terça-feira, 31 de maio de 2011

A morte precoce de Gil Scott-Heron

O título I’m New Here é ótimo. Serve como comentário de um grande intérprete que andou desaparecido e esquecido por muitos anos. “Desaparecido” por ter sido, em 2001, condenado a três anos de prisão por posse de cocaína. Foi solto em 2002, mas em 2006 foi novamente condenado de dois a quatro anos a serem cumpridos na New York State Prison por ter fugido do Centro de Reabilitação de Drogados.

Gil Scott-Heron continua fumando
Parece barra-pesada, não? Esse destino, no entanto, não foi exclusividade de Gil. Vários músicos passaram alguns anos no xilindró pelas mesmas razões: Joe Pass, Art Pepper, Hampton Hawes, dentre outros (todos músicos de jazz). Notícias sobre os descaminhos de músicos atuais como Amy Winehouse, Britney Spears e Pete Doherty, do Libertines, estampam os jornais e sites. Há uma conexão da droga com a música que é atávica. A arte, por si, é subversiva, e andar “fora da linha” faz parte.

Não são poucos os que se recuperaram e puderam continuar a contribuir para a arte da música. Joe Pass, Hawes e Art Pepper, depois de saírem da cadeia, levaram suas carreiras adiante. No rock, Eric Clapton é o exemplo melhor de que, “limpos”, não perderam a veia criativa. Alguns, mesmo continuando a tocar, tornaram-se “farrapos humanos”, apesar de alguns lampejos esporádicos de criatividade, como o trumpetista Chet Baker. Outros foram ceifados por acidentes de percurso e morreram relativamente jovens, caso de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Charlie Parker.

Aparentemente, Scott-Heron continua tão bom quanto antes. Seu recente I’m New Here é um petardo. Curto e grosso: em trinta e poucos minutos – essa é a duração do disco – mostra serviço. Além do título irônico do CD, aparece fumando um cigarro na capa. Isso que é atitude! Num universo tão politicamente correto, é incorreto ser visto fumando. Gil continua a desafiar o establishment. Ser usuário de drogas é um desafio ao establishment na medida em que é proibido por lei o seu consumo. Por isso, esteve preso. Mas, vejam, eu fumo, e ninguém tem nada a ver com isso. O poeta e músico, ao engajar-se na luta pelos direitos dos afro-descendentes, nos anos 1960, por justiça, desafiava um poder estabelecido.

Esse conceito do que é politicamente correto é uma coisa um tanto nebulosa. Não se deve chamar o negro de negro ou crioulo, não é correto vestir-se com peles de animais em extinção, mas ser desleal com seus pares, desrespeito pelo próximo e sociopatia não estão entre os comportamentos “incorretos”. Quando acontece uma catástrofe como a das mortes causadas pelas chuvas na região serrana do Rio, entre o fim do ano e início de 2011, acontece uma corrente de solidariedade com doações e corações sensibilizados pela desgraça alheia ou pelo cão que fica sem dono, e com isso, É um modo bem particular de sentir-se em paz fazendo o bem ao próximo que está bem distante. Ao próximo que está perto, vale xingá-lo, maltratá-lo etc. Por essas e outras, é bem discutível estabelecer o que é certo e o que é errado. Basta lembrar que Hitler tinha pendores artísticos – pintava –, gostava de animais e era vegetariano. Havia uma boa dose de correção política nessas ações.

Ouça I’ll Take Care of You, composição original de Brook Benton. Lindíssima.




Ouça I’m New Here.

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