De vez em quando, a ignorância ajuda. A ignorância faz de mim um curioso. Por curiosidade, e por gostar de música, tento ouvir de tudo e ver se aprendo alguma coisa.
Em relação à música erudita, passo temporadas ouvindo compulsivamente determinadas peças dos meus compositores preferidos por intérpretes diferentes. Digo isso em razão de uma “reinterpretação” do “Quinteto de Cordas em Sol maior”, de Franz Schubert, de Vladimir Martynov, que ouvi pela primeira vez há pouco tempo.
Schubert é uma das minhas obsessões. Fora a “Oitava Sinfonia”, que “morou” na discoteca da minha família, inadvertidamente, pois meu pai nem rádio ouvia, a primeira coisa que ouvi foi a “Sonata para Piano em Si bemol maior, D. 960”, com Alfred Brendel, em LP lançado pela Philips brasileira. Comecei por cima. Está entre as suas grandes composições.
Na mesma época, por curiosidade, achei no meio dos usados, no Edgar Discos, um disco com as “Quatro Últimas Canções” (“Vier letzte lieder”), de Richard Strauss, cantadas por Montserrat Caballé, bem antes dela ficar mundialmente conhecida pelo dueto que fez com Freddie Mercury, da banda Queen. Foi uma paixão avassaladora pelos “lieder”, que nascia em mim.
Como os álbuns importados eram muito caros para o bolso de estudante, procurava LPs nacionais lançados no Brasil pelos selos Philips e Deutsche Grammophon. Mesmo com o domínio total de títulos de música popular, éramos brindados com poucos e bons títulos de música erudita, pois tinham percebido que existia um nicho, pequeno, mas fiel, para esse gênero. Apesar da qualidade sofrível dos LPs, em que os chiados concorriam com os pianíssimos, era o possível para os de poucas posses. Além dos Vivaldi, Boccherini e Handel, que vendiam bem, lembro de boas gravações, de compositores menos vendedores, como Brahms, em uma caixa com as “Quatro Sinfonias”, com regência de Georg Solti, Mahler, com a integral das Sinfonias, com Bernard Haitink, e até discos de compositores contemporâneos, como Luciano Berio e Penderecki.
Depois das “Quatro Últimas Canções”, conheci “A Canção da Terra” (“Das lied von der Erde”), de Mahler. Com meu interesse despertado pelas sonatas para piano, quando lançado, comprei um LP de lieder, por Elly Ameling. Sem conhecer uma palavra de alemão, tentava cantar junto “Im abendrot” e “Die liebe hat gelogen”, decifrando cada fonema das letras incluídas no encarte.
Lembro agora que, antes dos LPs com as últimas sonatas de Schubert, por Brendel, tinha comprado o “Quinteto para Piano e Cordas, D. 667”, conhecido como “A Truta”, de uma gravação da alemã MPS/Basf.
O ser e o artista
Muitos criticaram a cinebiografia “Amadeus”, dirigida por Milos Forman. É ficção, afinal. Antonio Salieri ficou mal na fita. Foi demonizado no filme, invejoso do talento de seu contemporâneo. Mozart é retratado como um irresponsável e inconsequente. Mas foi um gênio.
É preciso dissociar a pessoa do artista. Schubert adorava uma taberna. Era um boêmio e, bêbado, mostrava “um lado mais selvagem de seu caráter”, segundo Alex Ross (“Escuta só”, Cia das Letras, 2010, pág. 149).
Franz Schubert nasceu em Viena, 1797, e morreu em 1828. Em seus 31 anos de vida, produziu como ninguém. É autor de cerca de mil obras. É autor dos lieder mais belos da história. Foi um dos que melhor casaram a poesia com a música. “Sua necessidade de retratar torrentes de sentimento o levou a um estudo obsessivo da poesia: ele foi – e continua a ser – um dos compositores mais literários.” (id., pág. 155)
De sua incrível produção, entre 1823 a 1828, ano de sua morte, compôs uma série de obras-primas: “três quartetos, dois trios para piano, o quinteto para cordas, as últimas oito sonatas para piano, a Nona Sinfonia e os ciclos de canções.” (id, pág. 160)
De acordo com Ross,“várias composições partiram de fontes schubertianas: ‘Rendering’, de Luciano Berio, ‘November 19, 1828’ (data da morte de Schubert, é claro), de John Harbison, ‘Lazarus’, de Édisson Denisov, e ‘Torso’, de Georg Friedrich Haas, para citar alguns. Enquanto isso, parece que o próprio Schubert ainda está compondo: conclusões de diferentes editores de suas numerosas peças inacabadas chegam de tempos em tempos.’ Resumindo: até hoje, compositores “estudam suas partituras em busca de novos caminhos.”
Ouvi, pela primeira vez, recentemente o álbum “Music of Vladimir Martynov”, com o Kronos Quartet. É de 2012, portanto, não é novidade. Dentre as peças escolhidas, a que mais me impressionou foi “Schubert-Quintet (Unfinished) - Movement I e II”. Complementa o CD “The Beatitudes” e “Das Abschied”, que é também uma “reinvenção” sobre o último movimento de “Das lede von der Erde” (“Canção da Terra”), de Gustav Mahler. Mas essa é menos impressionante.
O diferencial do “Quinteto para Cordas em Dó Maior, D. 956” é uso de dois violoncelos. Citando mais uma vez Ross: “ O quinteto para Cordas e a Sonata em Si Bemol, ambas terminados em setembro de 1828, parecem de fato uma despedida consciente e uma conclusão. A sequência de eventos do adagio do Quinteto – um tema principal hesitante, quase insuportavelmente melancólico, uma seção central veemente, um retorno ao primeiro tema, enfraquecido, contudo ainda mais adorável; de novo um brevíssimo lampejo de ira; depois uma passagem para o silêncio – poderia mostrar uma consciência, um desafio e depois a aceitação da morte.” Depois dessa descrição genial de Alex Ross, não resta senão ouví-la.
Veja o Camerata Quartet e Marta Kordykiewicz no segundo violoncelo a tocar o Adagio do Quinteto em Dó Maior.
Ouça a “reinvenção” de Martynov. Movimento I.
Movimento II.

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