-propaganda do Blackberry, rosto visto nos televisores e anúncios de rua, não significa nada. No fundo, é uma pessoa igual a qualquer outra. Aparentemente, Marie passou pelo “hereafter”, bendito, não “after life”.
Abalada pela experiência, deixa de fazer o programa de entrevistas e decide levar em frente seu antigo projeto de escrever uma biografia de François Mitterand, por sugestão do namorado produtor. Como continua tendo algumas “visões”, e obcecada por isso, acaba por apresentar aos editores alguns capítulos sem nenhuma relação com o primeiro presidente socialista da França. Eles recusam, mas apresentado a outras editoras, consegue fechar contrato para publicação.
O filme acontece em três países diferentes. Em Londres, dois irmãos gêmeos convivem com uma mãe drogada. Os dois, para não serem mandados a um abrigo ou serem entregues a alguma família, ficam tentando encobrir a condição da mãe ante o serviço social de assistência. A mãe pede que um deles vá até a farmácia para pegar um medicamento – certamente algum para minorar ou afastá-la do vício da heroína. O mais velho – dezessete minutos – diz que ele vai, pois o menor precisa terminar as lições escolares. No caminho de volta, três garotos tentam roubá-lo. Na fuga é atropelado e morre. O menor é entregue a um casal enquanto a mãe é internada em uma clínica de recuperação.
No outro lado do Atlântico, vive George (Matt Damon). Ele tem o dom de se comunicar com os mortos. Trabalha como operador de empilhadeira depois de ter desistido de ganhar dinheiro fazendo consultas mediúnicas. Considera o dom maldito, por lidar com a morte. Deixando de trabalhar com isso, seu desejo é o de ter uma vida normal.
Os destinos dos três (de George, Marie e Marcus, o menino) se cruzam em Londres. Não existe lugar melhor do que a ficção para que ocorram tais coincidências. Bem que a vida real pudesse ser uma sucessão de felizes coincidências.
Jason procura desesperadamente comunicar-se com o irmão gêmeo mais velho. Rouba dinheiro da família que o abriga e vai a todo tipo de videntes, charlatães e congêneres em busca desse contato. Em suas pesquisas nos “google da vida”, descobre a página do site que George Lonegan possuía quando vivia de “fazer” a comunicação dos vivos com os mortos.
Bem, agora chegamos à cena do encontro de Marcus, George e Marie. O americano é demitido do trabalho, apesar de funcionário exemplar (lembre-se, há pouco a América estava em crise). O irmão oportunista quer é mais que George volte a exercer seu dom e com isso ganharem dinheiro juntos. Tem um esquema montado – escritório, site etc. Não é o que George deseja da vida. Vai para Londres, terra de seu escritor preferido: Charles Dickens.
George não lê Dickens. Ouve. Em suas noites solitárias fica ouvindo narrativas de seus livros. É fã dos audiobooks. Na visita turística à casa do escritor, em Londres, depara-se com um cartazete anunciando uma leitura por parte, imagino, de seu narrador preferido dos livros de Dickens, numa feira de livros. No mesmo lugar, ocorre o lançamento do livro Hereafter, de Marie LeLay. George se interessa pelo livro, entra na fila dos autógrafos. Trocam aquele olhar que só acontece em filmes. Sincronicamente, o menino reconhece George na feira e vai atrás dele. Rechaça as abordagens de Marcus repetidamente. Volta para o hotel e pela janela, vê que o menino foi atrás dele. Diante de tal insistência, deixa-o subir ao seu apartamento. Pega as duas mãos dele e começa a dizer o que o mais velho tem a dizer. Fica-se sabendo então que Jason sempre protegeu o irmão gêmeo poupando-o das dificuldades, resolvendo tudo por ele. Através de George, pede que deixe de usar o boné que fora seu (usá-lo era uma forma de continuar “ligado” ao irmão). Em suma, pede que o menor se liberte dessa tutela.
O menino, ao ver o exemplar de Hereafter sobre a mesa, diz ter notado que George se mostrara interessado pela escritora. Ele refuta. O menino vai e liga mais tarde dizendo o nome em que Marie está hospedada. Agora, adivinhe o que acontece?
Na cena final, George espera por Marie sentado num bar de uma galeria londrina. Num“click”, ele tem a visão dos dois se beijando. O que isso pode significar? George, em vez de se “comunicar” com a morte, tem a “comunicação” com a vida. Além do que pode ser a “além vida”, é ver a vida, ou viver. Marcus não conseguia viver sua vida, pois enquanto tinha o irmão do seu lado, era protegido e tutelado. Jason era a “vida” de Marcus. George então, não viu apenas a morte; através de sua comunicação, faz com que Marcus vá viver a sua vida. Marie, quando “morre” e é reanimada, torna-se uma outra Marie. Deixa de ser a imagem da mulher de sucesso, retratada sorridente nos outdoors com um Blackberry na mão.
A morte é um ato de “desprendimento”, assim como, para viver, é necessário desprender-se do que está morto. Para viver, é preciso se libertar do que o prende, é preciso “matar”.
Abalada pela experiência, deixa de fazer o programa de entrevistas e decide levar em frente seu antigo projeto de escrever uma biografia de François Mitterand, por sugestão do namorado produtor. Como continua tendo algumas “visões”, e obcecada por isso, acaba por apresentar aos editores alguns capítulos sem nenhuma relação com o primeiro presidente socialista da França. Eles recusam, mas apresentado a outras editoras, consegue fechar contrato para publicação.
O filme acontece em três países diferentes. Em Londres, dois irmãos gêmeos convivem com uma mãe drogada. Os dois, para não serem mandados a um abrigo ou serem entregues a alguma família, ficam tentando encobrir a condição da mãe ante o serviço social de assistência. A mãe pede que um deles vá até a farmácia para pegar um medicamento – certamente algum para minorar ou afastá-la do vício da heroína. O mais velho – dezessete minutos – diz que ele vai, pois o menor precisa terminar as lições escolares. No caminho de volta, três garotos tentam roubá-lo. Na fuga é atropelado e morre. O menor é entregue a um casal enquanto a mãe é internada em uma clínica de recuperação.
No outro lado do Atlântico, vive George (Matt Damon). Ele tem o dom de se comunicar com os mortos. Trabalha como operador de empilhadeira depois de ter desistido de ganhar dinheiro fazendo consultas mediúnicas. Considera o dom maldito, por lidar com a morte. Deixando de trabalhar com isso, seu desejo é o de ter uma vida normal.
Os destinos dos três (de George, Marie e Marcus, o menino) se cruzam em Londres. Não existe lugar melhor do que a ficção para que ocorram tais coincidências. Bem que a vida real pudesse ser uma sucessão de felizes coincidências.
Jason procura desesperadamente comunicar-se com o irmão gêmeo mais velho. Rouba dinheiro da família que o abriga e vai a todo tipo de videntes, charlatães e congêneres em busca desse contato. Em suas pesquisas nos “google da vida”, descobre a página do site que George Lonegan possuía quando vivia de “fazer” a comunicação dos vivos com os mortos.
Bem, agora chegamos à cena do encontro de Marcus, George e Marie. O americano é demitido do trabalho, apesar de funcionário exemplar (lembre-se, há pouco a América estava em crise). O irmão oportunista quer é mais que George volte a exercer seu dom e com isso ganharem dinheiro juntos. Tem um esquema montado – escritório, site etc. Não é o que George deseja da vida. Vai para Londres, terra de seu escritor preferido: Charles Dickens.
George não lê Dickens. Ouve. Em suas noites solitárias fica ouvindo narrativas de seus livros. É fã dos audiobooks. Na visita turística à casa do escritor, em Londres, depara-se com um cartazete anunciando uma leitura por parte, imagino, de seu narrador preferido dos livros de Dickens, numa feira de livros. No mesmo lugar, ocorre o lançamento do livro Hereafter, de Marie LeLay. George se interessa pelo livro, entra na fila dos autógrafos. Trocam aquele olhar que só acontece em filmes. Sincronicamente, o menino reconhece George na feira e vai atrás dele. Rechaça as abordagens de Marcus repetidamente. Volta para o hotel e pela janela, vê que o menino foi atrás dele. Diante de tal insistência, deixa-o subir ao seu apartamento. Pega as duas mãos dele e começa a dizer o que o mais velho tem a dizer. Fica-se sabendo então que Jason sempre protegeu o irmão gêmeo poupando-o das dificuldades, resolvendo tudo por ele. Através de George, pede que deixe de usar o boné que fora seu (usá-lo era uma forma de continuar “ligado” ao irmão). Em suma, pede que o menor se liberte dessa tutela.
O menino, ao ver o exemplar de Hereafter sobre a mesa, diz ter notado que George se mostrara interessado pela escritora. Ele refuta. O menino vai e liga mais tarde dizendo o nome em que Marie está hospedada. Agora, adivinhe o que acontece?
Na cena final, George espera por Marie sentado num bar de uma galeria londrina. Num“click”, ele tem a visão dos dois se beijando. O que isso pode significar? George, em vez de se “comunicar” com a morte, tem a “comunicação” com a vida. Além do que pode ser a “além vida”, é ver a vida, ou viver. Marcus não conseguia viver sua vida, pois enquanto tinha o irmão do seu lado, era protegido e tutelado. Jason era a “vida” de Marcus. George então, não viu apenas a morte; através de sua comunicação, faz com que Marcus vá viver a sua vida. Marie, quando “morre” e é reanimada, torna-se uma outra Marie. Deixa de ser a imagem da mulher de sucesso, retratada sorridente nos outdoors com um Blackberry na mão.
A morte é um ato de “desprendimento”, assim como, para viver, é necessário desprender-se do que está morto. Para viver, é preciso se libertar do que o prende, é preciso “matar”.
O trailer do filme.

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