quinta-feira, 20 de julho de 2017

A minha cantora da semana é Rosemary Standley

Se você não sabe quem é Rosemary Standley e sente-se um burro ou desinformado, sossegue-se. Sou como você: um burro desinformado. Bom, se você conhece o som de Moriarty, sinta-se sabido, porque você sabe que Rosemary Standley era um dos membros dessa banda. Não custa porém um pouco de humildade para garimpar no desconhecido. Pois Rosemary é a mulher que mais me impressionou nesta semana.

Meio que desavisado, não sei por que me interessaria por um álbum com uma capa de fundo branco com a silhueta de uma mulher de roupa que não sei se é de uma corista, uma bailarina, sei lá. Abaixo da imagem está grafado “A Queen of Hearts”. Sob o nome dela leio Sylvain Griotto. Ao ouvir o disco, intuo que Griotto é o acompanhante e Standley a cantora. Em uma rápida busca descubro que ela é francesa, nasceu em Paris em 1979, e é uma “chanteuse franco-américaine”. Pelas fotos, vejo que tem olhos claros e tem uma opulência felliniana, ou me faz pensar em uma mistura de Gavrina e aquela outra personagem de seios fartos que fazem a delícia de um garoto no filme “Roma”. Será isso? Será em “Roma” ou em algum outro filme de Federico Fellini.

Vamos, porém, sair dos devaneios meio erótico-misóginos e prestar atenção ao que importa: a voz. De início, em um esforço comparativo, algo me faz lembrar de Cyrille Aimée, cantora francesa radicada nos Estados Unidos que vem ganhando reconhecimento da crítica. Lembro também de Madeleine Peyroux e, por tabela, Billie Holiday.

Ao ouví-la cantando “Pirate Jenny”, de Kurt Weill e Bertold Brecht – que bela interpretação! – me traz à lembrança Lotte Lenya, Gisela May e algumas cantoras de cabaré. Standley opta por um repertório eclético que inclui “I’d Rather Go Blind”, cuja versão mais conhecida é a de Etta James e que foi cantada também por Rod Stewart, canções em língua espanhola como “El Negro Zumbon” e “Porque Te Vas”, francesas, como “La nuit, je mens”, “Je ne t’aime pas”, “La reine de coeur”, e até alemã, como “Sag Mir Wo Die Blumen Sind”, repertório de uma chanteuse de fato. Mas Rosemary arrasa mesmo cantando músicas em inglês, como “Because”, de Lennon e McCartney, “Ain’t Got No, I Got Life”, “Wild Is the Wind”, “The Man I Love”, “Put the Blame on Mame”, de Allan Roberts e Doris Fischer, do clássico “Gilda”, e uma versão matadora de “Johnny Guitar”.

“A Queen of Hearts” é um projeto criado por Juliette Deschamps, lançado em CD e DVD, que, segundo o release, “paga tributo ao glamour e à melancólica elegância de artistas como Marlene Dietrich, Marilyn Monroe, Billie Holiday e Nancy Sinatra.” A voz de Standley e o piano sublime de Sylvain Griotto são uma prova de que a música tem a capacidade de nos alienar do mundo real, cruel e depressivo. Pena que essas sensações se esvaem tão rapidamente nos ruídos do cotidiano e na realidade crua.

Vamos começar pela bela e a poesia melancólica de “La nuit, je mens”. É do DVD oficial.




Agora, a genial “The Man I Love”, de Geroge Gershwin e Ira Gershwin.




Um pouco de contemporaneidade, se bem que é um tema do século passado: “Because”.




E, finalmente, a minha preferida de “A Queen of Hearts”: “Johnny Guitar”.