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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O menos conhecido e genial de Chick Corea

A morte de Chick Corea pegou muita gente de surpresa. A mim, pegou. Tinha 79 anos, o que hoje não é idade para morrer, considerando a média, pelo menos, entre os músicos, como Sonny Rollins, que já passou dos 90 e até há pouco estava tocando.

O conceito de velhice, desculpe o termo, mudou bastante. Seria perfeitamente possível imaginar Corea vivo, com mais de 90, tocando piano em um palco, mesmo que tivesse que usar uma bengala para se locomover. Todavia, aconteceu. Morreu. Descobriram, recentemente, um câncer raro não especificado. Com tantos músicos mais mais velhos, como Lee Konitz e Elis Marsalis, que faleceram com 93 e 85, respectivamente, vítimas dessa maldita pandemia chamada Covid-19, esquecemos que podem, ou podemos, morrer vítimas de outras ocorrências, até banais, como um tombo na rua.

Na minha visão, certas pessoas não morrem, porque permanecerão vivas em nossos pensamentos, por meio de sua música ou por outras coisas. Para mim ele não morreu. Minhas lembranças de quando vi um show dele pela primeira vez continuam vívidas. Foi em um festival de jazz, em São Paulo, em 1977. O programa era calcado no LP “The Leprechaum”, que tinha lançado um ano antes. Foi o primeiro com participação da vocalista Gayle Moran, que já era sua mulher.

Não era o primeiro disco de Corea com vocais. Em “Return to Forever” (1972), Flora Purim participa de algumas faixas. Apesar dos vocais chatinhos dela, o show foi inesquecível. O ápice foi “Crystal Silence”, como no original, piano elétrico e o sax soprano de Joe Farrell. Aquele festival foi inesquecível por outros motivos. Na apresentação de Hermeto Pascoal, John McLaughlin entrou e começaram a improvisar. De repente, o inglês solava em ritmo de frevo. Foi impressionante. Já de madrugada, seis horas depois de iniciado, a festa era total, com Hermeto, McLaughlin, Chick Corea e Stan Getz juntos.

Pura coincidência, Corea e Getz estarem no mesmo palco na farra de Hermeto. No começo da carreira, o pianista foi sideman do saxofonista em “Sweet Rain” (Verve 1967), contribuindo com duas composições. Antes do primeiro LP como líder, acompanhou também Mongo Santamaria, Blue Mitchell, William Bobo e Herbie Mann. 

A estreia como líder
Mann foi seu produtor em “Tones for Joan’s Bones”, para o pequeno selo Vortex. Gravado em 1966. foi lançado em 1968. O quinteto era formado por ele, Steve Swallow no contrabaixo, Joe Chambers na bateria, Joe Farrell no sax tenor e flauta e Woody Shaw no trompete. Dos quatro números, três são composições de sua autoria e a outra “This Is New”, é de Kurt Weill. A que abre, “Litha”, é uma composição excepcional, principalmente, se considerarmos que era a sua estreia. Os solos de Farrell e Shaw são destaques. A outra que deve ser citada é “Straight Up and Down”, uptempo, com a bateria vigorosa de Joe Chambers e Swallow no contrabaixo acústico. O solo de piano é excepcional, assim como é o de Woody Shaw. É um belo trompetista. Morreu relativamente novo: 44 anos. Teve vários problemas de saúde. Era quase cego por causa de uma doença degenerativa. Teve que amputar o braço em razão de uma batida em um vagão de metrô. Morreu por falência dos rins. Era viciado em heroína. Foi uma vida de desgraceira. Vi um show dele. Tinha a cara fechada. Também… Era um grande músico.

Em 1968, lançou “Now He Sings, Now He Sobs”, por outro selo pequeno, a Solid State. É em formato trio: ele, Miroslav Vitous e Roy Haynes. Para quem o conheceu na banda Return to Forever, uma das pioneiras do fusion-jazz, com o Headhunters, de Herbie Hancock, e o Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, é um álbum que soa estranho. É preciso fazer uma espécie de viagem ao passado e analisá-lo como uma espécie de preparação para o que faria depois. 

O título foi tirado da seção “Now he sings, now he sobs – now he beats the drum, now he stops”, do “I Ching – o livro das mutações”. As mutações a que se refere estão ligadas à amplas transformações que ocorriam na década de 1960. Na música tinha-se a explosão do rock, e o jazz vivia um período de exploração de novas linguagens e formas, por meio da música de Ornette Coleman, Charles Mingus, John Coltrane e Miles Davis. Nesse período de novas experiências, pela formação de pianista, o jovem Chick Corea tinha em seu radar também a música de compositores eruditos do século 20, como Bela Bártok, Stravinsky e Alban Berg.

Dentro dos “limites” do mais estabelecido no jazz, o do trio piano, baixo e bateria, com o também jovem Miroslav Vitous e o mais experiente Roy Haynes (42 anos, na época), buscaram criar uma música que ia acontecendo espontaneamente. Sem ensaios. Essa foi a ideia. 

“Now He Sings…” é uma referência ao caminho que Corea pretendia trilhar. É uma representação de seus anos formativos, a influência de pianistas como Thelonious Monk e Bud Powell, deste principalmente, a linguagem do hard bop, na qual mescla com sua formação erudita e interesse pelos compositores da escola vienense do século 20 e de Bela Bártok. 

No álbum seguinte, na mesma Solid State, “Is” (1969), Corea dá mais sinais desse caminho. Incorpora o piano elétrico, timidamente. A formação não é radicalmente diferente do álbum de estreia. Na seção de sopros estão incluídos os instrumentos usuais, com Bennie Maupin no sax tenor, em vez de Joe Farrell, que voltaria a tocar com ele inúmeras vezes, o trompete com o mesmo Woody Shaw, no contrabaixo o inglês Dave Holland, que tocou no início da fase elétrica de Miles Davis, e na bateria, Jack Dejohnette, que também foi da banda, e, de diferente, Hubert Laws, um dos sopros mais perfeitos na flauta.

Ao contrário de Wayne Shorter, Joe Zawinul e Herbie Hancock, seus companheiros da banda de Miles Davis, Corea preferiu seguir pela trilha que estava desenhada desde “Now He Sings…”, o da música avant garde. Formou uma banda com Holland, Barry Altschul e Anthony Braxton. 

Ao mesmo tempo, passou a gravar discos para a recém criada ECM, optando pelo piano acústico: “Piano Improvisations vol. 1 e vol. 2”. Por essa gravadora lançou “Return to Forever” (1972), que seria viraria nome da banda elétrica dele, e “Crystal Silence” (1972), com Gary Burton.

Como Return to Forever, o primeiro foi “Light as a Feather” (1973), com Flora Purim e Airto Moreira, Stanley Clarke e Joe Farrell. O Return to Forever realmente elétrico, fusion-jazz, começa com “Where Have I Known You Before” (Polydor, 1974), nesse, com Bill Connors na guitarra, e “No Mystery” (Polydor, 1975), com Al DiMeola no lugar de Connors.  Pela mesma Polydor, lançou discos com seu nome como líder, com outro conceito.

O propósito dessa postagem era escrever sobre o início da carreira do americano de sangue italiano, apesar de sua paixão pela música espanhola. Para concluir, o que define bem sua música é a diversidade. Gravou muitos discos e em cada um deles, explorava desde o jazz acústico, o fusion-jazz, com sua Chick Corea Electrik Band e até a música erudita.

Ouça “Now He Sings, Now He Sobs”. Nas edições posteriores foram acrescentadas várias músicas. Até a quinta é o LP original. Várias que foram acrescentadas são geniais: “Samba Yantra”, “Bossa”, “Gemini” e os standards “My One and Only Love” e “Pannonica”.

Ouça.




O primeiro dele (“Tones for Joan’s Bones”) é relativamente curto. Vale a pena ouvir. Nesses dois primeiros LPs são síntese de tudo o que ele fez posteriormente.

Ouça,

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O melhor de Miles Davis inéditos [parte 2]

Capa do álbum Directions, lançado em 1981
Quando a fonte dos registros da fase fusion de Miles Davis começou a secar, a Columbia foi mais fundo no baú.

Em 1979, não se sabia o tempo em que ficaria afastado da música. Apesar de todos terem ciência do esgotamento físico decorrente do consumo de drogas ilícitas, especulava-se que o afastamento poderia ser em consequência de um problema sério que tivera na perna, motivo de sofrimento para apresentar-se ao vivo. Totalmente isolado em seu apartamento, sem saberem o que se passava, a gravadora apenas esperava a sua volta.

Nunca houve ninguém como Miles, ninguém tão explorador de novos horizontes. Começou em meados da década de 1940 e em pouco tempo tocava com músicos protagonistas do bebop, participou do álbum considerado marco do cool jazz, é autor de Kind of Blue, marco do jazz modal e é um dos pioneiros do fusion jazz. Por ter trabalhos marcantes em várias fases, pode ser considerado o Picasso do jazz. Sem juízo de um ser melhor que o outro, Charlie Parker, Louis Armstrong e Thelonious Monk foram Matisse, Monet, Braque, Renoir, mas não existiu alguém que participou de tantas revoluções como Davis.

A Columbia e Teo Macero, seu produtor, depois dos lançamentos de Big Fun e Get Up with It e registros ao vivo, não tinham muito mais o que lançar para manter vivo o nome do trompetista. Lançaram Water Babies, em 1976, com sobras de gravações de 1967 e 1968. Não foi unanimidade e não correspondia ao que ele tocava antes do afastamento. As outras duas compilações foram Circle in the Round (1979) e Directions (1981).

Em ordem cronológica, Two Bass Hit, de 1955, abre Circle in the Round, com o primeiro grande quinteto, aquele com John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones. Love for Sale, é de quando Miles teve Coltrane e Cannonball Adderley juntos e Bill Evans como seus músicos, correspondendo à época do clássico Kind of Blue. A terceira é Blues no. 2, de 1961. Há um salto de alguns anos, e ouvimos Circle in the Round, com segundo grande quinteto (Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams), aqui acrescido do guitarrista Joe Beck. É uma faixa em que estão os primeiros sinais da transição para os álbuns em que entra o piano elétrico, como In a Silent Way, Filles de Kilimanjaro e In the Sky.

As faixas Teo’s Bag, Side Car I e Side Car II, que abrem o segundo disco, ainda são basicamente acústicas, com exceção da última, que conta com George Benson na guitarra elétrica. As restantes – Splash, Sanctuary e Guinnevere – são já da fase fusion de Davis.

Ouça Sanctuary, de Wayne Shorter. Esta versão é diferente da definitiva que saiu em Bitches Brew. Nesta há a guitarra de George Benson e é menos interessante, mesmo assim, muito boa, mais intimista.




Miles ficara impressionado com Jimi Hendrix e com Sly and The Family Stone, o que acabou por influenciar para a mudança de rumo de sua música. Almejando um outro público, flertou com o pop. O tom melancólico e as belas harmonias da composição de Crosby, que fizera seu nome com The Byrds e Crosby, Stills & Nash, eram o veículo para a sua incursão nesse mundo. Não deu muito certo. Apresentou-se no festival da Ilha de Wight, em 1970, e foi solenemente ignorado.

Bem melhor que Circle in the Round, foi Directions, lançado em 1981. Seguindo o mesmo procedimento, o primeiro número é o mais antigo. Song of Our Country, de 1960, é um primor, com o arranjo genial de Gil Evans.

Ouça.




A segunda é ’Round Midnight, em registro com o saxofonista Hank Mobley em vez de John Coltrane, e So Near, So Far, de 1963, com o saxofonista George Coleman e Victor Feldman ao piano. A original faz parte de Seven Steps to Heaven. Salta-se para os anos de 1967 e 1968, com Limbo, Water on the Pond e Fun, com o quinteto composto por Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Willams, com eventuais acréscimos – o guitarrista Joe Beck, em Water on the Pond – ou substituições do baixista Buster Williams no lugar de Carter, em Limbo.

O melhor do álbum vem a seguir. Directions, de Joe Zawinul, em dois takes, é de 1968, e conta com três nos teclados: Joe Zawinul, Chick Corea e Herbie Hancock. A bateria, que dá o drive vigoroso, é de Jack DeJohnette.

Ouça Directions I.




A primeira faixa do segundo disco, Ascent, é também de Joe Zawinul. Com três tecladistas – os mesmos –, Wayne Shorter, Dave Holland e Jack DeJohnette e Tony Williams, é uma das obras primas do austríaco fundador do Weather Report. Ela foi gravada em 1968 e foi relançada em The Complete In a Silent Way Sessions há poucos anos, assim como Directions I e Directions II. Um registro: In a Silent Way foi composta por Zawinul, e não por Miles.

Ouça.




Duran é de 1970, como Go Ahead John, lançado inicialmente em Big Fun (veja post anterior). Faz parte das sessões de Jack Johnson. Ambas estão no “complete sessions”, lançado há poucos anos. As duas se parecem um pouco, por causa da guitarra personalíssima de John McLaughlin. Do mesmo ano é Konda, com McLaughlin também. Nesta, o baterista é Billy Cobham e conta com Airto Moreira na percussão.

Ouça Duran. O toque especial é a clarineta baixo de Bennie Maupin além, é claro da guitarra de McLaughlin.




A outra da mesma sessão é Willie Nelson. Quem está familiarizado com a gravação de Jack Johnson lançada em 1970, perceberá que um trecho de Willie Nelson faz parte dela. Nos “complete” lançados recentemente, é possível perceber as colagens realizadas pelo produtor Teo Macero. O trecho aqui apresentado é de um dos takes, mas não é a que saiu em Directions, que tem duração de 10:21.


terça-feira, 21 de junho de 2016

O melhor de Miles Davis inéditos [parte 1]

A estoque de gravações inéditas de Miles Davis parece infindável. Por meio de alguns “complete” como as de In a Silent Way (3 CDs) e Jack Johnson (5 CDs), ficou mais claro de como o produtor Teo Macero editava as músicas até chegar ao produto final, construindo verdadeiros “frankensteins” sonoros, para a sorte de todos, belos, ao contrário, do que foi criado por Mary Shelley. Ele foi um mestre do cut-and-paste, isso na época do analógico ainda. Outra contribuição de Teo foi o piano elétrico Fender Rhodes na música de Davis, por ele sugerido.

Um bom exemplo é Jack Johnson. É uma faixa única em que a música é uma colagem de trechos reaproveitados de outras gravações. Em The Complete Jack Johnson Sessions, estão os registros do que ficou no álbum mixado e vários outros que foram lançados em coletâneas de inéditos como Big Fun, Directions, Circle in the Round e Get Up With It.

No início dos anos 1970, Miles Davis apresentava sinais de esgotamento físico em decorrência do consumo cavalar de drogas pesadas como a heroína. Quando apresentou-se em São Paulo e no Rio de Janeiro, ficava uma ambulância na porta para o caso de alguma emergência. Em contrapartida, produzia alucinadamente.

Mesmo com o afastamento forçado de Miles, a gravadora CBS não deixou de lançar discos seus, aproveitando o que tinham em seus arquivos magnéticos. Big Fun foi o primeiro e é o melhor de todos, com gravações, em sua maioria, de 1969 e 1970 e uma de 1972. Com formações diferentes, várias faixas estão entre as melhores da sua fase elétrica, a começar pela faixa inicial, uma composição de Joe Zawinul. No período em que esteve com o trompetista, Joe compôs temas de beleza hipnotizante. Great Expectations tem duração de 27 minutos e o que se destaca é o som da cítara e da tambura, tocadas por Badal Roy e Bihari Sharma, acompanhados por uma montanha sonora dos Fender Rhodes de Herbie Hancock e Chick Corea e a guitarra de John McLaughlin.

Ouça o trecho inicial de Great Expectations.




Com exceção desta e Recollections, ambas de Zawinul, as outras são creditadas a Miles. Ife é genial, com bela marcação rítmica do baixista Michael Henderson e a percussão de Mtume para os solos de Miles e os saxofones de Bennie Maupin, Sonny Fortune e Carlos Garnett. As outras que merecem destaque são Go Ahead John, com John McLaughlin, Steve Grossman, Dave Holland e Jack DeJohnette, e a melancólica Lonely Fire com destaque para a cítara de Khalil Balakrishna, o soprano de Wayne Shorter e o trompete em surdina de Davis.

Ouça Lonely Fire.




Get Up with It, de 1974, é outro álbum duplo, com registros de 1972 a 1974. É mais radical que o anterior, com dois guitarristas e às vezes, três. Pete Cosey e Reggie Lucas deixaram uma marca no som que Miles fazia nessa época. O único tema com o John McLaughlin é Honky Tonk, que é a única de 1970, aliás, um dos melhores do disco. Ele é gênio. Ouça.




O número mais radical é Rated X, com Miles tocando órgão. Muito interessante.




Em outro número, Miles ataca no órgão e no trompete. Tem um parentesco com Rated X. Ouça Calypso Frelimo. As guitarras são de Pete Cosey e Reggie Lucas.




O destaque, no entanto, é a hipnótica He Love Him Madly, em homenagem a Duke Ellington. É também a faixa mais longa. Tem mais de 32 minutos.


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Chick Corea (re)ouvido

Chick Corea quando jovem
Um dos grandes álbuns no formato trio (piano, baixo, bateria) é Now He Sings, Now He Sobs, de Chick Corea com Miroslav Vitous e Roy Haynes. Dois anos antes deste, Chick estreava como líder com Tones for Joan’s Bone. De lá para cá são 49 anos, tempo bastante para o pianista ter gravado mais de 100 álbuns nas formações mais diferentes.

Logo no início da carreira já foi chamando a atenção de veteranos como Stan Getz e Miles Davis. Aliás, foi com o trompetista, tocando piano elétrico, que acontece a virada na carreira de Corea. Ele e alguns outros músicos que tocaram com Miles montam as principais bandas do que foi rotulado como jazz-rock ou jazz fusion. Corea montou o Return to Forever, Joe Zawinul e Wayne Shorter o Weather Report, e Herbie Hancock lança o revolucionário Head Hunters.

O meu primeiro contato com Chick foi com No Mystery (Polydor, 1975). Lançado no Brasil, não custava tanto quanto os importados. Nessa época, a gravadora Polygram soltava um bom número de títulos de jazz e de música erudita, além de ter sob contrato os maiores nomes da música brasileira.

E não foi o único de Corea a ser lançado aqui. Where Have I Known You Before, anterior ao No Mystery, saiu logo depois – ou foi o contrário? – não me lembro. Na mesma época, sairam alguns títulos da gravadora alemã ECM. Por este selo, outros LPs do americano foram disponibilizados: Piano Improvisations vol.1, Return to Forever (o título é de 1972 e passa ser o nome de sua banda composta por Stanley Clarke, Lenny White e Bill Connors, substituído por Al DiMeola, posteriormente), Circle (com Anthony Braxton, Dave Holland e Barry Altschull), e Crystal Silence, duo com o fabuloso vibrafonista Gary Burton. Os da ECM e os dois de sua banda elétrica eram uma boa amostra da sua versatilidade: free jazz no álbum com Anthony Braxton, virtuoso ao piano solo, lírico, tocando com Burton e “roqueiro” com a banda Return to Forever.

Em uma das primeiras edições do São Paulo-Montreux Jazz Festival – ou na primeira mesmo – Corea era uma das atrações. A sua apresentação foi calcada no repertório do disco The Leprechaum, o mais recente. O título era uma pista do que era o disco. Na sua nova fase, entrava no mundo das fadas, duendes e assemelhados. E, pelo jeito, a “fada” era Gayle Moran, a cantora de voz doce e etérea. Não por acaso, tornou-se sua mulher. Apesar de Gayle, não poderia perder a chance de ver o ídolo. Por sorte, um dos membros da banda era o flautista e saxofonista Joe Farrell. O momento maravilha do show foi justamente a dele no saxofone soprano e Corea no piano elétrico tocando Crystal Silence. Valeu por tudo.

Depois de The Leprechaum, lançou My Spanish Heart, um álbum duplo. Estava com um pé atrás. Comprei assim mesmo. Passei muito tempo sem saber se tinha gostado ou não. Mas essa história fica para a próxima.


Uma seleção pessoal dos discos de Chick Corea dessa época
• Todos os álbuns do Return to Forever são bons, ou quase. O primeiro, ainda com o nome de Chick, é Return to Forever (ECM 1972), excepcional, com uma de suas melhores composições: Crystal Silence. Conta com Airto Moreira, Flora Purim, Stanley Clarke e Joe Farrell. A curiosidade é que o primeiro álbum oficial do Return to Forever, nos EUA é Light as a Feather. O primeiro, lançado em 1972 na Europa, só saiu em 1975 no mercado americano.

Ouça o LP na íntegra. Crystal Silence é a segunda faixa (12:00)



• Light as a Feather. Segundo do RTF. Tem muito a ver com o anterior. Conta ainda com a mesma formação do anterior. É deste álbum uma das grandes composições de Corea: Spain.

Ouça. Os vocais são de Flora Purim.




• Hymn of the Seventh Galaxy (1973) é o primeiro com a pegada mais RTF. A banda é formada por Corea, Stanley Clarke, Lenny White e Bill Connors na guitarra.

Ouça na íntegra.




• Where Have I Known You Before (1974). Com a saída de Connors, que desejava seguir carreira solo, entra Al DiMeola. É uma mudança importante no RTF. Este é o melhor disco da banda, junto com o seguinte No Mystery. Excepcional.

Ouça Vulcan Words, a primeira faixa.




Ouça Song to the Pharoah Kings.




• No Mystery (1975). Obra prima do jazz fusion.

Dayride, faixa de abertura, composição de Stanley Clarke.




Jungle Waterfall tem uma batida irresistível.




Harmonia total entre Corea e Clarke em Interplay.




Puro balanço em Flight of the Newborn.




• Romantic Warrior (1976). É o primeiro na nova gravadora, Columbia. A guitarra de Al DiMeola é dominante. Apesar dele, é bom, menos que os anteriores, mas com grandes momentos. Algo em Romantic Warrior me fez ignorar Musicmagic, o posterior.

Medieval Overture é a faixa de abertura. É música para ouvir bem alta. Ouça.




A guitarra de DiMeola predomina em Majestic Dance.



O grande Corea acústico está presente em Now He Sings, Now He Sobs, como disse no começo. Steps-What Was abre o disco.




Matrix é a segunda faixa.




Ouça Windows.




Os títulos da ECM
Em sua maioria, são muito bons.
• Os solos ao piano. Todos ótimos: Piano Improvisations vol. I (1971), Piano Improvisations vol. 2 (1972), Delphi (1975)
• Tem quem não goste dos discos avant garde de Corea com Anthony Braxton, mas o pianista toca com músicos de primeira: A.R.C. (1971), Circle - Paris Concert (1971)
• Crystal Silence (1973), duo com Gary Burton, é extraordinário. 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O jazz rock revisto por Rez Abbasi

Índia, Goa, Bangladesh ou Paquistão não são países com tradição no jazz. A música dessa região exerceu forte influências na música popular ocidental, seja em suas formas mais tradicionais, por meio dos sons de Ravi Shankar e Nusrat Fateh Ali Khan ou de instrumentistas menos “puros”, como L. Shankar (nenhum parentesco com o citarista), Zakir Hussain, Badal Roy, Trilok Gurtu e Christine Correa. Esta última, nascida em Bombaim, é a única que pode ser dlassificada como “jazz”. A cantora é conhecida por dois álbuns em duo com o pianista Ran Blake. Fora do espectro da música popular, o indiano mais famoso é Zubin Mehta. De origem judaica, natural de Bombaim (atual Mumbai), é um dos maestros vivos mais respeitados.

Curiosamente, dois músicos de jazz de origem indiana estão entre os melhores atualmente: Rudresh Mahanthappa e Vijay Iyer. Ambos nasceram no mesmo ano – 1972 –, mas vieram de lugares diferentes. O primeiro nasceu em Trieste, Itália, e logo emigrou para os EUA. Vijay é de Albany. É formado em matemática e física pela Yale University. Poderia seguir uma brilhante carreira acadêmica, considerando-se o currículo, mas preferiu ser brilhante como pianista. Cada qual seguiu por uma seara, mas um dia se cruzaram lançando o brilhante Raw Materials (ACT, 2006). Apresentaram-se juntos em um dos BMW Jazz Festival, no Brasil. Na revista Downbeat, que estará nas bancas em alguns dias, Iyer é a capa. É o “Artist of the Year” pela votação dos críticos. De quebra, ganhou na modalidade “Jazz Group” e Break Stuff (ECM, 2015) ficou em sétimo entre os discos do ano. Mahantappa não ficou atrás: Bird Calls (ACT, 2015) foi considerado o “Record of the Year”. Leia sobre Bird Calls em http://bit.ly/1RtjEfM.

Como Rudresh Mahanthappa, Rez Abbasi não é americano por acidente. Nasceu em Karachi, Paquistão, país de maioria muçulmana. É paquistanês, como foi dito, por um acidente geográfico. Sequer fala a língua pátria. Ao contrário do primeiro, não se interessou pelas formas musicais indianas. Seu gosto moldou-se pela música ocidental.

Como nasceu em 1967, na adolescência estava gostando da geração que se firmava fazendo um jazz pós-Bitches Brew, eletrônico, com influências da sonoridade do rock e menos no jazz mainstream. É um diferencial relevante. Seus ídolos declarados em seu instrumento são Pat Metheny, Bill Frisell e Jim Hall. E deve ter crescido ouvindo Chick Corea e Herbie Hancock em suas fases jazz-rock, Weather Report, John McLaughlin e outras bandas que se projetaram nos anos 1970 e 1980.

O referência do mais recente álbum de Abbasi é justamente essa música que ouviu na adolescência. A pedra de toque de Intents and Purposes (Enja, 2015) é a de reinterpretar clássicos do jazz eletrônico apenas com instrumentos acústicos. Seu “acoustic quartet” é composto por ele no violão, Bill Ware no vibrafone, Stephan Crump no contrabaixo e Eric McPherson na bateria. Boa sacada.

Na lista estão clássicos do Weather Report (Black Market), Herbie Hancock (Butterfly), Pat Martino (Joyous Lake), Mahavishnu Orchestra (Resolution), Return to Forever (Medieval Overture), Billy Cobham (Red Baron), Larry Coryell (Low-Lee-Tah) e Tony Williams (There Comes a Time).

Intents and Purposes é um prato cheio para os fãs do Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, e do Return to Forever, de Chick Corea, Al Di Meola, Stanley Clarke e Lenny White.

Ouça Black Market na interpretação acústica do Rez Abbasi Acoustic Quartet.




Veja o Weather Report em apresentação em Montreux executando Black Market.





A melhor faixa do CD de Abbasi é Medieval Overture. Ouça.






Ouça no original do Return to Forever. A guitarra é de Al DiMeola.







quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sweetnighter, o disco funky do Weather Report

A imagem da contracapa de Sweetnighter
Quando Wayne Shorter e Joe Zawinul resolveram montar o Weather Report, já eram músicos respeitados e conhecidos. Tinham uma coisa em comum: participaram das formações de Miles Davis em épocas diferentes.

Zawinul estudou no Conservatório de Viena antes de emigrar para os EUA, em 1959, e entrar na Berklee School of Music de Boston. Apesar do aprendizado clássico, pelo jeito, seu interesse era pelo jazz. No início da carreira tocou com o trompetista Maynard Ferguson, acompanhou Dinah Washington, foi da banda de Cannonball Adderley e gravou um belo álbum com Ben Webster (Soulmates, Riverside, 1963) antes de entrar na banda de Miles Davis.

Shorter nasceu em Newark, região pobre de maioria negra, e formou-se na New York University. Tocou com Maynard Ferguson, também. Depois, entrou na banda de Art Blakey e rapidamente passou a desempenhar o papel de diretor musical. Entrou para a nova banda que Miles formou, com ele no saxofone, Herbie Hancock no piano, Ron Carter no contrabaixo e Tony Williams na bateria. Esse quinteto foi um dos mais perfeitos da história do jazz. Tudo o que gravaram são obras-primas. Paralelamente, Wayne Shorter lançou vários discos como líder pela Blue Note. Hancock fez o mesmo. Ambos, bons compositores, são autores de vários standards que estão registrados nesses discos.

Depois da dissolução do quinteto, com Miles partindo para as suas aventuras eletrônicas, é a vez de Joe Zawinul entrar na vida do trompetista. É de sua autoria uma das composições que representam essa passagem de Miles: In a Silent Way. É o compositor também de Pharaoh's Dance, faixa de abertura de Bitches Brew, álbum divisor de águas do jazz.

Miles é o responsável – ou o “irresponsável” por desvirtuar o gênero – da nova vertente do jazz, que ficou conhecida por vários nomes: jazz fusion, jazz-rock, jazz progressivo. É sempre difícil classificar novas linguagens; é como essa história de pós-moderno ser depois do contemporâneo. Zawinul, um apaixonado por eletrônica, não ficou muito tempo com Miles. Tinha luz própria e não podia ficar ficar eclipsado pela sombra do mestre.

Joe e Wayne haviam se encontrado em outras oportunidades e não foi quando estiveram com Miles. Foi lá no início, com outro trompetista: Maynard Ferguson. Joe gostava de explorar as sonoridades dos teclados eletrônicos. Wayne nunca abriu mão do som acústico do saxofone tenor e do soprano. Mas a combinação revelou-se perfeita. Formaram o Weather Report, que viria a se tornar a grande banda do jazz fusion.

Se Miles empreendia uma grande revolução com Bitches Brew, a dupla análogo-eletrônica representou um avanço na exploração do jazz eletrônico. Na primeira formação, contaram com o baixista Miroslav Vitous, Airto Moreira e o baterista Alphonso Mouzon.

I Sing the Body Electric, título tirado de poema de Walt Whitman e do conto de ficção científica de Ray Bradbury, é o segundo álbum. Airto e Mouzon saíram e entraram outro brasileiro – Do Um Romão – e Eric Gravatt. Das sete faixas, as três últimas são registros ao vivo de uma apresentação em Tóquio. Algumas participações especiais são… especiais. A melhor é a de Ralph Towner, um dos grandes virtuoses do violão clássico no jazz, em The Moors, composição de Wayne Shorter.

Os dois primeiros discos, bem experimentais. eram de uma riqueza sonora muito original. Tinha algo das experimentações de Miles em In a Silent Way, pelas ambiências criadas por Zawinul, agora, não submetidas ao crivo do trompetista. Já eram admirados, mas não conhecidos como quando agregaram Jaco Pastorius à banda.

À primeira vista, Sweetnighter (Columbia, 1973) parecia descaradamente comercial. Passado o susto, ficava despudoradamente bom. Os temas eram melódicos, menos abstratos e experimentais. Era um prenúncio do som que ficou como marca mais característica do Weather Report a partir de Black Market. O álbum entre Sweetnighter e este – Mysterious Traveller – ainda tema muito a ver com os dois primeiros.

O início de Sweetnighter é matador. Em Boogie Woogie Waltz, além do contrabaixo de Vitous, há o baixo elétrico de Andrew White. A percussão é de Do Um Romão e Muruga, e a bateria, de Hershell Dwellingham.

Ouça Boogie Woogie Waltz.





Manolete, a segunda, é uma composição de Shorter. Os solos do sax são acompanhados por belas linhas de baixo. Ouça.




Adiós, de Zawinul, tem um pouco da atmosfera de suas outras composições.




Em 125th Street Congress, de Zawinul também, retomam os elementos funkies de Boogie Woogie Waltz, novamente com dois baixos, um elétrico e outro, acústico, e percussão de Do Um Romão e Muruga.




Will, a única composição de Miroslav Vitous, é um belo tema com ele no baixo elétrico, com Andrew White no corne inglês. É outro bom momento; menos funky e mais melódico.




A última é Non-Stop Home. Ouça. Com dois bateristas (Eric Gravatt e Herschell Dwellingham), apenas o baixo elétrico de Andrew White, sintetizadores pilotados por Zawinul, é um típica composição de Shorter, com ele no soprano.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Essa é pra quem gostava do Weather Report

Joe Zawinul, um dos criadores do Weather Report
O Joe em questão de Posting Joe é Joe Zawinul. O austríaco de sangue cigano começou no acordeão e foi para o piano, ainda criança. Estudou no Conservatório de Viena. Ganhou bolsa para estudar na Berklee School of Music. Ficou pouco. Caiu na estrada rápido. Tocou com Cannonball Adderley, acompanhou Ella Fitzgerald e Dinah Washington. Gravou um disco com o saxofonista Ben Webster e como solista, estreou na gravadora Atlantic. Entre o jazz e o erudito, ou o que foi chamado naquele tempo de “third stream”, ou no que se designa agora como “crossover”, sua música não negava as raízes européias.

Tempos depois passou a tocar com Miles Davis e tornou-se cúmplice da mais nova transformação do trompetista. In a Silent Way, álbum que representa a transição e o fim do grande quinteto com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams, tem a participação de Joe como compositor do tema título,

O radio.string.quartet.vienna, depois de produzir um álbum em homenagem à Mahavishnu Orchestra (leia http://bit.ly/1345Bon), agora faz um tributo a Joe Zawinul e também à banda Weather Report, que liderou com Wayne Shorter. É curioso que uma formação essencialmente acústica como um quarteto de cordas tenha escolhido, justamente, duas bandas bem eletrônicas. Em apresentação ao vivo, tocam alguns clássicos como Birdland, Freezing Fire, Cannonball, Black Market e Volcano for Fire. O destaque, no entanto, é mesmo In a Silent Way, tema que é a passagem de Miles Davis para o jazz eletrônico e que vai desembocar no clássico Bitches Brew.

Ouça In a Silent Way, com o radio.string.quartet.vienna.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Ouça Volcano for Hire.



Ouça Volcano for Hire, com o Weather Report.


Veja o teaser do álbum Posting Joe.



Sobre Joe Zawinul, leia http://bit.ly/1348fuj

terça-feira, 30 de julho de 2013

Prato cheio pra quem gostava do Mahavishnu Orchestra

Os membros do radio.string.quartet.vienna
Quartetos de cordas estão associados à música erudita. É uma das formações mais tradicionais da música de câmara. Normalmente são dois violinos, uma viola e um violoncelo. Se a música é uma linguagem aberta, que conversa com seus múltiplos gêneros, natural que surgissem formações tocando música popular com instrumentos da seara erudita. Violinos não são tão estranhos assim. Stephane Grapelli, no jazz, foi o mais conhecido e o trompetista Ray Nance tocava violino e cantava na orquestra de Duke Ellington. Nos dias de hoje, dois violinistas se destacam: Mark Feldman e Regina Carter.

O primeiro quarteto a ficar conhecido interpretando o repertório popular foi o Turtle Island String Quartet, formado em 1985. Tocaram com músicos do jazz e “arranjaram” John Coltrane, Robert Johnson, Jimi Hendrix e Dave Brubeck, dentre outros. Continuam na ativa, mas não se ouve falar deles como antigamente..

Mais recentemente, dois quartetos de cordas se destacam: o Quatuor Ebène e o radio.string.quartet.vienna. O primeiro, formado em 1999, gravou várias obras do repertório camerístico erudito de Fauré, Brahms, Debussy e Mozart pelo selo Virgin Classics. Lançaram um CD – Fiction (2010) – contendo composições da música popular e do jazz.

O radio.string.quartet.vienna grava pelo selo alemão ACT Music. Estrearam com Celebrating The Mahavishnu Orchestra, em 2007. Foi um sucesso. Depois desse, com Klaus Paier, lançaram Radiotree. Em 2011 saiu Radiodream. Desta vez não se restringem a um compositor ou banda: várias são de autoria de Bernie Mallinger, primeiro violino do quarteto, e da violoncelista Asja Valčić, mescladas com standards como Strange Fruit, I Loves You Porgy e Moon River e temas contemporâneos, caso de Nice Dream da banda inglesa Radiohead. Agora em 2013 foi lançado Posting Joe. Celebrating Weather Report. A homenagem a Joe Zawinul é justa: nasceu em Viena.

Não tanto quanto a astro pop David Bowie, John McLaughlin é um “mutante”. Seu primeiro álbum solo foi Extrapolation (1969). Os músicos, como ele, eram todos ingleses: John Surman, Tony Oxley e Brian Odgers. Foi um início excepcional. Logo chamou a atenção do meio musical e tornou-se membro da banda Lifetime, do baterista Tony Williams. Passou a tocar com Miles Davis e participou de uma série de gravações: Jack Johnson, In a Silent Way, Get Up With It, Bitches Brew e de vários álbuns lançados posteriormente com gravações do tempo em que colaborou com o trompetista. Era, como disse uma vez, um “doidão” que vivia tropeçando em fios e cabos no palco. Ligou-se ao guru Shri Chinmoy e, não sei se parou com as drogas, mas mudou. Lançou Devotion e My Goal’s Beyond pela Douglas Records. São discos mais calmos, com toques orientais. Já bem devoto do guru, criou a Mahavishnu Orchestra e gravou também um disco com Carlos Santana, que, convertido à tal religião – ou seita – de Sri Chinmoy, acrescentou Devadip como primeiro nome. Na capa de Love Devotion Surrender vemos duas pessoas de branco com aparência serena. Não sei se Santana, que até então tinha consumido algumas toneladas de marijuana, parou momentaneamente com a droga. Não deve ter não. Seu álbum gravado com Alice Coltrane – Illuminations (1974) – é viajante. Parece uma viagem de ácido com água benta (bem sujinha) do rio Ganges.

Na onda do fusion, músicos que fizeram parte da fase elétrica de Miles Davis seguiram caminhos próprios. Chick Corea montou o Return to Forever, Herbie Hancock, os Headhunters, Joe Zawinul e Wayne Shorter o Weather Report, e McLaughlin montou a Mahavishnu Orchestra. Na primeira formação era ele nas guitarras, Jan Hammer nos teclados, Rick Laird no baixo, Jerry Goodman no violino, e Billy Cobham na bateria. Os dois primeiros álbuns são clássicos do fusion ou do jazz rock, como também era designada a música de improviso com instrumentos elétricos: The Inner Mounting Flame (Columbia, 1971), e Birds of Fire (Columbia, 1972). O terceiro, muito bom também, de uma energia tremenda, é o ao vivo Between Nothingness and Eternity, gravado no Central Park, em 1973. Foi o fim da melhor formação. O mutante John mexeu na banda dando-lhe um som mais orquestral em Apocalypse (1974), com a regência de Michael Tilson Thomas. É bom, mas sem mais a energia tensa e densa dos primeiros. John “reativou” a Mahavishnu algumas vezes em anos posteriores.

A “celebração” à música da Mahavishnu Orchestra do radio.string.quartet.vienna, sabiamente, se resumiu aos três primeiros álbuns. São leituras poderosas e captam a energia dessa banda.

Veja um registro de Meeting of the Spirits. Nessa apresentação, o trombonista Nils Landgren participa. Na gravação original é só o quarteto.




Veja apresentação da Mahavishnu Orchestra na BBC tocando Meeting of the Spirits e You Know You Know. As duas faixas são do primeiro álbum.




Veja também Dawn.




Veja o quarteto tocando Dawn em registro lançado em DVD.




Ouça Inner Mounting Flame na íntegra.




Ouça o álbum Birds of Fire.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Os 75 anos de Joe Zawinul

À guisa das muitas críticas ao que se convencionou chamar de jazz fusion, esse movimento representou um avanço na exploração da linguagem da música. Depois da ressaca dos “excessos eletrônicos”, voltou-se a valorizar o acústico no jazz. A verdade é que uma coisa não anula a outra. Desconfie-se sempre desses movimentos massivos em direção a “algum lugar” e, pronto. Cheira a certo fascismo do gosto. Felizmente, esse retorno ao acústico, que teve como um de seus agentes Wynton Marsalis, não vingou totalmente. Inclusive na própria família. Seu irmão Branford tocou com o “pop” Sting e, paralelamente às gravações com sua banda de jazz, montou o Buckshot LeFonque, no qual incorporava as novas linguagens da música popular.

Há algo de mercadológico nessas “imposições” que acontecem de tempos em tempos. Estrategistas de mercado valorizam uma onda quando a outra satura. No caso da música erudita, por exemplo, as gravadoras inundavam as lojas de gravações de Bach. Aí, passavam para Bach, Beethoven, Vivaldi, e assim por diante. Tinha o ano de Mahler, o ano de Bruckner etc.

Desconsiderar o jazz fusion ou o jazz-rock, como também foi chamado, é ver com um olho só. Na evolução dessa música, a onda foi ser swing, em outra bop, free ou third stream, em cada momento histórico, houve a predominância de uma tendência. O elétrico pode conviver com o acústico muito bem. Considerar que voltar-se para o som acústico é manter o jazz “puro”, ou é fascismo – esperteza de alguns –, ou burrice mesmo. Herbie Hancock é um dos bons exemplos de como a música abarca tudo: desde o erudito – parceria com a cantora Kathleen Battle –,  ao pop – em disco-tributo à folk Joni Mitchell –, ou ao eletrônico, como no projeto Future 2 Future, em que explora a música eletrônica, mesclando elementos do jazz com o rap, inclusive até no formato mais “mainstream”, tocando com seus antigos companheiros da banda de Miles Davis, o “culpado” de toda essa história ter começado.

O grande Zawinul
Gerações que cultuaram Miles Davis como um dos deuses do jazz passaram a odiá-lo quando incorporou instrumentos elétricos na música. Impressionado com Jimi Hendrix e o “funky” Sly and The Family Stone, suas experimentações eletrônicas culminaram com a gravação de Bitches Brew, em 1969. A ironia é que Herbie Hancock, membro regular de sua banda desde 1965, resistiu inicialmente em tocar piano elétrico quando Miles propôs. O “resistente”, pelo jeito, depois, gostou. A história “Caras” da parceria Miles/Hancock aconteceu em 1968. Hancock casou-se e foi passar a lua de mel no Brasil. Sob o pretexto de ter voltado tarde, foi demitido pelo líder Miles. Mesmo assim, ocasionalmente, Hancock acompanhou-o. Com a banda montada depois do “bilhete azul”, em 1974, Herbie gravaria um dos clássicos do fusion, o Headhunters. Nesse álbum, toca toda espécie de teclados eletrônicos, acompanhado de Bennie Maupin no sax, flauta, clarineta baixo e saxello, Paul Jackson no baixo elétrico, Harvey Mason na bateria e Bill Summers na percussão.

Outro protagonista é Joe Zawinul. Ele, um pianista de formação clássica, austríaco de nascimento, depois de ter estudado no Conservatório de Viena, ganhou uma bolsa na prestigiada Berklee College of Music, em Boston. Ficou pouco tempo. Logo caiu na estrada acompanhando Maynard Fergunson, Cannonball Adderley, Ben Webster, Dinah Washington e Ella Fitzgerald. Passa a tocar com Miles e, depois de sair, montou uma banda que faria história. Juntou-se ao saxofonista Wayne Shorter, ao baixista Miroslav Vitous, ao percussionista brasileiro Airto Moreira e ao baterista Alphonso Mouzon  e lançaram, em 1971 o primeiro álbum do Weather Report. Menos de um ano depois sairia I Sing the Body Electric – título “roubado” de um livro do escritor de ficção científica Ray Bradbury que, por sua vez, tinha se apropriado de um verso do poeta americano Walt Whitman. Nos anos seguintes, lançariam o “funky” Sweetnighter (1973) e Mysterious Traveller (1974). Com de milhões de fãs, a essa altura, viram esse contingente se ampliar com a entrada de Jaco Pastorius. Foi o auge. Depois da saída do baixista

Poucos são os privilegiados de terem sido artífices de revoluções ou reviravoltas na música. Zawinul é um deles. Depois da dissolução do Weather Report continuou radicalmente “elétrico”. Ex-tecladistas que participaram da banda de Miles, como Herbie Hancock e Chick Corea, alternam-se entre o elétrico e o acústico. Keith Jarrett, de breve passagem pela banda do trumpetista, em sua carreira solo, tocou piano elétrico em Ruta & Daitya, duo com o baterista Jack DeJohnette, e depois, nunca mais. Zawinul, pelo contrário, não só abraçou a “eletricidade”, como foi um eterno experimentador de suas possibilidades.

Aos 75 anos, morreu de câncer de pele em Viena, cidade onde nasceu. Mas, até o fim esteve no palco, inquieto e experimentador. Nos tempos do Weather Report, junto de Wayne Shorter, não apenas aventuraram-se pelas experiências elétricas, como também incoroporando influências musicais étnicas. O brasileiro Airto Moreira e sua percussão representaram essa abertura à música global, assim como Dom Um Romão, Alex Acuña e Manolo Badrena. Na última formação de seu Zawinul Syndicate, a “legião estrangeira” se compunha de dois brasileiros – o guitarrista, vocalista e percussionista catarinense Alegre Corrêa e Jorge Bezerra, “vindo diretamente da favela de Mangueira” nos vocais e percussão –, Linley Marthe, das Ilhas Mauritius, Aziz Sahmaoui, do Marrocos, o baterista Paco Sery, da Costa do Marfim, e Sabine Kabongo, do Congo. Aconteceu um tour pelo natalício de Zawinul, que ficou registrado no CD duplo 75th. Estão lá alguns clássicos dos tempos do Weather Report e composições mais recentes dos membros da banda. Uma curiosidade é Clario (imagino que seja Clariô; esqueceram do acento, coisa que costuma acontecer em discos estrangeiros quando grafam erradamente os nomes latinos), em que Corrêa canta sua composicão com direito até a um improviso à la João Bosco. Não falta também um “happy birthday to you” cantado pela congolesa.

O último disco de Zawinul serve como amostra para uma evidência: ele era o cérebro do Weather Report, apesar da coliderança com Wayne Shorter. Esse tecladista, considerado o melhor do ano por trinta vezes pela revista Downbeat, foi quem moldou essa fusão étnica/eletrônica, realmente. O álbum 75th representa a síntese da música de uma das mais importantes personalidades do jazz.

Veja e ouça a apresentação do Zawinul Syndicate tocando o meddley Badia/Boogie Woogie Waltz, duas composições representativas do Weather Report, em Lugano.