quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Bob Dorough, o único cantor que gravou com Miles Davis

O único tema com vocal nos álbuns de Miles Davis foi em Sorcerer (Columbia, 1967). Não estou considerando The Man with the Horn (Columbia, 1981), que marca o retorno do trumpetista depois de cerca de uma década de afastamento. Este disco pode ser tudo, mas essa fase final não é nem uma pálida sombra do que ele fez antes. Miles gravou várias faixas com uma banda de rapazes, se não me engano, na qual seu sobrinho Vincent Wilburn era um dos membros. A música título é cantada por Randy Hall. Você o conhece? Acho que depois dessa participação, voltou ao mundo da insignificância. Fora Tutu e We Want Miles, essa sua última fase, é um lixo.

O autor da façanha e pioneiro se chama Bob Dorough. Mas quem é ele? É mais uma dessas figuras que mereciam ser mais conhecidas. Hoje, considerando-se que nasceu em 1923, com 91 anos, essa possibilidade fica menor, apesar de continuar operante (ainda neste ano lançou Eulalia, aliás muito bom). Quem sabe, completando 100 anos, na ativa, o que é até possível, ganhe algumas linhas em revistas especializadas e sites de jazz como o cantor mais longevo da história.

“Embora negligenciado e ter merecido pouca atenção na maior parte da sua vida…” É assim o início da biografia de Bob no site AllMusic. Perfeito. O “embora” quer dizer que assim mesmo seu estilo peculiar influenciou Mark Murphy, Michael Franks, Mose Allison e Kurt Elling.

Miles Davis foi convidado a participar de um disco de Natal da Columbia intitulado Jingle Bell Jazz, em 1962, em número com Bob Dorough cantando. A música era Blue Xmas. Na ocasião, gravaram também Nothing Like You, composta por Bob, que não tinha nada a ver com o Natal. Passados alguns anos, mais exatamente em 1967, foi lançado Sorcerer, com seu quinteto à época, composto por Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. Não sei se por decisão sua ou do produtor Teo Macero, foi incluída a canção registrada cinco anos atrás. Por essa participação, Bob ficou conhecido como "the only singer to record with Miles Davis”, o que não é pouca coisa.

Ouça Nothing Like You.



Antes, Dorough havia chamado atenção com Devil May Care, que também é o título do álbum lançado em 1956 pela Bethlehem e com Yardbird Suite. Bob foi um dos pioneiros em criar letras para temas do bebop. Miles tinha ouvido a composição de Charlie Parker na versão cantada e tinha gostado. Essa deve ter sido um das razões de ter aceitado participar da faixa Blue Xmas.

Ouça Devil May Care.



Ouça Yardbird Suite.



Em meio a tanta coisa para se ouvir, muitos ficam esquecidos na prateleira. Em razão de ter muitos CDs, às vezes, procuro algo que não ouço há muito tempo. Nem lembrava mais do álbum Songs of Love (Orange Blue, 1987). Acasos podem resultar em boas surpresas, assim como podem ser más.

Ao colocá-lo para tocar, meu pensamento voltou-se para essas personagens consideradas “merecedoras de maior reconhecimento”. Bom pianista, bom compositor, cantor diferente, que foge de qualquer padrão, autor de vocalises e scats originais, Bob é uma delas.

Songs of Love foi tirado de apresentações feitas em Barcelona, em março de 1987. Ao contrário da maioria de seus discos, este é uma coleção de standards bem conhecidos como You Go to My Head, But Beautiful, Darn that Dream, Blame It on My Youth, I Fall in Love So Easily e I Remember You. Bom diferencial é a participação de Clark Terry tocando trumpete e fluegelhorn. Dorough vai pelo conhecido. Os shows devem ter sido muito agradáveis. Esse clima intimista, quase familiar, nos faz imaginar como um de seus espectadores no L’Auditori ou no Caruso, onde foram gravados. Este é um CD que vale a pena ter para conhecer um pouco de Dorough.

Ouça There’s Never Been a Day.




Ouça I Keep Going Back to Joe’s, de Jack Segal e Marvin Fisher, a última do CD.




Outros interessantes
Por muitos, Dorough ficou conhecido de um jeito bem peculiar. No início dos anos 1970, um publicitário teve a ideia de montar um programa musical educacional na rede americana ABC chamado Schoolhouse Rock! Era uma série didática para crianças. A primeira contribuição dele foi com Three Is a Magic Number. Muitos dos que ficaram fãs o conheceram por meio desse programa.

Em um álbum muito bom, o Sunday at Iridium (Arbors, 2004), lembra-se desse tempo cantando Three Is a Magic Number e Electricity, Electricity.

Veja o episódio de Schoolhouse Rock! com Three Is a Magic Number.



Veja o episódio de Electricity, Electricity, cantada por Zachary Sanders.



Outro bom CD, para quem deseja conhecê-lo melhor é Who’s on First?, um duo com Dave Frishberg, outro mestre do piano/vocal. Ambos são ótimos instrumentistas. É um grande disco sem dúvida. É de 1999 e saiu pelo selo Blue Note.

Ouça Rockin’ in Rhythm.



Ouça também Conjunction Junction.



terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Não fume na cama com kd lang

Aparentemente, lang não fuma
Uma das minhas canções favoritas é Don’t Smoke in Bed. Esse texto é antigo e foi publicado no blogue do Paulo Moreira Leite, quando era chefe da sucursal de Brasília da revista Época, portanto, há um bom tempo. Lembrei-me da música ao ver uma foto de Marilyn Monroe fumando na cama (veja a foto no fim do post). Fiz alguns acréscimos como, por exemplo, a de Nina Simone.


A cruzada de José Serra contra fumar em locais fechados, transformada em lei, junto com a possibilidade de multa e cadeia por dirigir alcoolizado resultou em grandes mudanças em São Paulo. Isso muda a paisagem, com pessoas andando nas ruas com cigarros na mão, braços para fora dos carros com aqueles tocos brancos fumegantes, pequenas aglomerações na frente de prédios comerciais. Sem tomar partido e saindo do real e entrando um pouco na fantasia, que belas imagens o cigarro nos deu no cinema! Cenas inesquecíveis de Humphrey Bogart com o cigarro pendurado no canto da boca, belas mulheres segurando-o sensualmente suas piteiras e aqueles desenhos sinuosos que as cinzas construiam de encontro com a luz e fundos escuros. Era um “chiaroscuro” muito diferente das que vemos nas pinturas renascentistas de um Caravaggio ou de um Rembrandt. A fumaça é o elemento de contraste, por excelência, dos filmes “noir” dos anos 1950.

A cantora kd lang não está no meu panteão de cantoras, certamente. No entanto é autora de versões definitivas de algumas músicas, principalmente daquelas que foram cantadas por outras: comparações são um bom parâmetro de avaliação. Na minha opinião, não existe melhor versão de Don’t Smoke in Bed, um clássico das “torch songs”, composta por Willard Robison. A dramaticidade com o que ela canta é do tamanho da dor que a letra passa. Na hora em que canta “don’t look for me / I’ll get a hand / Remember darling / Don’t smoke in bed”, arrepia. Cometo a imprudência de dizer que sua versão é melhor do que a de Nina Simone. A letra é um primor do abandono simbolizado pelo anel de casamento deixado e pela advertência: “não fume na cama” (reproduzo a letra no fim do texto). Outras conhecidas são cantadas por gente do calibre de Julie London, Peggy Lee, e das “modernas” Holly Cole, Patti Smith e Carly Simon, de quem falo mais adiante.

Simon, vestida para matar
Todas as canções de Drag referem-se ao cigarro. É uma espécie de “disco-conceito”, como é também o pioneiro álbum Only the Lonely, de Frank Sinatra. A capa é uma grande sacada: é kd, meio andrógina, vestida com um um costume masculino em pose de quem segura um cigarro, mas sem ele.

Outra versão que, se não é definitiva, está entre as melhores – e olhe que existem centenas ou até milhares de registros dela –, é a de So in Love, contida no dvd e cd Red, Hot + Blue, gravado em prol das pesquisas para a cura da Aids. Com algum esforço, ainda é possível encontrar o dvd, que tem vários clássicos da música americana dirigidos por gente como Wim Wenders, Percy Adlon, Jim Jarmusch e Neil Jordan e interpretados por David Byrne, Aztec Camera, Sinead O’Connor, Debbie Harry, Tom Waits, U2 e Annie Lennox. Não é pouco. Outro cd de lang, Hymns of the 49th Parallel, contém apenas canções de seus conterrâneos canadenses Neil Young, Leonard Cohen, Jane Siberry e Joni Mitchell. A Case of You, de Mitchell, Helpless, de Young e Hallelujah, de Cohen, valem uma atenciosa audição.

Quase tão bom quanto o registro de kd lang de Don’t Smoke… é o de Carly Simon. Nessa onda que se torna maçante, que é a de se gravar álbuns com clássicos americanos – Rod Stewart parece ter esquecido que é um cantor pop e, pensando na grana, gravou vários cds após o sucesso de sua primeira investida no gênero –, uma das primeiras cantoras do universo pop a embarcar nessa ideia foi ela. Torch, gravado em 1981 pela Warner Bros Records, possui preciosidades como I’ll Be Around (Alec Wilder), de 1942, o clássico ellingtoniano, I Got It Bad and That Ain’t Good, de 1941, I Get Along without You Very Well (Hoagy Carmichael), de 1939, Spring Is Here (Rodgers & Hart), de 1938, e Body and Soul (Heyman, Sour, Eyton e Green), de 1930, além de músicas da década de 1950 como Pretty Strange (Jon Hendricks e Randy Weston) e Not a Day Goes By (Stephen Sondheim), da década de 1980. Numa roupagem que pode assustar os mais empedernidos fãs de jazz, com arranjos de Mike Manieri, que toca marimba em algumas faixas e Warren Bernhardt no piano elétrico e sintetizadores, mesmo assim, agrada aos ouvidos de bom gosto. Tudo bem, tem o sax alto chatinho de David Sanborn, mas, em contrapartida, tem o do brilhante Phil Woods. Torch, como como nos induz o título, é um disco de dor de cotovelo e de corno, como as músicas rodrigueanas – refiro-me a Lupicínio e não ao grande dramaturgo Nelson Rodrigues. Bem nesse espírito, a composição da própria, From the Heart, é uma peça que merece estar no repertório desse gênero. Amigão, se você não se emocionar com essa música, corra para o seu psiquiatra, pois você está arriscado a estar sofrendo de palidez afetiva.

Além de Torch, não sei se por motivos comerciais ou emocionais, gravou mais um álbum com conceito semelhante: Film Noir, em 1997, pela Arista. Pelo título já dá para desconfiar. O clima do disco remete à fatal Gilda – “nunca houve uma mulher como Gilda” – a Lauren Bacall, a Humphrey Bogart e seu indefectível – já que o título se refere a ele – cigarro, à cara “feia” de Robert Mitchum surgindo das trevas e aos heróis amargurados e atormentados do cinema “noir”, estilo que dominou os anos pós-Segunda Guerra. No CD estão presentes a música tema do filme Laura, protagonizado pela inesquecível Gene Tierney e dirigido por Otto Preminger, o clássico alemão desse período, Lili Marlene e I’m a Fool to Want You, música símbolo de “dores de amores” e que se encaixa bem à fase em que Frank Sinatra viveu a perda de Ava Gardner; esta música está em Where Are You?, que com Only the Lonely, são daqueles discos para ouvir e sentar na sarjeta ou recostar-se no poste e chorar convulsivamente.

Para quem se interessar, transcrevo a letra de Don’t Smoke in Bed:

I left a note on his dresser
And my old wedding ring
With these few goodbye words
How can I sing
Goodbye old sleepy head
I’m packing you in like I said


Take care of everything
I’m leaving my wedding ring
Don’t look for me
I’ll get a hand
Remember darling
Don’t smoke in bed


Don’t look for me
I’ll get a hand
Remember darling
Don’t smoke in bed

Veja kd lang cantando Don’t Smoke in Bed, em 2001, no programa de Jools Holland. Preste atenção no piano. Muito bom.




Carly Simon canta Don’t Smoke in Bed




Ouça também a de Nina Simone, considerada por seus fervorosos fãs, a melhor. Eu discordo. kd lang é imbatível.




A inesquecível Marilyn na cama… fumando.