Na madrugada de 18 de março de 1976, Francisco Tenório Júnior, cujo nome artístico era Tenório Jr., e chamado por alguns amigos de Tenorinho, saiu para comer um sanduíche e comprar um remédio. Deixara um bilhete na portaria do hotel Normandie, na avenida Corrientes, em Buenos Aires. Estava na Argentina como membro da banda que acompanhava Toquinho e Vinícius de Moraes, em temporada de shows no teatro Gran Rex. Nunca mais foi visto. Em outra versão, diz-se que saiu para comprar cigarros. Tinha, na época, cabelos e barba longos. Os óculos de aros negros e capote igualmente negro o fizeram suspeito de ser um comunista ou algo do gênero. foi abordado por uma patrulha militar. O ocorrido foi cinco dias antes da derrubada de Isabelita Perón e instauração da ditadura militar, presidida pelo general Jorge Videla. Cerca de 30 mil pessoas “desapareceram” nesse período.
Segundo Vinícius, os empresários alertaram de que sempre andassem com seus documentos, devido a instabilidade política. Mesmo com o passaporte no bolso, Tenório Jr. foi detido, depois torturado e morto nas dependências da Marinha Argentina.
De manhã, percebendo o seu desaparecimento, os músicos saíram à procura em hospitais e delegacias. Vinícius, ex-diplomata, procurou o embaixador Rodolfo Souza Dantas, amigo e ex-marido de sua filha Suzana. Concluíram que era possível que tivesse sido detido pelos militares da repressão argentina. Em “A onda que se ergueu no mar”, Ruy Castro afirma que Souza Dantas impetrou um habeas corpus que, possivelmente, ficou na “gaveta do ministro-conselheiro Marcos Torres, filho de general e ligado à linha-dura no Brasil.” Ainda, segundo ele, “pelo que se depreende do relato de [Cesar] Vallejos [ex-soldado do serviço de inteligência da Marinha argentina, que participou da tortura], foi monstruoso: os funcionários brasileiros que deveriam procurar Tenório para protegê-lo fizeram o contrário. Eles o acharam, mas juntaram-se aos algozes.”
Em 1976, no governo de Ernesto Geisel, o ministro do Exército era Silvio Frota, tremendo linha-dura, que pleiteava ser o novo presidente. O SNI, o serviço de inteligência nacional, mantinha estreitas relações com outros exércitos direitistas como os do Chile, Uruguai e Argentina. Essas ligações, desconhecidas então, foram posteriormente reveladas. e ficou-se sabendo que tinham até um nome: “Operação Condor”,
Tenório Jr. foi torturado e, depois de a polícia da Marinha ter percebido o engano, segundo Ruy Castro, poderia interessar aos brasileiros. Foi interrogado pelo major Souza Batista e pelo capitão Visconti, do SNI, em Buenos Aires. Depois de ser torturado por nove dias e provado que era apenas um músico, pouco interessado em política, não tinha mais condições de ser solto e nem de ser mandado a um hospital. “Com a autorização dos brasileiros, o argentino Astiz [Alfredo Astiz, capitão de fragata da Marinha] cobriu Tenório com um capuz e deu-lhe um tiro na cabeça. O corpo foi enterrado numa cova rasa no cemitério de La Chacarita.” Parece que a embaixada brasileira foi avisada de que o corpo de Tenório encontrava-se à disposição no necrotério. Nada foi feito. Terminou assim a carreira de um dos pianistas mais talentosos que o Brasil tinha.
O corpo de Tenório nunca foi devolvido e nem localizado depois. O músico era casado e tinha quatro filhos com outro a caminho. Em 1992, Carmen, sua mulher, foi a Buenos Aires com o pessoal da TV Globo à procura de notícias do marido. Descobriram que não há um único documento sobre o que aconteceu.
O embalo de Tenório Jr.
Com apenas 23 anos, Tenório lançou “Embalo”, pelo selo RGE. Gravado em fevereiro e março de 1964, mesmo sendo seu primeiro disco como líder, teve total autonomia para escolher os músicos, a começar pela “cozinha”. Participaram do álbum Zezinho Alves e Sergio Barroso Neto no contrabaixo, e Milton Banana e Ronie Mesquita na bateria. Nos “reeds”, o time era de primeira: JT Meirelles, Paulo Moura, Hector Costita, Pedro Paulo e Maurílio Santos, e Edson “Maluco” Maciel. Das onze composições, cinco eram dele.
A partir de meados dos anos 1950 e anos 1960, a música essencialmente instrumental estava em voga. Uma geração de músicos de primeira despontou, muitos formados na escola da vida, tocando em pequenas boates do Rio como o Beco e o Bottles. Pianistas (Luis Eça, Sérgio Mendes, Luiz Carlos Vinhas, Dom Salvador), saxofonistas e flautistas (J. T. Meirelles, Paulo Moura, Cipó, Juarez Araújo), trombonistas (Raul de Souza, Edson Maciel), violonistas (Baden Powell, Durval Ferreira, Rosinha de Valença, Roberto Menescal), baixistas (Tião Neto, Octavio Bailly Jr., Bebeto, Zezinho Alves), bateristas (Edison Machado, Milton Banana, Dom Um Romão, Chico Batera, Wilson das Neves, Airto Moreira), que tocavam na noite, foram responsáveis pelo que ficou conhecido como samba-jazz, uma invenção genuinamente brasileira.
Até gravadoras grandes como a Philips, encamparam a música instrumental brasileira. Não foi por muito tempo. Vários álbuns lançados, além de “Embalo”, são considerados clássicos: “Você Não Ouviu Nada” (Sergio Mendes), “Coisas” (Moacir Santos), “Tempo Feliz” (Baden Powell e Mauricio Einhorn), À Vontade Mesmo” (Raul de Souza) e outros. O Tamba Trio, de Luiz Eça, João Donato e Luiz Carlos Vinhas também lançaram seus discos como líderes. Um dos grandes clássicos do gênero foi “É Samba novo”, de Edison Machado. Neste, o pianista é Tenório. Outro destaque, que tem sua participação, é “O LP”, de Os Cobras, em que o baterista é outro craque: Milton Banana.
Apesar da relativa popularidade da música instrumental no Brasil, o destino natural era o aeroporto do Galeão. Baden Powell mudou-se para a França. A maioria foi para os Estados Unidos: Sérgio Mendes, Dom Salvador, Rosinha de Valença, Moacir Santos, Eumir Deodato, Dom Um Romão, Raul de Souza, Luiz Eça, Tião Neto, Airto Moreira e Juarez Araújo, dentre outros. Teve quem ficou por lá em definitivo, como Sergio Mendes, Moacir Santos e Dom Salvador. Outros, voltaram. Os que não saíram, continuaram a tocar na noite ou foram acompanhar cantores e cantoras, como Tenório Jr.
Ouça “Embalo”, seu álbum solo. Das 11 faixas, cinco são de sua autoria.
