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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O jazz se encanta com Pavane pour une infante défunte, de Maurice Ravel

Maurice Ravel e seu piano



Pavane é composição da juventude; fora composta quando ainda era estudante. Como outras dezenas, fora feita originalmente para o piano e, depois, feita uma versão orquestral pelo próprio Ravel. Nesse quesito sempre foi um mestre; basta ouvir a transposição para orquestra que fizera de uma obra alheia: Quadros de Uma Exposição, de Mussorgsky.

Não deve ter havido peça mais maltratada do que a conhecida como “Ode à Alegria”, que corresponde ao último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven, por intérpretes da música popular. Perpetraram versões “pop”, virou hino e tema de encerramento de eventos esportivos etc. Lembro de uma versão da Ode à Alegria lançada no fim da década de 1960 – ou será início dos 1970? – que atingiu sucesso estrondoso. Beethoven e Schiller mereciam um pouco mais de consideração. Perto do que foi feito, a versão “elétrica” do tecladista Walter Carlos, mais tarde, Wendy Carlos, para o filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, era refresco. No entanto, Beethoven não foi a única vítima dos intérpretes da música popular: tanto Mozart como Chopin e Richard Strauss tiveram suas músicas “vulgarizadas” para o gosto da patuleia. Esse tipo de “popularização” faz com que alguns incorram em casos parecidos à de uma amiga que, ouvindo um pedaço da Ode à Alegria, no original, disse: “oh, é a música do Laranja Mecânica!”. Beethoven não estava no seu repertório de conhecimentos.

Considerando-se alguns desses casos, pode-se dizer que Ravel foi mais respeitado. Há muito está no repertório dos jazzistas. Para o piano, é natural, pois muitos desses instrumentistas tiveram aprendizado clássico e conhecem bem música erudita. Mas não é só no piano que ela tem sido interpretada. A primeira que devo ter ouvido é uma de Larry Coryell, no álbum The Restfull Mind (Vanguard, 1974). Dos discos de Coryell, esse e Spaces (Vanguard, 1969) estão entre os melhores que gravou. The Restfull Mind é quase um disco da banda Oregon, com o acréscimo de Coryell; o único ausente do Oregon é o saxofonista e clarinetista Paul McCandless (os outros são Ralph Towner, o percussionista Colin Walcott e o baixista Glen Moore). Para que tenha atingido o estado de arte, a participação de Ralph Towner foi essencial. Excelente violonista, melhor até que Coryell, tecnicamente, “inaugurou” duos de violão que fez com o belga Philip Catherine e, mais tarde, com John McLaughlin, Al DiMeola e Paco de Lucia. Sem tirar o mérito de Coryell, responsável pela totalidade das composições e arranjos sobre obras de Ravel e do, relativamente obscuro Robert De Visée, instrumentista e compositor da corte de Luís XVI, Towner é corresponsável pela qualidade de The Restfull Mind. A Pavane de Ravel é um duo de Towner e Coryell, com arranjos do último.

Dentre as interpretações que conheço, além dessa, de Coryell, há outra no CD, com o título da peça de Ravel vertida para o inglês – Pavane for a Dead Princess (Venus Records, 2006) –, pelo pianista Steve Kuhn, tendo como sidemen o baixista David Finck e o baterista Billy Drummond. O tema recebe uma interpretação jazzística mesmo, em que Kuhn não se limita às notas originais. É interessante, mas nada de excepcional.

Os que estão acostumados a ouvir a Pavane em seu desenho original, apenas ao piano, ou na sublime versão orquestral não ficarão assustados ou mortificados e, muito menos, rogarão alguma praga em Art Farmer por sua interpretação que está contida em Big Blue (CTI, 1979). Acompanhado pela guitarra bela e econômica de Jim Hall, o vibrafone (essencial para o “clima”) de Mike Manieri, Mike Moore no baixo, e Steve Gadd na bateria, apesar dos improvisos e solos de praxe das improvisações jazzísticas, mantém-se no clima algo etéreo e evocativo da composição original.

Uma quarta interpretação da Pavane por alguém ligado ao jazz é a de Branford Marsalis em Creation (CBS, 2001). Esse álbum é dedicado apenas a composições eruditas de Ravel, Debussy, Fauré, Satie, Jacques Irert e Darius Milhaud, interpretadas por Branford nos saxes e a Orpheus Chamber Orchestra. A Pavane de Marsalis é fiel à original, arranjada para sax soprano.

A ligação mais incontestável com o jazz da Pavane está representada na música The Lamp Is Low. Essa composição da década de 1930 foi composta por Peter DeRose e Bert Schaffer com letras de Mitchell Parish e é uma adaptação dessa composição. Foi cantada pela primeira vez por Mildred Bailey e, posteriormente, por Frank Sinatra, Johnny Hartman, Carmen McRae, Doris Day e Ella Fitzgerald (são as que conheço).

Ouça Pavane for a Dead Princess com Larry Coryell.

A Pavane com Branford Marsalis é com ele no sax soprano, com a Orpheus Chamber Orchestra. Ouça.

Uma interpretação da Pavane, muito boa, é a do genial e discreto pianista Steve Kuhn.

Ouça a de Art Farmer. É de uma sonoridade rica, com guitarra de Jim Hall, e vibrafone, captando toda a magia hipnótica da música de Maurice Ravel.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Mil e um sóis da meia-noite

Não sei, se um dia, teremos mil e um sóis da meia-noite. Dos “sóis” existentes, devo ter uns quarenta em CDs e DVDs. Teria dificuldade em escolher a preferida, a primeira, no entanto, que me vem à cabeça é a de June Christy, em Something Cool (leia em: http://bit.ly/pbDrTV).

Se tivermos de responder a um questionário sobre as “dez mais”, alguns as terão na ponta da língua. Essas preferências, no entanto, são móveis e, depois de ter ouvido tanta coisa nessa vida, teria dificuldade em escolhê-las. Há canções que, circunstancialmente, lideram nossas “paradas”. A minha, nesse início de agosto, é Knocking on Heaven’s Door, de Bob Dylan: trazem-me algumas boas lembranças. Igualmente, existem as mais perenes. Se perguntado, acho que conseguiria nomear algumas além de Midnight Sun; facilitaria se fosse por gênero, jazz, por exemplo, pop ou erudito.

Ocorreu-me de falar novamente de Midnight Sun em razão de, nesses dias, ter ouvido uma bela interpretação desse clássico contida no disco Modern Art, de Art Farmer (Bill Evans está creditado como parceiro), de 1958. Ouvindo-a, concluo que é uma peça em que o vibrafone é imprescindível. Explicável: é uma composição de Sonny Burke e Lionel Hampton um dos melhores da história nesse instrumento. De 1947, esse tema teve letra acrescida por Johnny Mercer. Circula que o estalo em Mercer de colocar letra em Midnight Sun ocorreu enquanto dirigia numa freeway em Palm Springs.

Em algum lugar, foi dado que a primeira gravação dessa canção é de Ella Fitzgerald em Like Someone in Love (1957), mas o disco Something Cool, de June Christy, é de 1954. Deve existir algum erro aí. Foi gravada também por todo o primeiro time de cantores – Carmen McRae, Sarah Vaughan, Dianne Reeves, Dee Dee Bridgewater, Jo Sttaford, Diana Krall, Irene Kral, Mel Tormé – e a original instrumental deve ter centenas de registros.

Art Farmer tocou na banda de Lionel Hampton
O meu Modern Art não se restringe ao lançamento original. Nas reedições foram acrescentadas algumas outras gravações. Nas faixas em que Art Farmer toca com Bill Evans, eles são acompanhados por Benny Golson no trumpete, Addison Farmer – irmão gêmeo – no baixo, e Dave Bailey na bateria.

As quatro seguintes foram gravadas no mesmo ano de 1958, mas com outra formação: Bob Brookmeyer (trombone), Zoot Sims (sax tenor), Teddy Charles (vibrafone), Addison Farmer (baixo), e Ed Thigpen (bateria). São registros de primeira qualidade: não poderia ser diferente com Sims e Brookmeyer tocando juntos.

As restantes (cinco músicas) são gravações com uma banda grande com arranjos de Bob Zieff. São excepcionais também. Não as conhecia e foi uma bela surpresa. Elas fazem um perfeito conjunto com o restante. Esse CD é de 2004 e é da Lonehill, caso alguém se interesse.

Sobre Art Farmer, recomendo a leitura de um belo texto do amigo Érico sobre ele: http://bit.ly/nInpZE, contido em seu blogue Jazz+Bossa+Baratos Afins (http://ericocordeiro.blogspot.com/). Aliás, se você não o conhece, coloque entre os seus favoritos. Seus textos são longos e detalhados e muito bem escritos.


Imagino que Midnight Sun com Art Farmer não seja tão popular assim. Ouça.