quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A música celestial de Tisziji Muñoz

Imagino que pelo nome, poucos saibam quem é Tisziji Muñoz, mas pelo rosto, não. Passando pelas “wikis” da vida, descubro que tocava na banda de Paul Shaffer, presente todas as noites no “Late Show with David Letterman”. Só lembro do Shaffer, que fazia os contrapontos com o apresentador, algo semelhante ao que o saxofonista e flautista Derico fazia no “Programa do Jô”.

Por estar sempre à procura de ouvir guitarristas desconhecidos que me sejam reveladores, deparei-me com o álbum “Auspicious Healing!” (Anami Music, 2000). O nome de Muñoz, de quem nunca ouvi falar, seria o suficiente para despertar a minha curiosidade? Creio que não. O interesse surgiu principalmente porque a pianista era Marilyn Crispell. Como a conheci? O que mais me impressionou em “Anthony Braxton Composition 98” (hatART, 1981) foi Crispell. Desde então compro tudo o que acho dela e estou sempre atento a qualquer disco que conta com sua participação. Seguindo a linha do novelo, sigo o desconhecido.

Primeiro passo: ouvir. Procuro referências, comparações com outros guitarristas. O seu estilo é pesado, meio roqueiro, o que me leva a pensar em Carlos Santana, em primeiro lugar, Jeff Beck, Larry Coryell e John McLaughlin. Em comum, por não cantarem, privilegiam o instrumental.

Ao ouvir as primeiras faixas, penso logo em “Illuminations” (Columbia, 1974). A música de Muñoz é pesada, com uma carga mística presente no som e nos títulos: “Prayer for Tolerance”, “Teardrop (Blood from the Astral Heart)”, por exemplo. É mais um motivo a atrair-me. É um certo gosto pelos climas dramáticos e celestiais.

Além de Crispell, Muñoz está rodeado de músicos considerados avant garde, como Henry Kaiser, outro guitarrista interessante, e o baixista Mark Dresser. O velho Pharoah Sanders, que passou a ser conhecido depois de entrar na última banda de John Coltrane, afirmou que ele é único guitarrista com quem gosta de tocar.

Apesar de seu nome estar ligado a vários luminares do avant garde do jazz, sua música é apetecível aos ouvidos menos afeitos às aventuras de Anthony Braxton e Cecil Taylor. Muñoz preza bastante as linhas melódicas. Meio roqueiro, tende aos sons climáticos, que lembram a fase místico-religiosa do ex “chefe” de Pharoah.

“Auspicious Healing!”, de 2000, é o único que conheço de Muñoz como líder. Se não é excepcional, é suficiente para despertar a minha curiosidade em ouvir outros álbuns seus.

Das sete faixas, a minha preferida é “Shenai Letticia Munoz (Prayer for a Safe Birth)”. Como na maioria delas, a música é som e fúria. Seu início é dramático, meio apocalíptico, em belos acordes do piano de Marilyn Crispell. Muñoz entra quebrando, acompanhado do baixo e bateria. Depois de seis minutos e meio, Crispell faz o solo em continuidade ao da guitarra, em ondas sonoras de tirar o fôlego. Não é à toa, que uma das minhas pianistas preferidas.

Ouça.