Das três primeiras colocadas no Thelonious Monk International Jazz Vocalist Competition de 2010, a menos conhecida, por enquanto, é Charenée Wade. Ficou em segundo, com a estupenda Cécile McLorin Salvant em primeiro e Cyrille Aimée completando a lista. Mas a hora dela chegou.
Gil Scott-Heron, falecido em 2011, foi um gênio rebelde, com altos e baixos em razão de seus problemas com as drogas, principalmente. Foi preso mais de uma vez. Fugiu de uma clínica de reabilitação alegando que não estavam lhe dando remédios para o tratamento de HIV. Até então, não se sabia que Heron era soropositivo. Isso se confirmou posteriormente. O autor de “The Revolution Will Not Be Televised” foi uma artista fora da curva. Quando estudante na Lincoln University, Pensilvânia, seu herói era o poeta Langston Hughes, negro, homossexual e comunista. Além de músico, é autor dos romances “The Vulture” e “Nigger Factory”. Seu interesse pela literatura e pela luta dos negros contra o domínio da cultura branca influenciaram na sua forma de fazer música. Inicialmente classificado como autor que em suas canções mesclava o jazz, o soul e o blues, Scott-Heron introduziu o canto falado, quase sempre em tom de manifesto. Nesse sentido pode-se dizer que é um dos pioneiros do rap.
Conheci Scott-Heron ao ouvir o LP “Real Eyes”, em 1980, na casa em que o Hilton Raw dividia com o Arnaldo Black e o Aaron (esqueci o sobrenome). O Hilton estava fascinado por ele e o apelidou de “Sócrates da música”, em alusão à semelhança dele na imagem da contracapa do disco com o jogador. Acho que referia-se também à categoria de ambos em suas especialidades. Por coincidência, os dois morreram no mesmo ano: 2011. Um abusou das drogas, e o outro, do álcool.
Na capa, Gil aparecia com um bebê, sorridente e feliz. Devia estar em uma fase pacificada com a vida. Conheci um Gil diferente do que descobri mais tarde. A curiosidade me fez procurar outros discos, os anteriores ao “Real Eyes”. Um deles me impressionou bastante. “From South Africa to South Carolina” (Arista, 1975), com Brian Jackson.
Uma revelação
A quatro anos atrás, Mark Ruffin estava trabalhando com o cantor Giacomo Gates em um álbum com material de Scott-Heron. Como o lançamento de “Revolution Will Be Jazz: The Songs of Gil Scott-Heron” coincidiu com a morte dele, o álbum foi erradamente interpretado como um tributo.
Apesar da grande qualidade do álbum de Gates, um dos melhores cantores de jazz da atualidade, Ruffin planejava um outro que fosse realmente um tributo póstumo. O ponto de partida foi Charenée. A tônica foi sobre a parceria de Scott-Heron com Brian Jackson. Foi escolhido um time de grandes músicos, incluindo o vibrafonista Stefon Harris, o guitarrista Dave Stryker, o pianista Brandon Kune, o baixista Lonnie Plaxico e o baterista Alvester Garnett, além das participações especiais de Lakecia Benjamin no sax alto, Marcus Miller na clarineta baixo e Malcoln-Jamal Warner na declamação em “Essex Martin, Grant, Byrd & Till”, e o baixista Christian Bride na declamação de “Peace, Go with You, Brother”.
Lançado pelo selo Motéma, “Offering: The Music of Gil Scott-Heron & Brian Jackson”. Christopher Loudon, da JazzTimes, compara a voz de Wade à “flexibilidade [vocal] de Dianne Reeves com o espírito de Abbey Lincoln.” Boa lembrança: Lincoln é um dos nomes mais importantes da música de protesto, com o álbum “We Insist!”, com o então marido, o baterista Max Roach.
Wade tem a perfeita consciência do que Scott-Heron representa na sociedade americana. Nas liner notes, refere-se a “questões que ainda precisam ser abordadas hoje. […] mesmo à luz de alguns progressos que nos foi proporcionado pelo milagre do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ainda há muitas lutas que revelam o nosso trabalho que ainda não foi realizado.”
Com a consciência de seu lugar no mundo, sendo artista, sua maior qualidade é a de ser um mensageiro por meio de sua arte. Seu grande valor está em interpretar a poesia de Scott-Heron de modo que transcenda o panfletário. Ela se faz por meio de uma voz privilegiada, arranjos engenhosos de Wade que combinam energia e lirismo, doces mas incisivos. Ainda vamos ouvir bastante o seu nome. O reconhecimento já está chegando. Além de várias crítica elogiosas, ficou entre os 20 melhores lançamentos na lista da “64th Critics Poll”, da Downbeat.
Ouça “Song of the Wind”. Destaque para o vibrafone de Stefon Harris.
Ouça também “Ain’t No Such Thing As Superman”.
Outro destaque é “A Toast to the People”.
Ouça a original, com Gil Scott-Heron.
Clique aqui para ouvir o álbum na íntegra.
Mostrando postagens com marcador Gil Scott-Heron. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gil Scott-Heron. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 4 de outubro de 2016
terça-feira, 31 de maio de 2011
A morte precoce de Gil Scott-Heron
O título I’m New Here é ótimo. Serve como comentário de um grande intérprete que andou desaparecido e esquecido por muitos anos. “Desaparecido” por ter sido, em 2001, condenado a três anos de prisão por posse de cocaína. Foi solto em 2002, mas em 2006 foi novamente condenado de dois a quatro anos a serem cumpridos na New York State Prison por ter fugido do Centro de Reabilitação de Drogados.
Parece barra-pesada, não? Esse destino, no entanto, não foi exclusividade de Gil. Vários músicos passaram alguns anos no xilindró pelas mesmas razões: Joe Pass, Art Pepper, Hampton Hawes, dentre outros (todos músicos de jazz). Notícias sobre os descaminhos de músicos atuais como Amy Winehouse, Britney Spears e Pete Doherty, do Libertines, estampam os jornais e sites. Há uma conexão da droga com a música que é atávica. A arte, por si, é subversiva, e andar “fora da linha” faz parte.
Não são poucos os que se recuperaram e puderam continuar a contribuir para a arte da música. Joe Pass, Hawes e Art Pepper, depois de saírem da cadeia, levaram suas carreiras adiante. No rock, Eric Clapton é o exemplo melhor de que, “limpos”, não perderam a veia criativa. Alguns, mesmo continuando a tocar, tornaram-se “farrapos humanos”, apesar de alguns lampejos esporádicos de criatividade, como o trumpetista Chet Baker. Outros foram ceifados por acidentes de percurso e morreram relativamente jovens, caso de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Charlie Parker.
Aparentemente, Scott-Heron continua tão bom quanto antes. Seu recente I’m New Here é um petardo. Curto e grosso: em trinta e poucos minutos – essa é a duração do disco – mostra serviço. Além do título irônico do CD, aparece fumando um cigarro na capa. Isso que é atitude! Num universo tão politicamente correto, é incorreto ser visto fumando. Gil continua a desafiar o establishment. Ser usuário de drogas é um desafio ao establishment na medida em que é proibido por lei o seu consumo. Por isso, esteve preso. Mas, vejam, eu fumo, e ninguém tem nada a ver com isso. O poeta e músico, ao engajar-se na luta pelos direitos dos afro-descendentes, nos anos 1960, por justiça, desafiava um poder estabelecido.
Ouça I’m New Here.
![]() |
| Gil Scott-Heron continua fumando |
Não são poucos os que se recuperaram e puderam continuar a contribuir para a arte da música. Joe Pass, Hawes e Art Pepper, depois de saírem da cadeia, levaram suas carreiras adiante. No rock, Eric Clapton é o exemplo melhor de que, “limpos”, não perderam a veia criativa. Alguns, mesmo continuando a tocar, tornaram-se “farrapos humanos”, apesar de alguns lampejos esporádicos de criatividade, como o trumpetista Chet Baker. Outros foram ceifados por acidentes de percurso e morreram relativamente jovens, caso de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Charlie Parker.
Aparentemente, Scott-Heron continua tão bom quanto antes. Seu recente I’m New Here é um petardo. Curto e grosso: em trinta e poucos minutos – essa é a duração do disco – mostra serviço. Além do título irônico do CD, aparece fumando um cigarro na capa. Isso que é atitude! Num universo tão politicamente correto, é incorreto ser visto fumando. Gil continua a desafiar o establishment. Ser usuário de drogas é um desafio ao establishment na medida em que é proibido por lei o seu consumo. Por isso, esteve preso. Mas, vejam, eu fumo, e ninguém tem nada a ver com isso. O poeta e músico, ao engajar-se na luta pelos direitos dos afro-descendentes, nos anos 1960, por justiça, desafiava um poder estabelecido.
Esse conceito do que é politicamente correto é uma coisa um tanto nebulosa. Não se deve chamar o negro de negro ou crioulo, não é correto vestir-se com peles de animais em extinção, mas ser desleal com seus pares, desrespeito pelo próximo e sociopatia não estão entre os comportamentos “incorretos”. Quando acontece uma catástrofe como a das mortes causadas pelas chuvas na região serrana do Rio, entre o fim do ano e início de 2011, acontece uma corrente de solidariedade com doações e corações sensibilizados pela desgraça alheia ou pelo cão que fica sem dono, e com isso, É um modo bem particular de sentir-se em paz fazendo o bem ao próximo que está bem distante. Ao próximo que está perto, vale xingá-lo, maltratá-lo etc. Por essas e outras, é bem discutível estabelecer o que é certo e o que é errado. Basta lembrar que Hitler tinha pendores artísticos – pintava –, gostava de animais e era vegetariano. Havia uma boa dose de correção política nessas ações.
Ouça I’ll Take Care of You, composição original de Brook Benton. Lindíssima.
Ouça I’m New Here.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
O “sou novo aqui” de Gil Scott-Heron
O título I’m New Here é ótimo. Serve como comentário de um grande intérprete que andou desaparecido e esquecido por muitos anos. “Desaparecido” por ter sido, em 2001, condenado a três anos de prisão por posse de cocaína. Foi solto em 2002, mas em 2006 foi novamente condenado de dois a quatro anos a serem cumpridos na New York State Prison por ter fugido do Centro de Reabilitação de Drogados.
Parece barra-pesada, não? Esse destino, no entanto, não foi exclusividade de Gil. Vários músicos passaram alguns anos no xilindró pelas mesmas razões: Joe Pass, Art Pepper, Hampton Hawes, dentre outros (todos músicos de jazz). Notícias sobre os descaminhos de músicos atuais como Amy Winehouse, Britney Spears e Pete Doherty, do Libertines, estampam os jornais e sites. Há uma conexão da droga com a música que é atávica. A arte, por si, é subversiva, e andar “fora da linha” faz parte.
Não são poucos os que se recuperaram e puderam continuar a contribuir para a arte da música. Joe Pass, Hawes e Art Pepper, depois de saírem da cadeia, levaram suas carreiras adiante. No rock, Eric Clapton é o exemplo melhor de que, “limpos”, não perderam a veia criativa. Alguns, mesmo continuando a tocar, tornaram-se “farrapos humanos”, apesar de alguns lampejos esporádicos de criatividade, como o trumpetista Chet Baker. Outros foram ceifados por acidentes de percurso e morreram relativamente jovens, caso de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Charlie Parker.
Aparentemente, Scott-Heron continua tão bom quanto antes. Seu recente I’m New Here é um petardo. Curto e grosso: em trinta e poucos minutos – essa é a duração do disco – mostra serviço. Além do título irônico do CD, aparece fumando um cigarro na capa. Isso que é atitude! Num universo tão politicamente correto, é incorreto ser visto fumando. Gil continua a desafiar o establishment. Ser usuário de drogas é um desafio ao establishment na medida em que é proibido por lei o seu consumo. Por isso, esteve preso. Mas, vejam, eu fumo, e ninguém tem nada a ver com isso. O poeta e músico, ao engajar-se na luta pelos direitos dos afro-descendentes, nos anos 1960, por justiça, desafiava um poder estabelecido.
Ouça as músicas de I’m New Here.
![]() |
| Gil Scott-Heron continua fumando |
Não são poucos os que se recuperaram e puderam continuar a contribuir para a arte da música. Joe Pass, Hawes e Art Pepper, depois de saírem da cadeia, levaram suas carreiras adiante. No rock, Eric Clapton é o exemplo melhor de que, “limpos”, não perderam a veia criativa. Alguns, mesmo continuando a tocar, tornaram-se “farrapos humanos”, apesar de alguns lampejos esporádicos de criatividade, como o trumpetista Chet Baker. Outros foram ceifados por acidentes de percurso e morreram relativamente jovens, caso de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Charlie Parker.
Aparentemente, Scott-Heron continua tão bom quanto antes. Seu recente I’m New Here é um petardo. Curto e grosso: em trinta e poucos minutos – essa é a duração do disco – mostra serviço. Além do título irônico do CD, aparece fumando um cigarro na capa. Isso que é atitude! Num universo tão politicamente correto, é incorreto ser visto fumando. Gil continua a desafiar o establishment. Ser usuário de drogas é um desafio ao establishment na medida em que é proibido por lei o seu consumo. Por isso, esteve preso. Mas, vejam, eu fumo, e ninguém tem nada a ver com isso. O poeta e músico, ao engajar-se na luta pelos direitos dos afro-descendentes, nos anos 1960, por justiça, desafiava um poder estabelecido.
Esse conceito do que é politicamente correto é uma coisa um tanto nebulosa. Não se deve chamar o negro de negro ou crioulo, não é correto vestir-se com peles de animais em extinção, mas ser desleal com seus pares, desrespeito pelo próximo e sociopatia não estão entre os comportamentos “incorretos”. Quando acontece uma catástrofe como a das mortes causadas pelas chuvas na região serrana do Rio, entre o fim do ano e início de 2011, acontece uma corrente de solidariedade com doações e corações sensibilizados pela desgraça alheia ou pelo cão que fica sem dono, e com isso, É um modo bem particular de sentir-se em paz fazendo o bem ao próximo que está bem distante. Ao próximo que está perto, vale xingá-lo, maltratá-lo etc. Por essas e outras, é bem discutível estabelecer o que é certo e o que é errado. Basta lembrar que Hitler tinha pendores artísticos – pintava –, gostava de animais e era vegetariano. Havia uma boa dose de correção política nessas ações.
Ouça I’ll Take Care of You, composição original de Brook Benton. Lindíssima.
Ouça as músicas de I’m New Here.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Um aperitivo de Gil Scott-Heron, antes de falar de seu último CD
![]() |
| E não que ele lembra o Sócrates, até pela voz grave |
Mas o bicho é velho de guerra. Gravou seu primeiro disco em 1970. Apresentou-me Scott-Heron um amigo ainda na época em que fazia a FAU-USP. O Hilton Raw tinha comprado um LP importado dele e, impressionado, gostava de compará-lo ao jogador Sócrates, devido a alguma semelhança física e porque ambos eram craques. Foram lançados alguns LPs no Brasil e tornou-se razoavelmente conhecido aqui. Mas foi sumindo e há pouco, em 2010, voltou a lançar um disco e proclamou: “Sou novo aqui”. Para alguns, é.
O craque “Sócrates” da música notabilizou-se por um forte engajamento político nos movimentos afro-americanos. Ganhou notoriedade não apenas por isso e mais pela personalíssima fusão que fez com o soul, o jazz e o soul, fazendo uma música discursiva. É considerado um “proto-rapper” antecipando-se à tendência que se tornaria dominante anos depois na música americana.
A música que você vai ouvir é de 1976 e está em From South Africa to South Carolina, disco em parceria com Brian Jackson.
Beginnings (The First Minute of a Day).
Assinar:
Postagens (Atom)


