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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

35ª Mostra: Mercedes Sosa canta para o Papa em Habemus Papam

Têm acontecido problemas com as projeções digitais e alguns filmes não chegaram a tempo de serem exibidos nos dias programados para a Mostra de Cinema de São Paulo. Quanto ao digital, os equipamentos que temos estão defasados tecnologicamente, o que acarreta incompatibilidades de sistema.

Problemas digitais. A equipe da Mostra pediu às produtoras que os filmes enviados fossem, preferencialmente, em película 35mm. As projeções digitais, no Brasil, têm recebido críticas contundentes: “chapam” as imagens; não sei se é em razão de estarem defasadas. É a velha querela entre o analógico e o digital. O que é melhor? É simples saudosismo? Pode ser. O advento dos CDs, nos anos 1980, trouxe questão semelhante: apesar dos chiados decorrentes de riscos e da eletrostática, o som dos LPs era mais “redondo”. Entre audiófilos se falava muito em fadiga auditiva: não sei se era psicológico, mas cansava; o som dos CDs parecia metálico demais. Passou o tempo e muitos nem sabem mais o que é um LP e, muito menos, devem ter tido a experiência de ouvi-los. Deixamos de reclamar dos CDs, é verdade, por uma razão muito simples: que praticidade! E, agora que até os CDs estão fadados ao desaparecimento, quer coisa mais prática do que ouvir música nos iPods “inventados” por Steve Jobs?. Por questões práticas, os velhos bolachões – assim eram chamados os LPs – deram lugar aos CDs e, agora, pelos mesmos motivos, o mp3 e o streaming via internet decretam uma nova era.

O argumento mais forte – reverberando a famosa frase de Joseph Goebbels, quando diz que “quando vocês me falam em cultura, saco do meu cheque” – é financeiro. Muitos devem desconhecer o custo de uma cópia de um filme película em 35mm: a diferença é algo entre “8 e “80”. Diante de uma coisa dessas, não tem argumento. Tudo bem que no digital perdemos uma grande “qualidade” da imagem analógica: a profundidade de foco. É como no som analógico: provoca em nós uma sensação de maior “espacialidade”.

A incompatibidade dos sistemas europeu e o americano com o nosso tem resultado em várias coisas. Não sei a razão, mas assisti a mais de uma projeção digital em tons cor-de-rosa. Irritante. O problema fica sério quando nem sequer roda ou quando o áudio some. Foi o que aconteceu na primeira sessão de Habemus Papam.

Moretti monta um campeonato entre os cardeais
Habemus Papam. O último filme de Nani Moretti estava programado para ser exibido no dia 23 de outubro. A cópia não chegou a tempo. O amigo Wagner Tronolone tinha ido buscar alguns ingressos e viu em uma folha de papel o seguinte aviso: “sessão de Habemus Papum cancelada”. O comentário dele foi em relação ao erro na grafia “papum”: “pá pum”, “habemus pá pum” (é como soa), e não “papa” ou “papam”..

A cópia acabou chegando e pôde ser exibida no dia 25. Aconteceu um problema com o áudio. O público reclamou, com razão.

A linhagem de grandes diretores italianos é respeitável. Depois do fim da Segunda Grande Guerra, a Itália revelou Vittorio de Sicca, Roberto Rosselini, Federico Fellini, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Ettore Scola, Dino Risi, Gillo Pontecorvo, Mario Monicelli e Valerio Zurlini. Com tantos talentos e bons produtores (Dino di Laurentis e Carlo Ponti), construíram sólida tradição na cinematografia mundial. Apesar de não tão geniais, gerações intermediárias e mais recentes continuam a realizar filmes muito bons.

Um dos mais representativos é Nani Moretti. Faz, ao contrário do – desculpem – “mala”, Roberto Begnini, filmes de humor fino. É o caso do recente Habemus Papam.

Em rápidas palavras, é a história do cardeal Melville (Michel Picoli), que é eleito papa pelo conclave dos cardeais. Este tem um ataque de pânico e se recusa a ir até a sacada para ser aclamado pelo público. O assessor do Vaticano tem a ideia de trazer um psicanalista para conversar com o cardeal Melville. Sem resultado, resolve recorrer à ex-mulher do psicanalista, profissional da mesma área e muito respeitada também.

Arma um esquema para levá-lo até seu consultório, sem que o conclave dos cardeais perceba e, muito menos, a imprensa e o público que continuam à espera de sua primeira aparição como Papa. Faz a sessão com ela e consegue falar de suas dúvidas, medos e sobre o peso da responsabilidade da qual se sente incompetente de possuí-la. Ao sair, numa distração da segurança e da comitiva, foge.

Para que o cardinalato, confinado no Vaticano, não note o sumiço, o assessor arma uma encenação com um membro da guarda suíça. Combina que ele deve ficar nos aposentos destinados ao Papa e faça de conta que está lá: basta que, de quando em quando, mexa nas cortinas e que se movimente para que percebam a sua presença.

O guarda passa os dias comendo e vendo televisão. Enfastiado, fuçando nos objetos do aposento, descobre uns discos. Coloca na vitrola – ou será um tocador de CDs? – um de Mercedes Sosa (leia “Eu vi Mercedes Sosa” em http://bit.ly/vNaUHE). O som atravessa obstáculos, naturalmente: não apenas o “papa” ouve a argentina cantando Todo Cambia; os cardeais, que estão no prédio em frente, também.

Veja a cena. É hilariante.




O trailer oficial.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Eu vi Mercedes Sosa

Sosa esteve no Brasil em 1976
Uma das coisas mais marcantes durante a minha passagem pela USP foi a apresentação de Mercedes Sosa.

Meses depois que entrei na Faculdade de Arquitetura, a Universidede entrou em greve, e a tônica dominante foi a política. Um tanto compulsoriamente ficamos politizados. Vivíamos em assembleias e em formações de grupos de trabalho. Como um Fla x Flu, as tendências se digladiavam. O domínio, na FAU, era o do grupo de linha trotskista, Liberdade e Luta, e o “inimigo” maior, a Refazendo. Nas festas da Libelu tínhamos rock e tropicalistas, nas da Refazendo, samba e Chico Buarque.

Nesse meu primeiro ano – foi em 1976 – quase no fim dele, aconteceu a apresentação de Mercedes Sosa no Anfiteatro da USP, localizado nas franjas do bosque da Biologia. Governava, nessa época, o general Ernesto Geisel. Seu ministro do Exército, Sylvio Frota, aspirava sucedê-lo e isso representava um retrocesso mais à direita ainda. Seu subordinado no II Exército, Ednardo d’Ávila Mello, depois de o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho terem sido mortos nas dependências do DOI-CODI, foi afastado.Os estudantes, em bom número, temiam o recrudescimento da ditadura, e, engajaram-se na luta pelo restabelecimento da democracia e até, por um governo efetivo de esquerda. O chefe de polícia do governador Paulo Egydio era a representação do demônio repressor na figura de um senhor de cabelo escovinha e olhar satânico. Diante do engajamento cada vez maior dos estudantes, a polícia pôs Brucutus (esses veículos eram chamados assim) nas ruas, lançando jatos de água colorida contra os manifestantes. Culminou com a invasão da PUC em 1977, da polícia, quebrando tudo, jogando bombas de efeito moral. Resultado: três estudantes sofreram graves queimaduras. Essa invasão, segundo o Rui (falo dele abaixo), “foi uma represália à realização, em São Paulo, do encontro preparatório à recriação da UNE, quando a Faculdade de Medicina foi cercada, mas os representantes da organização foram liberados como estudantes da faculdade e estes ficaram para ser presos e viabilizar o Encontro.”

Um colega uspiano, depois de feita uma vaquinha para angariar dinheiro, colocou um anúncio da morte do nobre chefe da polícia, na Folha de S. Paulo. O melhor de tudo: muito contrariado, o “doutor” assistiu ao próprio “enterro” da rampa da Escola de Polícia, na entrada da Cidade Universitária. A convocação ao enterro foi uma atitude bem humorada – e moleque até – contra os descalabros e excessos que estavam ocorrendo.

Sosa é considerada uma das maiores propagadoras da música folclórica latina e tem sua imagem ligada à canção de protesto. No ano em que se apresentou no Brasil, Isabelita Perón, viúva do caudilho argentino, a quem substituíra, foi deposta. Assumiu uma junta militar liderada por Jorge Videla. Em 1979, viu sua apresentação ser interrompida na cidade de La Plata. Deixou o país para voltar apenas em 1982, ano que corresponde à derrocada do regime sob o governo do general Leopoldo Galtieri.

A apresentação aconteceu em uma tarde ensolarada de outubro (ou novembro?, não me lembro). Em decorrência da situação política, o fato de Sosa se apresentar em São Paulo e ainda na USP, se revestia de uma importância especial. Representava um ato contra a ditadura. Numa certa altura, duas pessoas do DCE pediram que cantasse uma música de Violeta Parra. Sosa perguntou se se podia cantar uma música proibida. Responderam que o campus da USP era território livre. Cantou La Carta. Em algumas situações, a catarse funciona. Imagine uma situação dessas no meio de estudantes universitários que viviam ou temiam um retrocesso político.

Meu amigo Rui Moreira Leite estava bem próximo de Mercedes. Quando terminou a apresentação, deu-lhe de presente uma xilogravura de sua autoria com duas imagens relacionadas às eleições em Portugal (após a queda do regime salazarista, em 1974, fora aprovada, em abril de 1976, a Constituição, e assim se instaurava o regime democrático). Ganhou um beijo de Mercedes Sosa.

Com a minha memória virando uma peneira, esse relato foi possível graças à memória prodigiosa do amigo Rui, o do beijo de Mercedes.

A música disponibilizada é a conhecida Alfonsina y el Mar, de Ariel Ramirez e Felix Luna. Foi gravada por Sosa em 1969 no disco Mujeres Argentinas. A outra interpretação é a do espanhol El Cigala. Tem gente que não gosta dele. Eu gosto muito.



El Cigala.


Sosa canta La Carta.