quinta-feira, 19 de abril de 2012

A vida é mais bela com Ella Fitzgerald

Ella Fitzgerald, jovem
Sem querer ou por falta de opção ou por querer ver um filme qualquer naquele sábado, acabamos assistindo a um com Joe Mantegna. Ponto. É o que me lembro. Pesquisando na internet, digitando “joe mantegna i’ve got the world on a string”, noto que os primeiros da lista remetem a um filme chamado The Rat Pack (Os Maiorais, 1998), direção de Rob Cohen, feito para a televisão. Vejo algumas cenas no YouTube e percebo que não correspondem com as minhas lembranças. Pela amostragem, a história versa sobre a turma que compunha o grupo que ficou conhecido como “the rat pack” (Dean Martin, Sammy Davis Jr., Frank Sinatra, Peter Lawford… tem mais gente; Humphrey Bogart era um deles também).

Do que restou na memória sobre o filme com Joe Mantegna (como disse, só me lembro dele), recordo de uma cena: a de um grupo de jovens cantando, muito felizes, I’ve Got the World on a String, atravessando a ponte do Brooklin – imagino –, em Nova York. Se não me engano, é a última cena… ou será a primeira? Nossa, a cachola tá fraca!

I’ve Got the World on a String é de 1932 e foi composta por Harold Arlen e a letra é de Ted Koehler. Existem registros belíssimos; pelos homens, Frank Sinatra, Bing Crosby, Tony Bennett e, recentemente, Michael Bublé; pelas mulheres, uma infinidade: Lee Wiley, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Peggy Lee, Jo Sttaford e Diana Krall. Gosto muito da de Sinatra (quem seria capaz de desgostar de algo que ele fez à exceção daqueles pavorosos duos – vá, tem algo que se salva! – feitos no ocaso de sua gloriosa carreira?). A de Bublé, como tudo o que faz, é “bonitinho” (é jocoso, o adjetivo, pois, pois). Já as mulheres, quase sem exceção, cantam belos I’ve Got the World on a String. Não citei a de Armstrong, que deve ter sido uma das primeiras (1933), mas esse senhor de lábios grossos e voz especial, é hors-concours (está disponibilizado abaixo).

Traduzido para o português soa estranho: “Tenho o mundo em uma corda”. Pode ser a corda de um instrumento musical: soa mais convincente; ou – aí é forçada? – “acorde”. Mas “acorde” parece bom. Tente “acorde” a cada vez que tem “corda”. “Tenho o mundo numa corda/ Estou sentado num arco-íris/ Tenho aquela corda nos meus dedos/ Que mundo, que vida – estou apaixonado.// Tenho a canção que canto/ Posso fazer a chuva ir embora/ Que sorte a minha, você não vê? – estou apaixonado.// A vida é uma coisa maravilhosa/ Enquanto tiver aquela corda/ Seria tão tolo/ Se eu te deixasse partir.” O clímax da música é “life is a wonderful thing”. Na interpretação de Ella “wonderful” vira “beautiful”. Mesma coisa? O “beautiful” de Ella vira “wonderful” naturalmente.

Não há uma explicação razoável para afirmar que o I’ve Got the World on a String de Ella é a melhor, mas na sua voz, por um momento, tenho a ilusão de que a vida é mesmo bela. Ante os reveses que ela nos proporciona, à realidade do mundo – ódios, guerras por conta de credos e poder –, às decepções que temos com as pessoas mais queridas, incompreensões, é difícil imaginar que ela possa ser bela. Li há pouco que “emoções são como moscas; nascem aos montes e têm vida curta”. Momentos de felicidade são fugazes também. Nem as drogas “ilícitas” podem proporcionar momentos duradouros de êxtase. Importante é saber fruir esses momentos fortuitos.

A gravação que eu tenho é a da coletânea Ella – The Legendary Decca Recordings, que correspondem ao início de sua carreira, que estreia ao se tornar crooner da orquestra de Chck Webb. No CD 4, chamado Ella & The Arrangers, a primeira é Basin Street Blues (a clássica é a d’Ella com Louis Armstrong, pelo selo Verve), mas essa é muito boa e serve como bom prelúdio à I’ve Got the World on a String. As modulações da voz de Ella com os saxes do arranjo de Sy Oliver são excepcionais. Ouça e veja se a sua impressão é a mesma da minha.

[mais Ella: http://bit.ly/J98idJ (Stairway to the stars); http://bit.ly/IZcddO (Ella, a mulher invisível)]


Com Ella Fitzgerald




Com Frank Sinatra.




Com “Sassy” Sarah Vaughan.




Com “Satchmo” Louis Armstrong.


Com Miss Peggy Lee.

terça-feira, 17 de abril de 2012

O velhinho Ahmad anda mandando bem

O velho Jamal
Antes de mais nada, que bela capa a de Blue Moon, o mais recente de Ahmad Jamal. Simples: só azul e branco; o escuro é a noite e o claro são a lua e a água; o branco é uma silhueta de uma cidade que pode ser Nova York. Pois é, Ahmad é o pianista dos chiaroscuro, das pinceladas contrastantes, pausas dramáticas, mão esquerda marcando forte os ritmos e mão direita viajando em arpejos e acordes luminosos.

O que seu ídolo recomenda é lei? Certo. Se for Miles Davis, ok. Miles dizia maravilhas de Ahmad Jamal. Essa foi a razão de ter ido vê-lo quando esteve no Brasil, em algum ano próximo a 1980 em um dos festivais de jazz patrocinados pela indústria tabagística Souza Cruz. Pelos jornais fiquei sabendo que era autor de uma música chamada Poinciana. Nem a imprensa brasileira sabia muito dele. Com certeza, “fanáticos” pelo jazz, como o Alberico Cilento e o Carlos Conde o conheciam, mas eu ainda não conhecia os dois.

A segunda vez que o vi foi no Bridgestone Jazz Festival de 2010, em São Paulo. Quase octogenário, a magreza passa certa fragilidade física que desaparece a partir do momento em que passa a percutir as teclas do piano. Aliás, como é importante a batida, a cozinha, com o acréscimo da percussão de Manolo Badrena à bateria e ao baixo.


A capa do último Jamal
Em Blue Moon: The New York Sessions (Jazz Village, 2011), Jamal é acompanhado pelo baixista Reginald Veal, Herlin Riley na bateria e Badrena na percussão. Não apresenta muita novidade. A impressão é que Jamal é o mesmo faz tempo e continua prazeroso ouvi-lo e surpreender-se com seus staccatos e mudanças repentinas no andamento dos temas. É o jeito “jamaliano” de atacar standards como Blue MoonLaura e Wood’n You. As outras composições alheias são Invitation (Bronislav Kaper), This Is the Life (Lee Adams, Charles Stroude), e Gipsy (Billy Reid). As da lavra do pianista são Autumn RainI Remember Italy e Morning Mist.

PS: não deixe de ler o texto do amigo Érico - Enciclopédia – Cordeiro falando de Jamal: http://bit.ly/HQyihg




Ouça Laura.


Ouça Gipsy.




Veja vídeo promocional para o lançamento de Blue Moon.




Jamal toca Poinciana no Brasil, em 2010. Preste atenção nos “cacos”. Reconheci um de I’m Glad Threre Is You.