quinta-feira, 23 de junho de 2016

O melhor de Miles Davis inéditos [parte 2]

Capa do álbum Directions, lançado em 1981
Quando a fonte dos registros da fase fusion de Miles Davis começou a secar, a Columbia foi mais fundo no baú.

Em 1979, não se sabia o tempo em que ficaria afastado da música. Apesar de todos terem ciência do esgotamento físico decorrente do consumo de drogas ilícitas, especulava-se que o afastamento poderia ser em consequência de um problema sério que tivera na perna, motivo de sofrimento para apresentar-se ao vivo. Totalmente isolado em seu apartamento, sem saberem o que se passava, a gravadora apenas esperava a sua volta.

Nunca houve ninguém como Miles, ninguém tão explorador de novos horizontes. Começou em meados da década de 1940 e em pouco tempo tocava com músicos protagonistas do bebop, participou do álbum considerado marco do cool jazz, é autor de Kind of Blue, marco do jazz modal e é um dos pioneiros do fusion jazz. Por ter trabalhos marcantes em várias fases, pode ser considerado o Picasso do jazz. Sem juízo de um ser melhor que o outro, Charlie Parker, Louis Armstrong e Thelonious Monk foram Matisse, Monet, Braque, Renoir, mas não existiu alguém que participou de tantas revoluções como Davis.

A Columbia e Teo Macero, seu produtor, depois dos lançamentos de Big Fun e Get Up with It e registros ao vivo, não tinham muito mais o que lançar para manter vivo o nome do trompetista. Lançaram Water Babies, em 1976, com sobras de gravações de 1967 e 1968. Não foi unanimidade e não correspondia ao que ele tocava antes do afastamento. As outras duas compilações foram Circle in the Round (1979) e Directions (1981).

Em ordem cronológica, Two Bass Hit, de 1955, abre Circle in the Round, com o primeiro grande quinteto, aquele com John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones. Love for Sale, é de quando Miles teve Coltrane e Cannonball Adderley juntos e Bill Evans como seus músicos, correspondendo à época do clássico Kind of Blue. A terceira é Blues no. 2, de 1961. Há um salto de alguns anos, e ouvimos Circle in the Round, com segundo grande quinteto (Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams), aqui acrescido do guitarrista Joe Beck. É uma faixa em que estão os primeiros sinais da transição para os álbuns em que entra o piano elétrico, como In a Silent Way, Filles de Kilimanjaro e In the Sky.

As faixas Teo’s Bag, Side Car I e Side Car II, que abrem o segundo disco, ainda são basicamente acústicas, com exceção da última, que conta com George Benson na guitarra elétrica. As restantes – Splash, Sanctuary e Guinnevere – são já da fase fusion de Davis.

Ouça Sanctuary, de Wayne Shorter. Esta versão é diferente da definitiva que saiu em Bitches Brew. Nesta há a guitarra de George Benson e é menos interessante, mesmo assim, muito boa, mais intimista.




Miles ficara impressionado com Jimi Hendrix e com Sly and The Family Stone, o que acabou por influenciar para a mudança de rumo de sua música. Almejando um outro público, flertou com o pop. O tom melancólico e as belas harmonias da composição de Crosby, que fizera seu nome com The Byrds e Crosby, Stills & Nash, eram o veículo para a sua incursão nesse mundo. Não deu muito certo. Apresentou-se no festival da Ilha de Wight, em 1970, e foi solenemente ignorado.

Bem melhor que Circle in the Round, foi Directions, lançado em 1981. Seguindo o mesmo procedimento, o primeiro número é o mais antigo. Song of Our Country, de 1960, é um primor, com o arranjo genial de Gil Evans.

Ouça.




A segunda é ’Round Midnight, em registro com o saxofonista Hank Mobley em vez de John Coltrane, e So Near, So Far, de 1963, com o saxofonista George Coleman e Victor Feldman ao piano. A original faz parte de Seven Steps to Heaven. Salta-se para os anos de 1967 e 1968, com Limbo, Water on the Pond e Fun, com o quinteto composto por Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Willams, com eventuais acréscimos – o guitarrista Joe Beck, em Water on the Pond – ou substituições do baixista Buster Williams no lugar de Carter, em Limbo.

O melhor do álbum vem a seguir. Directions, de Joe Zawinul, em dois takes, é de 1968, e conta com três nos teclados: Joe Zawinul, Chick Corea e Herbie Hancock. A bateria, que dá o drive vigoroso, é de Jack DeJohnette.

Ouça Directions I.




A primeira faixa do segundo disco, Ascent, é também de Joe Zawinul. Com três tecladistas – os mesmos –, Wayne Shorter, Dave Holland e Jack DeJohnette e Tony Williams, é uma das obras primas do austríaco fundador do Weather Report. Ela foi gravada em 1968 e foi relançada em The Complete In a Silent Way Sessions há poucos anos, assim como Directions I e Directions II. Um registro: In a Silent Way foi composta por Zawinul, e não por Miles.

Ouça.




Duran é de 1970, como Go Ahead John, lançado inicialmente em Big Fun (veja post anterior). Faz parte das sessões de Jack Johnson. Ambas estão no “complete sessions”, lançado há poucos anos. As duas se parecem um pouco, por causa da guitarra personalíssima de John McLaughlin. Do mesmo ano é Konda, com McLaughlin também. Nesta, o baterista é Billy Cobham e conta com Airto Moreira na percussão.

Ouça Duran. O toque especial é a clarineta baixo de Bennie Maupin além, é claro da guitarra de McLaughlin.




A outra da mesma sessão é Willie Nelson. Quem está familiarizado com a gravação de Jack Johnson lançada em 1970, perceberá que um trecho de Willie Nelson faz parte dela. Nos “complete” lançados recentemente, é possível perceber as colagens realizadas pelo produtor Teo Macero. O trecho aqui apresentado é de um dos takes, mas não é a que saiu em Directions, que tem duração de 10:21.


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