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quinta-feira, 25 de abril de 2019

O brilho eterno de Schubert na visão de Vladimir Martynov

De vez em quando, a ignorância ajuda. A ignorância faz de mim um curioso. Por curiosidade, e por gostar de música, tento ouvir de tudo e ver se aprendo alguma coisa.

Em relação à música erudita, passo temporadas ouvindo compulsivamente determinadas peças dos meus compositores preferidos por intérpretes diferentes. Digo isso em razão de uma “reinterpretação” do “Quinteto de Cordas em Sol maior”, de Franz Schubert, de Vladimir Martynov, que ouvi pela primeira vez há pouco tempo.

Schubert é uma das minhas obsessões. Fora a “Oitava Sinfonia”, que “morou” na discoteca da minha família, inadvertidamente, pois meu pai nem rádio ouvia, a primeira coisa que ouvi foi a “Sonata para Piano em Si bemol maior, D. 960”, com Alfred Brendel, em LP lançado pela Philips brasileira. Comecei por cima. Está entre as suas grandes composições.

Na mesma época, por curiosidade, achei no meio dos usados, no Edgar Discos, um disco com as “Quatro Últimas Canções” (“Vier letzte lieder”), de Richard Strauss, cantadas por Montserrat Caballé, bem antes dela ficar mundialmente conhecida pelo dueto que fez com Freddie Mercury, da banda Queen. Foi uma paixão avassaladora pelos “lieder”, que nascia em mim.

Como os álbuns importados eram muito caros para o bolso de estudante, procurava LPs nacionais lançados no Brasil pelos selos Philips e Deutsche Grammophon. Mesmo com o domínio total de títulos de música popular, éramos brindados com poucos e bons títulos de música erudita, pois tinham percebido que existia um nicho, pequeno, mas fiel, para esse gênero. Apesar da qualidade sofrível dos LPs, em que os chiados concorriam com os pianíssimos, era o possível para os de poucas posses. Além dos Vivaldi, Boccherini e Handel, que vendiam bem, lembro de boas gravações, de compositores menos vendedores, como Brahms, em uma caixa com as “Quatro Sinfonias”, com regência de Georg Solti, Mahler, com a integral das Sinfonias, com Bernard Haitink, e até discos de compositores contemporâneos, como Luciano Berio e Penderecki.

Depois das “Quatro Últimas Canções”, conheci “A Canção da Terra” (“Das lied von der Erde”), de Mahler. Com meu interesse despertado pelas sonatas para piano, quando lançado, comprei um LP de lieder, por Elly Ameling. Sem conhecer uma palavra de alemão, tentava cantar junto “Im abendrot” e “Die liebe hat gelogen”, decifrando cada fonema das letras incluídas no encarte.

Lembro agora que, antes dos LPs com as últimas sonatas de Schubert, por Brendel, tinha comprado o “Quinteto para Piano e Cordas, D. 667”, conhecido como “A Truta”, de uma gravação da alemã MPS/Basf.

O ser e o artista
Muitos criticaram a cinebiografia “Amadeus”, dirigida por Milos Forman. É ficção, afinal. Antonio Salieri ficou mal na fita. Foi demonizado no filme, invejoso do talento de seu contemporâneo. Mozart é retratado como um irresponsável e inconsequente. Mas foi um gênio.

É preciso dissociar a pessoa do artista. Schubert adorava uma taberna. Era um boêmio e, bêbado, mostrava “um lado mais selvagem de seu caráter”, segundo Alex Ross (“Escuta só”, Cia das Letras, 2010, pág. 149).

Franz Schubert nasceu em Viena, 1797, e morreu em 1828. Em seus 31 anos de vida, produziu como ninguém. É autor de cerca de mil obras. É autor dos lieder mais belos da história. Foi um dos que melhor casaram a poesia com a música. “Sua necessidade de retratar torrentes de sentimento o levou a um estudo obsessivo da poesia: ele foi – e continua a ser – um dos compositores mais literários.” (id., pág. 155)

De sua incrível produção, entre 1823 a 1828, ano de sua morte, compôs uma série de obras-primas: “três quartetos, dois trios para piano, o quinteto para cordas, as últimas oito sonatas para piano, a Nona Sinfonia e os ciclos de canções.” (id, pág. 160)

De acordo com Ross,“várias composições partiram de fontes schubertianas: ‘Rendering’, de Luciano Berio, ‘November 19, 1828’ (data da morte de Schubert, é claro), de John Harbison, ‘Lazarus’, de Édisson Denisov, e ‘Torso’, de Georg Friedrich Haas, para citar alguns. Enquanto isso, parece que o próprio Schubert ainda está compondo: conclusões de diferentes editores de suas numerosas peças inacabadas chegam de tempos em tempos.’ Resumindo: até hoje, compositores “estudam suas partituras em busca de novos caminhos.”

Ouvi, pela primeira vez, recentemente o álbum “Music of Vladimir Martynov”, com o Kronos Quartet. É de 2012, portanto, não é novidade. Dentre as peças escolhidas, a que mais me impressionou foi “Schubert-Quintet (Unfinished) - Movement I e II”. Complementa o CD “The Beatitudes” e “Das Abschied”, que é também uma “reinvenção” sobre o último movimento de “Das lede von der Erde” (“Canção da Terra”), de Gustav Mahler. Mas essa é menos impressionante.

O diferencial do “Quinteto para Cordas em Dó Maior, D. 956” é uso de dois violoncelos. Citando mais uma vez Ross: “ O quinteto para Cordas e a Sonata em Si Bemol, ambas terminados em setembro de 1828, parecem de fato uma despedida consciente e uma conclusão. A sequência de eventos do adagio do Quinteto – um tema principal hesitante, quase insuportavelmente melancólico, uma seção central veemente, um retorno ao primeiro tema, enfraquecido, contudo ainda mais adorável; de novo um brevíssimo lampejo de ira; depois uma passagem para o silêncio – poderia mostrar uma consciência, um desafio e depois a aceitação da morte.” Depois dessa descrição genial de Alex Ross, não resta senão ouví-la.

Veja o Camerata Quartet e Marta Kordykiewicz no segundo violoncelo a tocar o Adagio do Quinteto em Dó Maior.




Ouça a “reinvenção” de Martynov. Movimento I.



Movimento II.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

A Favorita e meu Schubert favorito

Rachel Weisz e Olivia Colman em “Favorita”
Um tanto aleatoriamente resolvi assistir à “A Favorita”; nem tanto, vou confessar. Em rápida pesquisa, descubro que é um filme de Yorgos Lanthimus. Nomes diferentes me atraem. Filmes iugoslavos, quando Tito ainda vivia, iranianos, turcos, romenos, libaneses, israelenses, argentinos, chineses, coreanos, etc., despertam minha curiosidade; e gregos também, mais especificamente, Theo Angelopoulos.

Um filme com Rachel Weisz e Emma Stone estrelando, convenhamos, se não é mainstream, está próximo disso. É algo como Juliette Binoche em um filme de Abbas Kiarostami (“Cópia Fiel”, 2010) ou Natalie Portman trabalhando com Amos Gitai (“Free Zone”, 2005).

O filme levou um Globo de Ouro – Olivia Colman, melhor atriz de comédia – e sete Bafta – um deles, o de melhor filme britânico –, e tem dez indicações ao Oscar deste ano. Numericamente, concorre com “Roma”, de Alfonso Cuarón.

Anne (Olivia Colman) é a rainha, com uma série de problemas de saúde, e precisa de auxílio para se locomover. Mas quem governa é a duquesa de Malborough (Rachel Weisz), sua “favorita”, que decide sobre os assuntos de Estado por ela. Esse “equilíbrio” é quebrado com a chegada de Abgail (Emma Stone), que torna-se criada do reino e, aos poucos, conquista o papel de “favorita”. Basicamente, a história é a disputa ferrenha das duas para ser a segunda da rainha, tudo em clima de comédia, com imagens soturnas, com alguma semelhança, pela iconoclastia, ao subverter a linguagem de filmes de época, à “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola. Não chega aos termos desta, que colocou personagens usando tênis All Star, mas é original nas imagens filmadas com lente grande angular e olho de peixe, que é aquela que capta 180º das cenas. Tematicamente é uma abordagem que, segundo o crítico Luis Carlos Merten, de “O Estado de São Paulo”, revela “uma profunda descrença na humanidade.” Ainda, segundo ele, “reis não são deuses, mas gente. […] Mulheres, como os homens, fazem coisas horríveis.” É um filme admirável.

Trilhas sonoras
Minha diversão é reconhecer temas utilizados em filmes de época. Compositores como Beethoven, Mozart, Schubert, Bach e Brahms servem bem a esse propósito. Um mestre no uso desse repertório é Stanley Kubrick. A prova é “Barry Lyndon”. Seu extremo bom gosto e inventividade está presente também em “Laranja Mecânica”, (“A clockwork orange”) com temas de Ludwig van Beethoven tocados em sintetizadores (novidade total na época), execução de Walter Carlos (mais tarde, trocou de nome para Wendy Carlos); em “2001 – Uma odisséia no espaço”, com “Also spracht Zarathustra”, de Richard Strauss”, abrindo o filme, “Danúbio Azul”, de Johann Strauss, o “Adagio” de “Gayane ballet suite”, de Aram Khachaturian, e “Lux aeterna”, de György Ligeti; de “De olhos bem fechados” (“Eyes wide shut”), novamente com trechos de Ligeti (“Musica ricercata), Shostakovich (“Suite no. 2 para Jazz Orchestra”), além de alguns standards americanos; e no espetacular encerramento de “Dr. Fantástico” (Dr. Strangelove”), dessa vez com um motivo da música popular, com “We’ll meet again”, cantada por Vera Lynn.

Veja o final de “Dr. Fantástico”, com We’ll Meet Again”.




Alguns devem ter ouvido essas composições eruditas pela primeira vez em filmes de Stanley Kubrick. Para exemplificar, lembro de um amigo, ao ouvir um trecho da “Nona Sinfonia”, de Beethoven, dizer mais ou menos o seguinte: “É a música do ‘Laranja mecânica’!” Acho que nem sabia quem era Beethoven, e nunca tinha ouvido o último movimento da “Nona”, tão pop quanto o início da “Quinta Sinfonia”, do alemão. Esses temas ficaram muito conhecidas em versões “profanas”, como “Also spracht Zarathustra”, com Eumir Deodato, e o último movimento da “Nona”, conhecida como “Ode a Alegria”, por algum cantor que não vou lembrar do nome agora. Outra composição erudita que ficou conhecida por meio de um filme – “Retratos da vida” (“Les uns et les autres”) – é “Bolero”, nominada popularmente “Bolero de Ravel”.

Bom, voltando à “Favorita”, não lembro se em seu final ou nos letreiros, ouço o “Andante sostenuto”, da “Piano Sonata em si bemol maior, D. 960”, uma das três últimas sonatas de Franz Schubert, compostas no fim de sua vida, em 1828. Vi, nos créditos finais, que era interpretado por Sviatoslav Richter. Como ouvi muitas versões, não consegui reconhecer que era dele.

Movido pela curiosidade, fiz uma pesquisa no meu acervo. Como as últimas sonatas de piano do austríaco estão entre as minhas peças preferidas, tenho dezenas de interpretações diferentes. O que chamou a atenção de imediato foi o tom mais dramático do que, naturalmente, é o “andante”. Com Richter, os movimentos lentos são solenes, e os tempos rápidos, por seu virtuosismo técnico excepcional, transformam-se em montanhas russas – ou soviéticas. Infelizmente, por ter vivido sob o regime stalinista, a maioria de suas gravações são da Melodya, inferiores tecnicamente. Mesmo os lançados pela Philips e outras gravadoras menores são, em sua maioria, de apresentações ao vivo. Richter “brigava” com as tosses irritantes acrescentadas às suas brilhantes performances.

As sonatas com Richter estão entre as melhores de todos os tempos, na minha opinião, principalmente a de no. 19, D. 958. Como sou obsessivo, resolvi, compará-la a de outros pianistas.  Tenho mais que as que cito, mas dei-me ao trabalho de ouvir a de Alfred Brendel, Krystian Zimerman, Radu Lupu, Mitsuko Uchida, Paul Lewis, Claudio Arrau, András Schiff, Leif Ove Andsenes, Marc-André Hamelin e Stephen Hough. No conjunto, considerando-se a sonata inteira, minha preferida é a de Brendel, talvez por ter sido a primeira que conheci., mas é difícil dizer qual é a melhor. Faço questão de frisar que é a opinião de um leigo, pois sou um semi-analfabeto em música erudita; sou apenas um apreciador de música.Todas essas são muito boas. Dos registros mais recentes, minhas preferidas são as de Lewis, Andsnes e Hamelin. No conjunto, das últimas três sonatas, elejo como melhor a do inglês.

Sou fã de tudo o que Paul Lewis grava. Ouça o “Andante sostenuto” da sonata com ele.






 Sviatoslav Richter, no “Andante”, da “Piano sonata D. 960.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Jim Morrison, que faria 70 anos em 2013

Jim Morrison e sua primeira ficha policial
O tempo passa e sem dó. Alguém consegue imaginar Jim Morrison com 70 anos, que é quanto completou em 8 de dezembro? Previsões do futuro pretérito são sempre desastrosas. Provavelmente estaria um caco, caquético, decadente, horroroso sem nenhuma sombra do gênio que foi. Tampouco acredito que os homens cumprem seu destino na Terra. Não é possível imaginar que um bebê que morre cinco dias depois do nascimento possa ter cumprido sua tarefa aqui na Terra. Não sei se é por isso que, antigamente, se falava que aqueles que morriam tão cedo, nem a tempo de serem batizados pela igreja católica, eram considerados “anjinhos”. O purgatório – parece que não existe mais, abolido pela Igreja – era pior do que o céu ou o inferno.

O fato é que morrer velhinho não é garantia de nada em relação ao que um cara talentoso como Morrison poderia estar fazendo com 70 anos. Ele é do “grupo dos 27”, ou seja, aqueles que morreram aos 27: Jimi Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones e, mais recentemente, Kurt Cobain, líder do Nirvana, e Amy Winehouse. Hendrix e Janis estavam à toda quando morreram. Suas mortes parecem ter sido acidentes de percurso. O caso de Jones é um tanto estranho. Colocaram até a culpa sobre Mick Jagger e Keith Richards, seus companheiros de banda.

O álcool e as drogas estavam atrapalhando bem a vida de Amy, pouco antes de morrer. Jim Morrison, aparentemente, estava num estado que nos faz pensar que, vivo ou morto, estava morto. Deixou crescer a barba, tinha engordado, e, dizem, impotente. Está enterrado no Père-Lachaise, Paris, muito bem acompanhado por Balzac, Oscar Wilde e Marcel Proust.

A morte precoce do artista faz parte do ideário romântico. Werther, personagem criado pelo Goethe da primeira fase, é o símbolo da ideia do irrealizado, do amor impossível. Sabe-se de muitos leitores que se suicidaram, naquela época. Um dos mestres do romantismo na música, Franz Schubert, compôs centenas de lieder, alguns com versos do escritor. No imaginário geral, o romântico morre jovem, de tuberculose. Era bonito morrer desse mal.

Não foi o caso de Schubert. Seu exemplo foge bem desse ideário. Nascido em em 1797, morreu com 31 anos. Mas não foi por amor nem de tuberculose. Dependendo do ponto de vista, pode até ter sido por amor, pois a sífilis, normalmente, é transmitida por vias sexuais.

Schubert viveu uns quatro anos a mais que Jim Morrison e produziu infinitamente mais. Só de lieder (canções com letras) compôs cerca de 600, fora trios, quartetos e quintetos maravilhosos e sonatas para o piano sublimes.

Ouça Die Liebe hat gelogen, um dos lieder mais belos de Schubert com Elly Ameling. É muito bom.



Mesmo assim, em vida Morrison foi um acontecimento. Afrontou o establishment de maneira mais acintosa que seus contemporâneos Janis Joplin e Jimi Hendrix. Desafiou a autoridade policial com discursos e atitudes desafiadoras. Teve apresentações interrompidas pela polícia e foi preso mais de uma vez. Morrison possuía beleza apolínea, mas tinha Dionísio e o diabo no corpo. No fim da vida deixou-se ficar gordo e deixou crescer a barba. Foi mais uma negação ao establishment.

No total, são seis álbuns. Depois da morte de Morrison, os remanescentes continuaram por um tempo. Sem ele, The Doors virou nada. Gravaram dois discos que cairam no ocaso. Agora, no fim de 2013, depois da morte de mais um “doors” – Ray Manzarek – voltaram a se reunir, depois de uma longa batalha judicial pelos direitos do nome “The Doors”. O baterista John Densmore, no início deste século, não gostou nem um pouco quando Manzarek e o guitarrista Robby Krieger se apresentaram com o nome original da banda.

Qual é o melhor de todos? Cada um tem sua preferência. Para mim, é Strange Days. Por coincidência – ou não –, foi o primeiro deles que comprei.

Ouça a música título.



You're Lost Little Girl, a segunda, é excepcional também.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Fome de viver de Tony Scott

Scott e Denzel Washington, em Déjà vu
Cinematográfica a morte de Tony Scott, não? Escalar uma grade de três metros de altura e pular da ponte Vincent Thomas, na Califórnia, foi um ato corajoso. Foi seu salto solitário e espetacular, que poderia ter sido uma cena de algum filme seu que ele não quis mostrar a ninguém.

Com um nome tão comum, um quase “João da Silva”, irmão menos famoso (Ridley, o outro, virou culto depois de Os Duelistas e Blade Runner). Mas é impossível alguém que dirigiu Top Gun (1986), Jogo de Espiões (Spy Game, 2001), Déjà vu (2006), Maré Vermelha (Crimson Tide, 1985) e Chamas da Vingança (Man on Fire, 2004) ser considerado de segunda, como alguns o taxam. E tem mais: Scott é diretor de Fome de Viver (The Hunger, 1983), um filme espetacular.

Ridley e Tony vieram do cinema publicitário. Essa origem é determinante na parte visual de seus filmes. Apesar de Tony ser considerado mais “hollywoodiano” que o irmão, ambos se assemelham em muita coisa. Lidam – lidava, no caso de Tony – muito bem com a imagem, sabem tirar o máximo proveito das possibilidades da linguagem cinematográfica. O início de Top Gun – Ases Indomáveis, seu maior sucesso, é deslumbrante, com imagens de aviões de caça taxeando em um porta-aviões. Era um mestre em filmes de ação. Isso não é defeito. É qualidade.

O grande filme de Tony foi um fracasso de bilheteria. Fome de Viver era, em inúmeros sentidos, um filme destinado a tornar-se cult. Bom, esse termo, de hoje em dia, é um pouco bobo e perdeu parte do que significava; é como o termo kitsch, que quase não se usa mais. Um primeiro motivo é a participação do cantor e compositor David Bowie. Fez poucos e marcantes filmes: além deste, cabe citar Labirinto (Labyrinth, 1986), Furyo, Em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence, 1983) e O Homem Que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth, 1976). Até sua aposentadoria (depois de um ataque de coração, retirou-se e, convidado, recusou-se a participar do show de abertura das Olimpíadas de Londres) nunca deixou de ser um astro de primeira grandeza.

Lançou o primeiro disco em 1967 e tornou-se conhecido com Space Oddity, que saiu dois anos depois. Estourou com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, em 1972. Bowie revolucionou o show business da música, não apenas pelo talento, mas por vestir a persona criada por ele. Inventou um ser andrógino, fora desse mundo, meio alienígena (Neil Armstrong tinha pisado no solo da Lua em 1969 e a exploração espacial era tema quente). Até Elton John compôs uma música “espacial”: Rocket Man.

Bowie era a representação em si, vestindo a personagem de Ziggy Stardust. Faltava apenas que fosse a representação da representação. Essa oportunidade surgiu com o convite de Nicholas Roeg, diretor de Performance (teve participações de Mick Jagger e Anita Pallenberg) e do maravilhoso Walkabout (1971), para ser o ator principal de O Homem Que Caiu na Terra. Na juventude, em uma briga levou um murro no olho. A consequência foi a de que a pupila de um dos olhos ficou sem a capacidade de dilatar e contrair conforme a intensidade da luz. Roeg explorou esse problema da pupila, em que uma ficava contraída e outra não para caracterizar o “extraterrestre” Bowie.

Fome de Viver é estrelado por David Bowie, Catherine Deneuve e Susan Sarandon. Bowie e Deneuve formam um casal que, para não envelhecer, precisa se alimentar de sangue humano. Preocupada com sinais de envelhecimento dele, procura por uma médica especialista, que é Susan Sarandon. Não vou contar a história. Todo mundo tem a obrigação de ver esta filme. É maravilhoso em todos os sentidos; pelo enredo, pelos atores, pelas cenas e a música. Se Scott tivesse feito apenas Fome de Viver, já teria sido um grande legado.

Em vários sentidos, como disse, é excepcional. A abertura, com a banda gótica Bauhaus tocando Bela Lugosi Is Dead é um deslumbre. Veja. Combina perfeitamente com o clima noir do filme.




John, a personagem vivida por David Bowie é um violoncelista. Além do Bauhaus, tem Schubert na trilha sonora. O alemão compôs duas peças para piano, violino e violoncelo, o Trio nº 1 em si bemol maior, opus 99, e o Trio nº 2 em mi bemol maior, opus 100. São duas obras primas. A gravação clássica é a de Eugene Istomin (piano), Isaac Stern (violino) e Leonard Rose (violoncelo)

Ouça o segundo movimento do Trio opus 100 com eles. Sorte existir esse áudio no YouTube.



Outra bom registro, esse mais recente é com Vladimir Ashkenazy (piano), Pinchas Zukerman (violino) e Lynn Harrell (cello), gravação pela London Records (1997).

Veja também trechos de Fome de Viver tendo Andante con moto do Trio opus 100 de fundo.


A propósito de Schubert, leia sobre Stanley Kubrick, que usou o mesmo tema antes de Scott em Barry Lyndon: http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2010/12/stanley-kubrick-o-mestre-da-musica.html.