quinta-feira, 27 de outubro de 2011

35ª Mostra de Cinema: Hanezu no tsuki, de Naomi Kawase

Cena de Hanezu nu tsuki
No letreiro, depois do final do filme, ficamos sabendo que nesse ano foram iniciadas as escavações em Fujiwara-kyô, na região na qual é o local de origem da nação japonesa. Digo “nesse ano”, pois fica subentendido que é 2011, mas pela Wikipedia, a descoberta do sítio arqueológico de Fujiwara-kyô, que fica em Asuka, na região de Nara, foi em 2006. As cenas iniciais mostram escavadeiras e esteiras rolantes. A narração em off fala de uma lenda sobre três deuses que vivem em três montes: Minamashi, Kagu e Unebi. Dois deles, homens, lutam pelo amor de uma mulher. Esse é o plot de Hanezu no Tsuki, de Naomi Kawase, mas norteá-lo por esse dado, seria reduzí-lo a um simples triângulo amoroso. É mais que isso.

As três personagens são uma mulher casada com alguém que tem um trabalho regular, e a “terceira ponta” é um escultor, o que quer dizer que pode ser considerado um “outsider” dentro da estrutura social nipônica.

O escultor gosta de pássaros. Deixa que eles façam o ninho na luminária de seu quarto. Num certo momento, comenta que as andorinhas possuem um parceiro apenas e assim se mantêm até a morte. Isso não acontece apenas com essa espécie. Os “casamentos” entre os pássaros são duradouros, mas numa pesquisa revelou-se que a maioria dos filhos gerados pelas fêmeas não são fecundados por seus machos. Resumo da ópera: “pulam a cerca” direto, mas estão sempre juntos, sem culpa. A exceção, segundo a mesma pesquisa é o picanço, um pássaro que vive em Portugal; são essencialmente monogâmicos. Pássaros são a expressão da liberdade: voam. Têm seu porto seguro no parceiro, mas livres como são, relacionam-se sexualmente com outros.

O comentário sobre essa pesquisa tem uma relação com a infidelidade da personagem feminina. Apesar de casada, carrega no ventre o fruto de sua relação com o artista. Numa visita que faz à sua mãe é revelado que a avó fora apaixonada por um homem com quem acabara não casando. De certo modo, ela “realiza” o que a avó deixara de fazer: unir-se àquele que ama. Não há uma disputa como a que se conta na lenda das três montanhas. O verdadeiro dilema se encontra na personagem feminina, e os homens sofrem as consequências da sua “dúvida”. Revela a gravidez ao amante e depois diz que abortou. Quando o marido volta da viagem de negócios, diz-lhe que está apaixonada por um outro. A liberdade dos pássaros não é a liberdade dos homens, pois estes estão presos a convenções morais. Em nome delas sua avó não se casa por quem nutre amor.

Dois tempos da tragédia.
Quando conta ao amante que abortara, esse, num ataque de fúria se fere. Depois que ela se vai, vemos a bandagem envolvendo a mão direita, seu instrumento principal de trabalho.

Depois de revelada a traição, ela encontra o marido morto na banheira tingida de sangue. As três montanhas são banhadas pela luz escarlate do crepúsculo.

No olhar de Naomi Kawase, em relação ao filme exibido na 33ª Mostra de Cinema de São Paulo, A Floresta dos Lamentos (Mogari no Mori, 2007), é perceptível, antes de mais nada, um olhar feminino, contemplativo em que os fenômenos da natureza entram em processo simbiótico com os dramas humanos. Nesse filme, vive num asilo um senhor que sofre de demência senil. Passa o tempo escrevendo cartas para sua mulher falecida como uma forma de eternizá-la em sua memória. Segundo a crença budista, o 33º aniversário de morte é o ano em que sua alma vai para as terras de Buda. A enfermeira Machiko (Machiko Ono), que cuida de Shigeki (Shigeki Uda), sofre pela perda do filho pequeno. Cria-se uma ligação forte entre os dois, como um preenchimento das lacunas deixadas por essas perdas.

Hanezu no Tsuki, apesar de, no meu ponto de vista, não ser tão bom quanto A Floresta dos Lamentos, é um filme a ser visto. Algumas “associações” empobrecem a narrativa, como a de que os pássaros vivem soltos na casa do escultor, enquanto, na do casal, o pássaro vive na gaiola; ou quando, ao saber da gravidez da amante, pega uma escada e, com um caco de espelho, observa os filhotes no ninho construído pelo casal na luminária. E, se comparado com a conjunção entre fenômenos da natureza – água, vento, chuva – com a humana – vida, mitos, religiosidade, perdas, morte – em A Floresta dos Lamentos é de um riqueza e de uma beleza sem iguais. Em Hanezu, Naomi não conseguiu se superar.


Veja o trailer de Hanezu



E o de A Floresta dos Lamentos.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A abertura da 35ª Mostra de Cinema de São Paulo mais quatro filmes

A 35ª Mostra de Cinema de São Paulo começou com uma nota triste: a morte de seu criador, Leon Cakoff, poucos dias antes de seu início. Na festa de lançamento que ocorreu na última quinta-feira, no Auditório Ibirapuera, vários dos discursantes, além de salientar a importância de Leon, fizeram questão de dizer que a Mostra se tornou um patrimônio de São Paulo e terá continuidade. Há muito tempo, além da mulher Renata, há uma equipe montada que cuida da infraestrutura de sua montagem.

A bela Cécile de France, o menino e as bicicletas
Após os discursos foi apresentado o curta Viagem à Lua, de Georges Méliès, em versão restaurada e colorida; excepcional, principalmente para quem conhecia alguns trechos apenas, e em preto e branco. A seguir, foi exibido O Garoto da Bicicleta (Le gamin au vélo), dos irmãos Dardenne. Deve ser o primeiro filme light deles. Não faltam personagens de famílias disfuncionais. O “menino da bicicleta” é deixado pelo pai em um orfanato. É um garoto problemático, rebelde e “bandidinho”. É tutelada por uma cabeleireira, que fica com ele aos domingos, que o ajuda a procurar o pai “sumido”. É um filme seco, como de costume; a parte light é que, dessa vez, vislumbra-se uma redenção. A personagem feminina é interpretada pela bela Cécile de France, atriz principal do recente filme Além da Vida (Afterlife), de Clint Eastwood.

O cinema gosta de fins “abertos”, que deixam o espectador a imaginar a “continuação” dos filmes. É o caso do filme dos irmãos Dardenne, de The Day He Arrives (Bukcom Banghyang), de Hong Sang-soo, e de Era Uma Vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan.

Ricardo Calil, no Guia da Folha, disse do coreano, diretor de The Day He Arrives, que “ele é o melhor discípulo de Eric Rohmer e Woody Allen.” De Rohmer sim; não vi muito Allen na história. Filmado em preto e branco (está sendo apresentado em projeção digital), “relata” a vinda de Sun-joon, que abandona a carreira de cineasta e vai morar numa cidade do interior, a Seul para se encontrar com o amigo Yong-hoo, crítico de cinema. O filme tem uma narrativa circular, quando as situações se repetem, com pequenas variações, em encontros com as mesmas personagens. Os diálogos, como nos filmes de Rohmer, são primorosos, colhendo pérolas a partir de ocorrências corriqueiras. Em uma conversa de bar – de bêbados, consequentemente – o cineasta aposentado diz que as coisas acontecem por acaso e que, juntando-os, procuramos dar-lhes um sentido. Em outra, não lembro bem, mas ficou registrado algo como o de que as mulheres agem em dois extremos e quando juntados, fazem sentido. Essa produção difere um pouco do que associamos ao cinema coreano.

Na mesma noite, assisti ao último filme do turco Nuri Bilge Ceylan. Era Uma Vez na Anatólia é um longa de quase três horas de duração. O chefe da polícia e sua equipe partem para uma longa jornada noite adentro com os suspeitos do crime, no intuito de localizarem o corpo da vítima. O suposto assassino – Kenan (Firat Tanis) – lembra apenas que o enterrou perto de uma fonte de água e que havia uma árvore de copa redonda.

Com fome, decidem fazer uma parada na casa de um velho senhor, conhecido do motorista de uma das viaturas e do promotor que acompanha a busca. Até então, todos os personagens são masculinos. A primeira aparição feminina é da filha do velho Mukhtar. Há, digamos, uma mudança na história depois disso. Kenan “descobre” que a pessoa a quem matou é o filho de Mukhtar (ele o “vê” enquanto estão reunidos) e consegue se lembrar do local onde o enterrou. Serve como “motivo”, também, para a revelação dos “dramas” pessoais do promotor e do médico legista, um dos membros da equipe policial.
Bilge Ceylan, mais uma vez premiado em Cannes
A paisagem desolada das estepes é cortada por fachos de luzes em linhas horizontais de três veículos, que seguem uma estrada estreita e sinuosa no início da noite. Essa é a segunda cena. A que abre o filme é a de três homens “enclausurados” num pequeno vestíbulo de uma borracharia. É noite. Um deles se aproxima do vidro embaçado e sai para dar comida ao seu cachorro. É um filme minimalista, num sentido bem diverso ao do coreano Hong San-soo, pois, através de “pequenos sinais” a história vai sendo construída. É um trabalho de mestre, com interpretações memoráveis como as de Taner Birsel (o promotor Nusret) e de Muhammet Uzuner (o médico Cemal). Era Uma Vez tem um final, como os dois citados, “aberto”, e nesse caso, não se sabe se é de esperança ou de desalento quando se vê o médico legista, enquanto seu assistente vai retirando as vísceras do morto, observar pela janela a viúva e seu pequeno filho indo embora.