O autor da façanha e pioneiro se chama Bob Dorough. Mas quem é ele? É mais uma dessas figuras que mereciam ser mais conhecidas. Hoje, considerando-se que nasceu em 1923, com 91 anos, essa possibilidade fica menor, apesar de continuar operante (ainda neste ano lançou Eulalia, aliás muito bom). Quem sabe, completando 100 anos, na ativa, o que é até possível, ganhe algumas linhas em revistas especializadas e sites de jazz como o cantor mais longevo da história.
“Embora negligenciado e ter merecido pouca atenção na maior parte da sua vida…” É assim o início da biografia de Bob no site AllMusic. Perfeito. O “embora” quer dizer que assim mesmo seu estilo peculiar influenciou Mark Murphy, Michael Franks, Mose Allison e Kurt Elling.
Miles Davis foi convidado a participar de um disco de Natal da Columbia intitulado Jingle Bell Jazz, em 1962, em número com Bob Dorough cantando. A música era Blue Xmas. Na ocasião, gravaram também Nothing Like You, composta por Bob, que não tinha nada a ver com o Natal. Passados alguns anos, mais exatamente em 1967, foi lançado Sorcerer, com seu quinteto à época, composto por Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. Não sei se por decisão sua ou do produtor Teo Macero, foi incluída a canção registrada cinco anos atrás. Por essa participação, Bob ficou conhecido como "the only singer to record with Miles Davis”, o que não é pouca coisa.
Ouça Nothing Like You.
Antes, Dorough havia chamado atenção com Devil May Care, que também é o título do álbum lançado em 1956 pela Bethlehem e com Yardbird Suite. Bob foi um dos pioneiros em criar letras para temas do bebop. Miles tinha ouvido a composição de Charlie Parker na versão cantada e tinha gostado. Essa deve ter sido um das razões de ter aceitado participar da faixa Blue Xmas.
Ouça Devil May Care.
Ouça Yardbird Suite.
Em meio a tanta coisa para se ouvir, muitos ficam esquecidos na prateleira. Em razão de ter muitos CDs, às vezes, procuro algo que não ouço há muito tempo. Nem lembrava mais do álbum Songs of Love (Orange Blue, 1987). Acasos podem resultar em boas surpresas, assim como podem ser más.
Ao colocá-lo para tocar, meu pensamento voltou-se para essas personagens consideradas “merecedoras de maior reconhecimento”. Bom pianista, bom compositor, cantor diferente, que foge de qualquer padrão, autor de vocalises e scats originais, Bob é uma delas.
Songs of Love foi tirado de apresentações feitas em Barcelona, em março de 1987. Ao contrário da maioria de seus discos, este é uma coleção de standards bem conhecidos como You Go to My Head, But Beautiful, Darn that Dream, Blame It on My Youth, I Fall in Love So Easily e I Remember You. Bom diferencial é a participação de Clark Terry tocando trumpete e fluegelhorn. Dorough vai pelo conhecido. Os shows devem ter sido muito agradáveis. Esse clima intimista, quase familiar, nos faz imaginar como um de seus espectadores no L’Auditori ou no Caruso, onde foram gravados. Este é um CD que vale a pena ter para conhecer um pouco de Dorough.
Ouça There’s Never Been a Day.
Ouça I Keep Going Back to Joe’s, de Jack Segal e Marvin Fisher, a última do CD.
Outros interessantes
Por muitos, Dorough ficou conhecido de um jeito bem peculiar. No início dos anos 1970, um publicitário teve a ideia de montar um programa musical educacional na rede americana ABC chamado Schoolhouse Rock! Era uma série didática para crianças. A primeira contribuição dele foi com Three Is a Magic Number. Muitos dos que ficaram fãs o conheceram por meio desse programa.
Em um álbum muito bom, o Sunday at Iridium (Arbors, 2004), lembra-se desse tempo cantando Three Is a Magic Number e Electricity, Electricity.
Veja o episódio de Schoolhouse Rock! com Three Is a Magic Number.
Veja o episódio de Electricity, Electricity, cantada por Zachary Sanders.
Outro bom CD, para quem deseja conhecê-lo melhor é Who’s on First?, um duo com Dave Frishberg, outro mestre do piano/vocal. Ambos são ótimos instrumentistas. É um grande disco sem dúvida. É de 1999 e saiu pelo selo Blue Note.
Ouça Rockin’ in Rhythm.
Ouça também Conjunction Junction.



