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| Ella Fitzgerald, jovem |
Do que restou na memória sobre o filme com Joe Mantegna (como disse, só me lembro dele), recordo de uma cena: a de um grupo de jovens cantando, muito felizes, I’ve Got the World on a String, atravessando a ponte do Brooklin – imagino –, em Nova York. Se não me engano, é a última cena… ou será a primeira? Nossa, a cachola tá fraca!
I’ve Got the World on a String é de 1932 e foi composta por Harold Arlen e a letra é de Ted Koehler. Existem registros belíssimos; pelos homens, Frank Sinatra, Bing Crosby, Tony Bennett e, recentemente, Michael Bublé; pelas mulheres, uma infinidade: Lee Wiley, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Peggy Lee, Jo Sttaford e Diana Krall. Gosto muito da de Sinatra (quem seria capaz de desgostar de algo que ele fez à exceção daqueles pavorosos duos – vá, tem algo que se salva! – feitos no ocaso de sua gloriosa carreira?). A de Bublé, como tudo o que faz, é “bonitinho” (é jocoso, o adjetivo, pois, pois). Já as mulheres, quase sem exceção, cantam belos I’ve Got the World on a String. Não citei a de Armstrong, que deve ter sido uma das primeiras (1933), mas esse senhor de lábios grossos e voz especial, é hors-concours (está disponibilizado abaixo).
Traduzido para o português soa estranho: “Tenho o mundo em uma corda”. Pode ser a corda de um instrumento musical: soa mais convincente; ou – aí é forçada? – “acorde”. Mas “acorde” parece bom. Tente “acorde” a cada vez que tem “corda”. “Tenho o mundo numa corda/ Estou sentado num arco-íris/ Tenho aquela corda nos meus dedos/ Que mundo, que vida – estou apaixonado.// Tenho a canção que canto/ Posso fazer a chuva ir embora/ Que sorte a minha, você não vê? – estou apaixonado.// A vida é uma coisa maravilhosa/ Enquanto tiver aquela corda/ Seria tão tolo/ Se eu te deixasse partir.” O clímax da música é “life is a wonderful thing”. Na interpretação de Ella “wonderful” vira “beautiful”. Mesma coisa? O “beautiful” de Ella vira “wonderful” naturalmente.
Não há uma explicação razoável para afirmar que o I’ve Got the World on a String de Ella é a melhor, mas na sua voz, por um momento, tenho a ilusão de que a vida é mesmo bela. Ante os reveses que ela nos proporciona, à realidade do mundo – ódios, guerras por conta de credos e poder –, às decepções que temos com as pessoas mais queridas, incompreensões, é difícil imaginar que ela possa ser bela. Li há pouco que “emoções são como moscas; nascem aos montes e têm vida curta”. Momentos de felicidade são fugazes também. Nem as drogas “ilícitas” podem proporcionar momentos duradouros de êxtase. Importante é saber fruir esses momentos fortuitos.
A gravação que eu tenho é a da coletânea Ella – The Legendary Decca Recordings, que correspondem ao início de sua carreira, que estreia ao se tornar crooner da orquestra de Chck Webb. No CD 4, chamado Ella & The Arrangers, a primeira é Basin Street Blues (a clássica é a d’Ella com Louis Armstrong, pelo selo Verve), mas essa é muito boa e serve como bom prelúdio à I’ve Got the World on a String. As modulações da voz de Ella com os saxes do arranjo de Sy Oliver são excepcionais. Ouça e veja se a sua impressão é a mesma da minha.
[mais Ella: http://bit.ly/J98idJ (Stairway to the stars); http://bit.ly/IZcddO (Ella, a mulher invisível)]
Com Ella Fitzgerald
Com Frank Sinatra.
Com “Sassy” Sarah Vaughan.
Com “Satchmo” Louis Armstrong.
Com Miss Peggy Lee.


