sexta-feira, 15 de abril de 2011

Toninho Horta e a espinha de peixe

Encerrado o evento de lançamento do CD Harmonia e Vozes (Minas Records, 2010) e do livro Toninho Horta - Harmonia Compartilhada, escrito por Maria Tereza R. Arruda Campos, na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho, SP, ambos foram jantar num restaurante das proximidades, o Pasquale. Lugar de comida sem muitas frescuras, italiana, naturalmente, tem de ótimos antepastos que podem ser pedidos em porções de 100 gramas, de contumazes frequentadores. Apesar de cheio, deram sorte, e sentaram-se numa mesa redonda, suficientemente grande para alojar os dois e mais umas doze pessoas.

Pediram uma rodada de cerveja para brindar o sucesso do evento. Toninho falava de suas viagens, da gravação que iria fazer em Nova York com o baixista Rufus Reid, do carinho que os japoneses tinham por ele. Mas a história mais curiosa foi a de uma certa espinha de peixe que lhe tirou uma noite de sono. Na última vez em que fora ao Oriente, passou por Bali, na Indonésia. O jantar aconteceu no fim de 2010, portanto, é possível que o relato peque por uma certa inexatidão.

Cape Horn foi lançado no Brasil e encontra-se esgotado
Em Bali, foi muito bem recebido e um senhor de lá, riquissimo, o levou a um restaurante localizado na praia de Jimbaran, bem próximo ao resort da rede Four Seasons. Era um grupo grande de pessoas. Esse senhor pediu um mundareu de pratos de lagosta e frutos do mar, especialidade do lugar. Toninho, mineiro cosmopolita, nunca gostou de moluscos e congêneres, mas adora um peixe; e era o que estava comendo. A conversa rolava solta, animada, e Toninho, subitamente parou de falar: tinha engasgado com uma espinha de peixe. O que poderia ser corriqueiro, deixou de ser. A espinha entalou. A dona do restaurante veio com miolo de pão e o aconselhou a engolí-lo; o outro batia-lhe nas costas; ele tossia, e nada da espinha sair. O jantar foi abreviado e seu anfitrião resolveu levá-lo a um pronto socorro. O médico de plantão deu uma examinada e diagnosticou que nada podia fazer pois a espinha não estava na garganta, e sim, pouco abaixo. Nem doía tanto, mas não conseguia falar, pois logo que soltava a voz, tossia desesperadamente, engasgado com aquele objeto estranho ao corpo humano.

Sem solução possível, pelo adiantado da hora, voltou ao hotel. A irmã Gilda, que o acompanhava na viagem o aconselhou: “reze para que a espinha saia e durma”. Foi o que tentou fazer, mas a espinha não o deixava dormir. Passou a noite desperto e, quando o dia estava a raiar, vencido pelo cansaço, dormiu, por muito pouco tempo. No primeiro acesso de tosse, milagrosamente, seu corpo venceu a espinha. Pegou-a na mão. Nem era tão grande. Hoje, a espinha anda junto dele, na carteira, guardado num pequeno invólucro de plástico transparente. É o seu souvenir de Bali.

Fique com Toninho, em parceria com Arismar do Espírito Santo, craque polivalente, em Beijo Partido, interpretação instrumental contida no CD fora de catálogo Cape Horn.



quarta-feira, 13 de abril de 2011

Eric Nepomuceno e a morte dos navios

Estava conversando com a Bia Lopes, agora não lembro se ela falava do Eric Nepomuceno ou de Juan Gelman. Ela estava atrás do resto da citação de Nepomuceno de um trecho de um poema do argentino que o brasileiro incluíra no conto Essa mulher (“Essa mulher se parecia à palavra nunca,/ de sua nuca subia um encanto particular/ uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,/ essa mulher se instalava em meu lado esquerdo.// Atenção atenção eu gritava atenção/ mas ela invadia como o amor, como a noite,/ os últimos sinais que fiz para o outono/ deitaram-se tranquilos debaixo da maré de suas mãos.”).

O nome do poema era Gotán (está na coletânea Amor Que Serena, Termina?, Editora Record, 2001). Conhecia pouco da literatura de Nepomuceno, apesar de ter lido dezenas de livros traduzidos por ele. O pouco que conhecia por meio de coletâneas esparsas, havia gostado. Com a Bia é uma boa referência, comprei o que tinha sido recomendado, o Antologia Pessoal (Record, 2009).

Suas narrativas são, geralmente, novelos de desencontros em que os destinos ou resolucões já estão “traçados”. Nepomuceno é um mestre em narrar relações e desencontros amorosos. Tende ao fatalismo. A riqueza da narração está em circularidades e espirais especulativas, que é o modo como tendemos a pensar quando estamos a sós e apenas conosco. No fundo, seus protagonistas sabem que aquela pessoa que espera ou com quem combinou um encontro, afinal não vem. No fim, conformam-se com a frustração de suas expectativas por saberem que eram apenas expectativas, ou seja, “espirais de pensamentos”.

Cito um dos contos – Em Coisas do Mundo. A personagem é um homem que viaja constantemente a trabalho. É o segundo melhor vendedor da empresa e sonha em ser o primeiro. Detesta aeroportos e, principalmente, ter de embarcar muito cedo, que é o que acontece na narrativa.

Encontra Pedro, que também está indo para a mesma cidade. Enquanto espera o embarque, avista uma mulher que crê conhecer. Aborda-a “dizendo coisas criativas e imaginosas, como, ‘Meu Deus, você aqui!’.” Tinham passado duas semanas num hotel, numa praia estrangeira, um ano antes, com ela. Num dia chuvoso, foi embora e nunca mais a viu.

Diz-lhe que está indo para uma cidade de praia a trabalho. Pergunta para onde está indo. A moça diz-lhe que veio ao aeroporto para confirmação de seu voo à noite. Pede-lhe que, já que terá de fazer uma escala, que mude-a para poderem passar uns dias juntos, de novo. Diante da insistência – com direito a até um “por favor” –, responde-lhe: “Vamos ver”.

O conto é um primor de narrativa de um solitário que vive constantemente nos aviões. Lembra um pouco George Clooney em Amor Sem Escalas (Up in the Air, 2009). A “viagem” dele é conhecer tudo sobre aeroportos e voos: sabe o menu das refeições de todas as companhias, melhores lugares nos aviões, constrói estatísticas de pessoas que bebem apenas refrigerantes ou bebidas alcoólicas de acordo com o assento em que se acomodam, a utilidade do uso de óculos escuros de acordo com as circunstâncias, e prefere os voos diurnos e aeroportos afastados da cidade. Um dia, pensa, escreverá um livro sobre isso.

Chega ao hotel, faz o lanche, toma banho e fica só pensando no encontro que terá à noite. Fica imaginando em coisas que acontecerão quando estiverem juntos. Adormece com a televisão ligada e é despertado pelo telefone a tocar. É ela, pensa. Não é. É Sérgio, seu colega de trabalho que estava no mesmo voo e sentara-se bem longe. Ainda bem: não fazia muita questão de ficar conversando com ele. Na chegada saiu sem preguntar ou dizer onde ficaria.

O amigo diz-lhe que estava à sua procura e comunica-lhe que está no lobby de seu hotel. Está feliz porque ganhou dinheiro no cassino. Diz qualquer coisa para não sair. E aí, ele mergulha no sono novamente, “vestido na cama, e no lento mergulho” vê “a moça eo pôr-do-sol numa praia estrangeira”.

Esses parágrafos iniciais almejavam serem breves e não foram. Serviria apenas como uma introdução de um trecho muito bom do conto Bangladesh (por isso, “a morte dos navios” no título). Leia.


Gostaria de ter sonhado com velhos navios.

Há muitos anos conversei com um amigo fotógrafo que percorria o mapa buscando a luz dos homens, e ele me contou.

No litoral mais distante do mundo, em Bangladesh, os navios se matavam na praia. Os navios que haviam percorrido mares, mundos e vidas, buscavam aquele litoral para seu suicídio.

Ficavam ao largo, a proa apontando a areia triste, e então soavam seu apito dilacerado, e giravam seu motor até a última de suas infinitas forças, e disparavam rumo à praia. E os navios avançavam numa velocidade alucinante e entravam terra adentro, um de cada vez, os demais esperando sua hora da morte, e o que vinha entrava terra adentro, seu casco de aço rasgando a areia, buscando embaixo da praia a terra, até parar encalhado a sua última viagem. Um de cada vez.

E então começava a demolição. Como se aquela fosse a verdadeira morte, a que rondou o navio o tempo inteiro. E vinham os homens mínimos, minúsculos diante da grandeza daquele animal gigantesco encalhado na areia, e furavam seu casco para que as águas da maré entrassem e invadissem o seu interior e ele 
nunca mais voltasse ao mar. Os furos eram como os tiros de misericórdia naquele suicida cansado, digno e generoso, pensei enquanto ouvia a história e olhava os olhos cor de lágrima daquele homem que buscava mundo afora a luz dos homens. 

E então os homens quebravam o navio, cortavam as chapas de aço, transformavam o madeirame em lascas.

As hélices que levavam o navio pelos mares do mundo, são, eram feitas de bronze, e o bronze era, é, derretido para se transformar em jóias que enfeitam as mulheres. O navio morto era dilacerado em pedaços que seguiriam novas vidas.

Eu ouvia a voz que contava essa história, olhava os olhos que viram essa história. Muito tempo depois, entendi: eu também singrei mares, cruzei mundos, até chegar aqui, a este espelho onde não quero, não posso encalhar.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Quem disse que Beethoven não combina com Lennon & McCartney?

A música é tão universal que qualquer linguagem pode se misturar e dar um bom caldo. Não conhecia e me surpreendi com o mix que o pianista inglês Derek Smith faz. Da mesma forma de que existem tecladistas notáveis sem aprendizado formal em música, como o maravilhoso Erroll Garner, há um bocado de pianistas do jazz que começou o aprendizado exercitando-se com o Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach. Quem segue a carreira de virtuose como Nelson Freire, Sviatoslav Richter, e outras centenas de grandes intérpretes sentem-se “engessados” ao improvisar; no jazz acontece o contrário: a qualidade deles é a capacidade de  improvisarem sobre os temas.

Derek Smith
Como tal fato não é “fato deveras”, muitos músicos do jazz se aventuram em tocar sobre temas clássicos, como fazem o pianista Steve Kuhn ou o guitarrista Larry Coryell. Alguns transitam ou transitaram entre os dois mundos sem nenhum problema. É o caso do uruguaio Federico Brittos (sobre ele, leia xxxxxxx) ou do clarinetista Benny Goodman, que mereceu músicas especialmente compostas por Stravinsky e Aaron Copland. Bem, esse é um tema que abordarei em uma próxima vez, em que disponibilizarei interpretações de jazzistas tocando Ravel, Debussy, Satie e outros.

Imaginar uma composição mesclando a Sonata Nº14, op.27 Nr. 2, de Beethoven, conhecida como “Moonlight”, com Yesterday, de Lennon e McCartney, seria inimaginável caso não existisse na interpretação de Derek Smith, lançada no disco To Love Again, da gravadora japonesa Venus. É o que você irá ouvir. Casualmente, Smith tocou com Benny Goodman.