quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Lucian Ban e o piano que veio da Transilvânia

O pianista romeno Lucian Ban (ph: R. Dominguez)
O ano de 1968 foi aquele em a ordem estabelecida foi posta à prova por uma greve de trabalhadores na França e que ampliou-se com a revolta dos estudantes. O PC comunista, de linha stalinista bem que tentou desencorajar os operários.

Em outro lugar, não muito longe dali, Alexander Dubček, tenta instaurar um regime socialista com rosto humano, mudando as estruturas internas do regime imposto pela antiga União Soviética. Recebida com entusiasmo pela juventude, o que ficou conhecida como a Primavera de Praga, teve vida curta. Dubček, como outra figura importante, o corredor Emil Zátopek, considerado herói nacional, que apoiou a Primavera, foram banidos do Partido e caíram no ostracismo.

O desejo de liberdade estava entranhado no povo da antiga Tchecoslováquia. Apesar do regime opressivo imposto pelo governo soviético, a vida cultural fervia em Praga. Nos bares tocava-se muita música, inclusive o jazz, considerada música “degenerada”. Despontaram em meados dos anos 1960, Miroslav Vitous e George Mraz, ambos contrabaixistas, e da vizinha Hungria, Gabor Szabo. O fervor libertário estava refletido também em outras artes, como no cinema, com o cineasta Milos Forman, e na lteratura, com Milan Kundera. Por incrível coincidência, todos os citados emigraram ainda nos 1960, fora o escritor, que saiu apenas em 1975 da antiga Tchcoslováquia.

Quando baixou a Cortina, ficou evidenciada que a grande tradição que vinha de Chopin, Liszt, Bela Bártok, Anton Dvorak estava apenas coberta pela fumaça dos anos de chumbo. Poloneses, húngaros, tchecos e eslovacos continuavam a produzir música instrumental das boas.

A abertura foi pacífica em todos os países, com exceção da Romênia. Seu ditador, Nicolae Ceasecu, que fora o único dos que faziam parte do Pacto de Varsóvia, a recusar-se a participar da invasão da Tchecoslováquia, e manter-se numa posição mais independente, como a antiga Iugoslávia, em relação ao regime soviético, caiu na armadilha da maioria dos governantes absolutistas. Usando de seu poder cerceando a liberdade, abusando do culto à imagem, tal como Fidel Castro, Erich Honecker e Kim Jong-il, não percebeu o que acontecia abaixo do nível de seu poder. A cegueira que acompanha os ditadores não lhe deixou perceber o grau de insatisfação popular. Ceausecu foi executado quando se comemorava o Natal de 1989.

Como ficara evidente em outros países do leste europeu, nem o ditador mais sanguinário é capaz de matar a arte. Depois do fim do regime de Ceasescu, o cinema de poucos recursos financeiros, mas de boa qualidade, foi reconhecido por meio de premiações em festivais de boa visibilidade, como o de Cannes e o de Berlim. Herta Müller, escritora de língua alemã, mas natural da Romênia e perseguida durante o regime de Ceausescu, é outro destaque: ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2009. Nomes conhecidos como Mircea Eliade, Eugéne Ionescu, Dinu Lipatti e George Enescu são mais antigos e não conviveram com o regime.

Ban
Lucian Ban estava com 20 anos quando Ceausecu e sua mulher foram executados. Deve ter algumas lembranças do antigo regime. Natural de Cluj, na Transilvânia, nessa época estudava na Academia de Música de Bucareste. Montou o Jazz Unit e passou a apresentar-se profissionalmente.. Apenas em 1999, mudou-se para Nova York, para aperfeiçoar-se, na New School University. Foi o pianista da Tuba Project, que o tubista e saxofonista Bob Stewart montou com JD Allen, Alex Harding e Derrek Phillips.

Veja Lucian Ban no Tuba Project.




Em plena atividade, está engajado em projetos diversos que têm chamado a atenção da crítica. Um deles foi Enesco Re-Imagined, registrado em CD a partir de uma apresentação no George Enesco Festival, em 2009. Nada a ver com Recomposed by Max Richter (leia: http://bit.ly/1or0Ypj), que é apenas um upgrade, interessante sim, das Quatro Estações de Antonio Vivaldi. Já pelos músicos, dentre eles o baixista – é autor dos arranjos também – John Hébert, Ralph Alessi (trumpete), Tony Malaby (saxofone), Albrecht Maurer (violino), Mat Maneri (viola), Gerald Cleaver (bateria) e Badal Roy (tabla), fica claro que seus propósitos eram mais radicais. O álbum lançado pela Sunnyside, foi unanimemente elogiado.

Veja Aria (Aria et Scherzino for Violin, Viola, Cello, Bass and Piano), no arranjo de Ban e Hébert.




Veja um trecho de Octet (Octet for Strings Op. 7).




Outro projeto de Ban é a banda Elevation. É mais jazz mesmo, com Abraham Burton no sax tenor, John Hébert no baixo e Eric McPherson na bateria). O primeiro lançado, Mystery (20013), tem uma pegada que lembra o quarteto de John Coltrane dos tempos da Atlantic. É música de primeira, com muita energia.

Ouça trechos do álbum na montagem de Orsolya Balint. O primeiro trecho é de Rank & File, o segundo, de Freeflow, a seguinte é Of Things to Come.




No mesmo ano de 2013, Lucian Ban fez sua estreia na ECM, em duo com o violista Mat Maneri, em Transylvanian Concert. Na verdade, o disco vem de uma apresentação dos dois no Culture Palace, em Targo Mures, na Transilvânia, em 2011. Maneri tocara com Ban em muitas ocasiões. É um duo com piano e viola, não a viola caipira ou algo parecido, é a viola dos naipes de uma orquestra. Pelos títulos, as evocações partem de paisagens, lugares, lembranças de pessoas, como pais, avós. Tem um caráter improvisativo forte, portanto, não é para o gosto de todo mundo.

Ouça um trecho nesse clip.



Veja os dois tocando.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O som único do contrabaixo de Eberhard Weber

Weber e seu contrabaixo diferente
Filho de professor de música, Eberhard Weber entrou cedo no Conservatório. Teve sólida formação teórica. Tocando contrabaixo, percebeu que seria mais um em alguma orquestra alemã. Disse em certa feita que “queria ser um virtuose, mas talvez eu não fosse bom o suficiente.”

Weber, como um baixista de formação clássica, nunca pensou-se como alguém na tradição de Ray Brown, Scott LaFaro ou Niels-Henning Ørsted Pedersen. Procurava por uma sonoridade diferente. Não lhe apetecia tocar baixo Fender, como foi o que fez Steve Swallow, depois de ter começado no acústico.

O alemão procurou um luthier que fazia violinos e desenvolveu um contrabaixo elétrico, meio nos moldes do tradicional. O que deveria ser o corpo do contrabaixo, tomou forma de um losango alongado, manteve o espigão e a voluta, e adicionou uma corda. Enfim, criou um híbrido entre o acústico e o elétrico, e assim, uma nova sonoridade, inconfundível, que tornou-se sua marca. Alguns que não o conhecem devem tê-lo ouvido em discos da inglesa Kate Bush.

Ouça o contrabaixo de Weber em Mother Stands for Comfort, de Bush.




O primeiro álbum
Levando em paralelo à música, por alguns anos trabalhou em teatro e televisão. Em 1973, lançou The Colours of Chloë, seu primeiro, e celebrado pela crítica. O crítico Paul Olson classifica-o como “a near-perfect album.”

Montou uma banda com Rainer Brüninghaus nos teclados, Charlie Mariano no sax alto, soprano e flauta shenai, e Jon Christensen na bateria. Com essa formação, gravou o que considero o seu melhor álbum: Yellow Fields. Mariano, que começou lá atrás, em meados dos 1950, estava em uma fase em que se aproximara de sons orientais, e aqui, estava na ponta dos cascos.

Em Touch, música que abre Yellow Fields (1975), serve bem como amostra do som do contrabaixo diferente. Ouça. Tudo é perfeito, o soundscape de Brüninghaus, o soprano de Mariano e a bateria discreta de Christensen.




Ouça também Sand Glass.




Lançou mais de uma dezena de álbuns, todos muito bons pela ECM e participou de vários com outras estrelas da gravadora. O som de seu contrabaixo elétrico deixou a sua marca em discos de Gary Burton, Jan Garbarek, Pat Metheny e Ralph Towner.

Ouça Oceanus, de Ralph Towner. Essa canção está em Solstice (ECM, 1975).




Ouça Unfinished Sympathy, do álbum Ring (ECM, 1977). É um dos melhores de Gary Burton, com uma formação de sonhos: Pat Metheny e Mick Goodrick nas guitarras, Gary no vibrafone, Weber e Steve Swallow, este, no baixo elétrico, e Bob Moses na bateria.




Veja Jan Garbarek e Weber em Trollsyn, em apresentação de 2006.




Acidentes acontecem
Em comemoração aos 65 anos, em 2005, Weber fez uma apresentação com a Sttutgard Radio Symphony Orchestra, acompanhado de alguns músicos que sempre tocaram com ele, como Rainer Brüninghaus, Gary Burton e Jan Garbarek. Dela foi lançado o CD Stages of a Long Journey (ECM, 2007). O melhor de Weber está aqui, em versões orquestrais.

O título, com a supressão de um pedaço, é o nome de uma das composições do show: The Last Stages of a Long Journey. O “last” era premonitório. O contrabaixista teve um derrame sério o suficiente para impossibilitá-lo de tocar para sempre, mas não o de continuar a produzir música.

Nas inúmeras vezes em que tocou com a banda de Jan Garbarek, Weber costumava fazer um interlúdio, solos que serviam de início aos temas. Vários deles foram retrabalhados em estúdio com o acréscimo de teclados eletrônicos, da bateria e percussão de Michael DiPasqua e do saxofone e flauta de Jan Garbarek, e o resultado foi Resumé (ECM, 2012).

Veja Weber e Rainer Brüninghaus executando Heidenheim. Não é a versão que está em Resumé.




Depois de Resumé, em 2015, seguindo o mesmo procedimento, foi lançado Encore. Mas o que é de primeira, é a reunião de vários músicos da ECM e alguns não em Hommage a Eberhard Weber, que saiu no mesmo ano. Com Pat Metheny, Jan Garbarek, Gary Burton, Scott Colley, Danny Gottlieb, Paul McCandless, Michael Gibbs e Helge Sund com a SWR Big Band. Eberhard Weber, em sua modéstia, disse uma vez que “talvez ele fosse bom em esconder as suas falhas.” Se for isso, escondeu bem. É um contrabaixista no nível dos melhores da história do jazz.

Veja a apresentação de Tübingen.




Veja o EPK do álbum.