A estoque de gravações inéditas de Miles Davis parece infindável. Por meio de alguns “complete” como as de In a Silent Way (3 CDs) e Jack Johnson (5 CDs), ficou mais claro de como o produtor Teo Macero editava as músicas até chegar ao produto final, construindo verdadeiros “frankensteins” sonoros, para a sorte de todos, belos, ao contrário, do que foi criado por Mary Shelley. Ele foi um mestre do cut-and-paste, isso na época do analógico ainda. Outra contribuição de Teo foi o piano elétrico Fender Rhodes na música de Davis, por ele sugerido.
Um bom exemplo é Jack Johnson. É uma faixa única em que a música é uma colagem de trechos reaproveitados de outras gravações. Em The Complete Jack Johnson Sessions, estão os registros do que ficou no álbum mixado e vários outros que foram lançados em coletâneas de inéditos como Big Fun, Directions, Circle in the Round e Get Up With It.
No início dos anos 1970, Miles Davis apresentava sinais de esgotamento físico em decorrência do consumo cavalar de drogas pesadas como a heroína. Quando apresentou-se em São Paulo e no Rio de Janeiro, ficava uma ambulância na porta para o caso de alguma emergência. Em contrapartida, produzia alucinadamente.
Mesmo com o afastamento forçado de Miles, a gravadora CBS não deixou de lançar discos seus, aproveitando o que tinham em seus arquivos magnéticos. Big Fun foi o primeiro e é o melhor de todos, com gravações, em sua maioria, de 1969 e 1970 e uma de 1972. Com formações diferentes, várias faixas estão entre as melhores da sua fase elétrica, a começar pela faixa inicial, uma composição de Joe Zawinul. No período em que esteve com o trompetista, Joe compôs temas de beleza hipnotizante. Great Expectations tem duração de 27 minutos e o que se destaca é o som da cítara e da tambura, tocadas por Badal Roy e Bihari Sharma, acompanhados por uma montanha sonora dos Fender Rhodes de Herbie Hancock e Chick Corea e a guitarra de John McLaughlin.
Ouça o trecho inicial de Great Expectations.
Com exceção desta e Recollections, ambas de Zawinul, as outras são creditadas a Miles. Ife é genial, com bela marcação rítmica do baixista Michael Henderson e a percussão de Mtume para os solos de Miles e os saxofones de Bennie Maupin, Sonny Fortune e Carlos Garnett. As outras que merecem destaque são Go Ahead John, com John McLaughlin, Steve Grossman, Dave Holland e Jack DeJohnette, e a melancólica Lonely Fire com destaque para a cítara de Khalil Balakrishna, o soprano de Wayne Shorter e o trompete em surdina de Davis.
Ouça Lonely Fire.
Get Up with It, de 1974, é outro álbum duplo, com registros de 1972 a 1974. É mais radical que o anterior, com dois guitarristas e às vezes, três. Pete Cosey e Reggie Lucas deixaram uma marca no som que Miles fazia nessa época. O único tema com o John McLaughlin é Honky Tonk, que é a única de 1970, aliás, um dos melhores do disco. Ele é gênio. Ouça.
O número mais radical é Rated X, com Miles tocando órgão. Muito interessante.
Em outro número, Miles ataca no órgão e no trompete. Tem um parentesco com Rated X. Ouça Calypso Frelimo. As guitarras são de Pete Cosey e Reggie Lucas.
O destaque, no entanto, é a hipnótica He Love Him Madly, em homenagem a Duke Ellington. É também a faixa mais longa. Tem mais de 32 minutos.

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