quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Billl Frisell e sua guitarra astronáutica

Bill Frisell e sua guitarra
“Em tempos não muito distantes, mas hoje longínquos – 50 e tantos anos – os soviéticos buscavam o cosmos, e os americanos, os astros. Esses desbravadores do espaço eram chamados, na União Soviética, de cosmonautas, e, nos Estados Unidos, de astronautas. A diferença parecia sutil sem ser. Essas duas nações representavam os opostos, a esquerda e a direita, e estavam em alerta incessante prontos a destruir um ao outro. Nessa coisa denominada “guerra fria”, a humanidade vivia a iminência de deixar de existir.”

O parágrafo acima é repetição do início de outro post (“A mulher que não dá samba, segundo Vanzolini”: http://bit.ly/1xTupCt), mas serve perfeitamente para início deste sobre o CD Guitar in the Space Age, de Bill Frisell, que teve lançamento oficial agora, em 6 de outubro. A sacada da diferença entre americanos e soviéticos não é minha: foi exposta em um filme do dramaturgo, roteirista e cineasta Robert Lepage.

Bill Frisell nasceu em 1951, portanto é um ‘baby boomer”. São assim chamados os filhos americanos que nasceram logo depois do fim da guerra. Bill mal tinha passado dos dez anos e entrou na adolescência sob a égide da guerra do Vietnã, dos sons da explosão do rock britânico com os Beatles e Rolling Stones, e do florescimento do rock flower power californiano, que teve como um dos destaques os Beach Boys, de Brian Wilson.

O mundo, depois da Segunda Guerra, ficou dividido em dois grandes blocos. A guerra mal havia terminado e iniciaram outra: a “guerra fria”. E resolveram também “brigar” no espaço. No início, a primazia foi dos soviéticos, com Laika, o primeiro animal a ir para o espaço, e Yuri Gagarin. Os americanos, para não ficar para trás, mandaram um macaco. A NASA importou o gênio nazista da Guerra, Von Braun, para auxiliar no desenvolvimento do projeto espacial.

Frisell é um guitarrista prolixo, não só pela quantidade de gravações e shows que participou, mas pela facilidade com que transita por vários gêneros. Por falta de opção para rotulá-lo, é considerado jazz. Se cantasse também, provavelmente, classificariam-no como country, tal o gosto que tem por explorar esse gênero. Não é unanimidade, mas é alguém que inventou um estilo, um som próprio. Entre altos e baixos, ou melhor, entre coisas que fazem o gosto de uns e de outros, é músico prestigiado pela crítica e tem um público perenal.

Bill é genuinamente americano. Suas inspirações têm sempre como ponto de partida a América. Por essa razão, entram muitos elementos do folk e do country e do chamado country western. Não é um guitarrista que vem da tradição de Wes Montgomery, Joe Pass ou Jim Hall, apesar de ter sido aluno deste último na Berklee College of Music. Preferiu seguir por uma seara bem própria.

O meu gosto
Gosto de um álbum em especial, que é Angel Song (ECM, 1997), quem sabe, pelos que estão com ele: Kenny Wheeler, Lee Konitz e Dave Holland. Os seus com Paul Motian e Joe Lovano são muito bons também (It Should I’ve Happened a Long Time Ago, ECM, 1985; On Broadway vol. III, JMT, 1992; e I Have the Room Above Her, ECM, 2005). Assisti a uma apresentação de Bill, Lovano e Paul Motian no Village Vanguard, Nova York, e foi fantástico. Parecia uma reunião de velhos conhecidos. Enquanto aguardávamos na fila, vimos eles chegando, como se morassem a um quarteirão de lá.

Ouça Kind of Folk, de Angel Song.




O astronauta Frisell
Quem que era adolescente à época dos lançamentos das Apolos não se encantava com as viagens espaciais? Era sempre um acontecimento. Enquanto Bill assistia às aventuras galácticas pela televisão, rádios americanas tocavam bandas como The Byrds, The Kinks, Beatles e Rolling Stones. Guitar in Space Age é memorialístico, nesse sentido. A guitarra é o “símbolo” do rock. Algo relacionado a esses tempos deve tê-lo feito interessar-se por aprender a tocá-lo, já que começou com a clarineta.

Nesse álbum, Frisell conta com um parceiro que dá a tônica do álbum. Greg Leisz toca a lap steel guitar e a pedal steel guitar, que partem do mesmo princípio. É tocada sobre o colo do músico ou em uma base fixa. Ambas são executadas com um cilindro metálico que produzem um som contínuo e trêmulo, bem parecidos com o das tais guitarras havaianas. Aliás a “lap steel guitar” é chamada de guitarra havaiana, cuja sonoridade Bill gosta bastante.

Os dois primeiros números são canções associadas à surf music. Pipeline, que é um tipo de onda – corrijam-me, surfistas, se estou errado – é também o título de um sucesso dos Chantays, do início dos anos 1960. A segunda é o clássico Turn, Turn, Turn, de Pete Seeger, que ficou conhecida mesmo foi com o The Byrds, de David Crosby, Roger McGuinn e Gene Clark. A quarta – Surfer Girl –, é de outro ícone dessa década e, californiana, também: os Beach Boys, do gênio Brian Wilson.

Ouça Surfer Girl.




Veja também uma entrevista com Bill, e de quebra, um solo de Surfer Girl.




Veja o making of de Guitar in Space Age. Aqui você tem uma amostra de alguns números. Não deixe de ver porque é muito bom.




Bill resgata composições de autores que devem ser mais conhecidos pelos americanos de sua geração. Um deles, por exemplo, Duane Eddy, autor de Rebel Rouser, é um guiarrista que fez sucesso no início dos anos 1960, assim como Speedy West, de Reflections from the Moon, craque no pedal steel guitar. São guitarristas que Bill deve ter ouvido e gostado na adolescência. Jimmy Bryant, outro autor elencado, de Bryant’s Boogie, segundo a Wikipedia, era chamado de “the fastest guitar in the country”. São compositores bem específicos e servem de lembrança dos tempos da corrida espacial.

Ouça a bela Reflections of the Moon.



Muito boa, não?




terça-feira, 14 de outubro de 2014

O sobrevivente Ed Reed

Se você não conhece Ed Reed, a culpa não é sua. É dele. O cara tem 82 anos e você nem tem ideia de quem é ele é? E não é o Ed Reed jogador de futebol americano.

Na maior parte de sua vida, Ed esteve fora deste mundo; ou porque estava doidão, entupido de heroína, anfetaminas e cocaína, ou porque estava na prisão de San Quentin, junto com criminosos da pesada. Saiu da cadeia em 1966. Tímido, custou-lhe adaptar-se à nova vida, e voltou às drogas. O mais previsível teria sido o de tornar-se um indigente doidão. Mas o cara era forte e com alguma mão das circunstâncias e acasos, conseguiu um lugar ao sol. Em 2007, lançou seu primeiro álbum: Ed Reed Sings Love Stories. Estava com 76 anos.

Depois de sair da cadeia, casou com Diane, que quando o conheceu, nem sabia que cantava. É possível que tenha desenvolvido a técnica do canto quando encontrava-se preso. Meu amigo Zeca Leal gostava de dizer que a melhor banda de jazz estava em San Quentin e em outros presídios. Pense em uma reunindo Joe Pass, Hampton Hawes, Dexter Gordon, Art Pepper, Frank Morgan e Wardell Gray. Todos esses, depois de soltos, conseguiram retomar suas carreiras. Diferentemente desses, Ed não era profissional antes de ser preso, daí, talvez, a razão de só ter entrado no negócio da música há pouco tempo.

O público e a crítica adoram esses “retornos” ou descobertas tardias como a de Alberta Hunter e de Jimmy Scott. A primeira afastou-se da música para cuidar da mãe e, posteriormente, trabalhou como enfermeira. Em 1978fora convidada para fazer algumas apresentações no The Cookery, em Nova York. Chamou a atenção do produtor John Hammond, da Columbia Records, e gravou Remember My Name. Tinha mais de 80 anos. Fez um sucesso tremendo. Apresentou-se até em São Paulo. Jimmy Scott (leia: http://bit.ly/1wwPzlT) ficou fora do mercado em razão de alguns passos errados na carreira e chegou a trabalhar de ascensorista. Voltou em grande estilo em 1978 e retomou a carreira com sucesso.

Não foi diferente com Ed Reed. A crítica, se não coloca nos píncaros, recebeu-o com entusiasmo e tem elogiado seus discos, talvez com a benevolência que devotam aos “sobreviventes”, como foi dito no parágrafo anterior. Assim mesmo, Reed é uma revelação, quem sabe, até para ele, que nunca teria imaginado que pudesse ficar conhecido tão tardiamente. É um quase milagre.

O álbum mais recente de Ed Reed chama-se I’m a Shy Guy – A Tribute to Nat King Cole. A fórmula dos tributos é meio caminho andado para o sucesso. Com uma pequena e competente banda formada por Randy Foster (piano), Jamie Fox (guitarra), John Wiitala (baixo) e Anton Schwarz (saxofone tenor) traz alguma novidade. O repertório não cai naquele lugar comum, mesmo ao incluir canções célebres e quase indissociáveis à voz de Nat, como Unforgettable, Straighten Up and Fly Right e It’s Only a Papermoon. Alguns destaques são as menos conhecidas That’s the Beginning of the End e I’m Lost.

Ouça That’s the Beginning of the End, com o acompanhamento ao piano de Randy Potter.



Ed é um “rising star”, sendo um octogenário. Nem parece ter a idade que tem. É um fenômeno por revelar-se tão tardiamente e também um fenômeno da ciência. Há de considerar-se que esses casos de longevidade apesar dos abusos químicos, não apenas com a drogas ilícitas, mas também com o álcool e o cigarro, são raros, no entanto, mais frequentes do que se imagina. Que Ed continue a entoar sua bela voz até os 100 anos. É a prova de que nunca é tarde para se revelar, e que este seja um exemplo para todos.

Assista ao vídeo promocional de I’m a Shy Guy.


Ed Reed canta Inside a Silent Tear.


Veja Ed em Old Man.


Ed canta Bye Bye Blackbird.