![]() |
| O pianista romeno Lucian Ban (ph: R. Dominguez) |
Em outro lugar, não muito longe dali, Alexander Dubček, tenta instaurar um regime socialista com rosto humano, mudando as estruturas internas do regime imposto pela antiga União Soviética. Recebida com entusiasmo pela juventude, o que ficou conhecida como a Primavera de Praga, teve vida curta. Dubček, como outra figura importante, o corredor Emil Zátopek, considerado herói nacional, que apoiou a Primavera, foram banidos do Partido e caíram no ostracismo.
O desejo de liberdade estava entranhado no povo da antiga Tchecoslováquia. Apesar do regime opressivo imposto pelo governo soviético, a vida cultural fervia em Praga. Nos bares tocava-se muita música, inclusive o jazz, considerada música “degenerada”. Despontaram em meados dos anos 1960, Miroslav Vitous e George Mraz, ambos contrabaixistas, e da vizinha Hungria, Gabor Szabo. O fervor libertário estava refletido também em outras artes, como no cinema, com o cineasta Milos Forman, e na lteratura, com Milan Kundera. Por incrível coincidência, todos os citados emigraram ainda nos 1960, fora o escritor, que saiu apenas em 1975 da antiga Tchcoslováquia.
Quando baixou a Cortina, ficou evidenciada que a grande tradição que vinha de Chopin, Liszt, Bela Bártok, Anton Dvorak estava apenas coberta pela fumaça dos anos de chumbo. Poloneses, húngaros, tchecos e eslovacos continuavam a produzir música instrumental das boas.
A abertura foi pacífica em todos os países, com exceção da Romênia. Seu ditador, Nicolae Ceasecu, que fora o único dos que faziam parte do Pacto de Varsóvia, a recusar-se a participar da invasão da Tchecoslováquia, e manter-se numa posição mais independente, como a antiga Iugoslávia, em relação ao regime soviético, caiu na armadilha da maioria dos governantes absolutistas. Usando de seu poder cerceando a liberdade, abusando do culto à imagem, tal como Fidel Castro, Erich Honecker e Kim Jong-il, não percebeu o que acontecia abaixo do nível de seu poder. A cegueira que acompanha os ditadores não lhe deixou perceber o grau de insatisfação popular. Ceausecu foi executado quando se comemorava o Natal de 1989.
Como ficara evidente em outros países do leste europeu, nem o ditador mais sanguinário é capaz de matar a arte. Depois do fim do regime de Ceasescu, o cinema de poucos recursos financeiros, mas de boa qualidade, foi reconhecido por meio de premiações em festivais de boa visibilidade, como o de Cannes e o de Berlim. Herta Müller, escritora de língua alemã, mas natural da Romênia e perseguida durante o regime de Ceausescu, é outro destaque: ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2009. Nomes conhecidos como Mircea Eliade, Eugéne Ionescu, Dinu Lipatti e George Enescu são mais antigos e não conviveram com o regime.
Ban
Lucian Ban estava com 20 anos quando Ceausecu e sua mulher foram executados. Deve ter algumas lembranças do antigo regime. Natural de Cluj, na Transilvânia, nessa época estudava na Academia de Música de Bucareste. Montou o Jazz Unit e passou a apresentar-se profissionalmente.. Apenas em 1999, mudou-se para Nova York, para aperfeiçoar-se, na New School University. Foi o pianista da Tuba Project, que o tubista e saxofonista Bob Stewart montou com JD Allen, Alex Harding e Derrek Phillips.
Veja Lucian Ban no Tuba Project.
Em plena atividade, está engajado em projetos diversos que têm chamado a atenção da crítica. Um deles foi Enesco Re-Imagined, registrado em CD a partir de uma apresentação no George Enesco Festival, em 2009. Nada a ver com Recomposed by Max Richter (leia: http://bit.ly/1or0Ypj), que é apenas um upgrade, interessante sim, das Quatro Estações de Antonio Vivaldi. Já pelos músicos, dentre eles o baixista – é autor dos arranjos também – John Hébert, Ralph Alessi (trumpete), Tony Malaby (saxofone), Albrecht Maurer (violino), Mat Maneri (viola), Gerald Cleaver (bateria) e Badal Roy (tabla), fica claro que seus propósitos eram mais radicais. O álbum lançado pela Sunnyside, foi unanimemente elogiado.
Veja Aria (Aria et Scherzino for Violin, Viola, Cello, Bass and Piano), no arranjo de Ban e Hébert.
Veja um trecho de Octet (Octet for Strings Op. 7).
Outro projeto de Ban é a banda Elevation. É mais jazz mesmo, com Abraham Burton no sax tenor, John Hébert no baixo e Eric McPherson na bateria). O primeiro lançado, Mystery (20013), tem uma pegada que lembra o quarteto de John Coltrane dos tempos da Atlantic. É música de primeira, com muita energia.
Ouça trechos do álbum na montagem de Orsolya Balint. O primeiro trecho é de Rank & File, o segundo, de Freeflow, a seguinte é Of Things to Come.
No mesmo ano de 2013, Lucian Ban fez sua estreia na ECM, em duo com o violista Mat Maneri, em Transylvanian Concert. Na verdade, o disco vem de uma apresentação dos dois no Culture Palace, em Targo Mures, na Transilvânia, em 2011. Maneri tocara com Ban em muitas ocasiões. É um duo com piano e viola, não a viola caipira ou algo parecido, é a viola dos naipes de uma orquestra. Pelos títulos, as evocações partem de paisagens, lugares, lembranças de pessoas, como pais, avós. Tem um caráter improvisativo forte, portanto, não é para o gosto de todo mundo.
Ouça um trecho nesse clip.
Veja os dois tocando.

