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quinta-feira, 29 de março de 2018

O melhor está na ECM – lançamentos de fevereiro

Em relação aos primeiros lançamentos do ano da ECM, iniciei com comentários sobre álbuns em que bateristas aparecem como líderes. Era uma introdução para “Lucus”, de Thomas Strønen. Na segunda leva, um dos álbuns, novamente, é de um baterista, este, uma novidade para mim, a começar por ser de um japonês. Bom, para início de conversa, orientais têm a fama de serem péssimos ritmicamente. Não têm samba no pé, diriam os brasileiros. É um pouco injusto. Orientais podem ter dificuldades de captar a batida de um samba, mas é bem conhecida o taikô, do folclore japonês; é uma outra cultura da percussão.

Shinya Fukumori
, que faz sua estreia na ECM, pode ser inserido mais até dentro da tradição ocidental. A maioria dos temas é de autoria de Fukumori e quatro de conterrâneos seus, mas é impossível associar-se à música tradicional japonesa. Mais ou menos na linha de Thomas Strønen e Paul Motian, é um baterista menos pirotécnico, que prefere explorar as sutilezas sonoras do instrumento. É um álbum surpreendente: 4 estrelas e meia, na minha opinião; a Downbeat deu 3 e meia.

A banda é composta por Matthieu Bordenave (belo sax tenor), Walter Lang (piano) e Fukumori na bateria.

Veja o teaser. A animação é muito boa também.




Norma Winstone
Existem alguns pontos em comum entre o pacote de janeiro e fevereiro. Uma é dos bateristas. A outra, que pode ser apenas uma coincidência, é quanto aos títulos. Se no anterior, o nome do álbum de Bobo Stenson é “Contra la Indecisión”, neste, o novo de Norma Winstone chama-se “Descansado: Songs for Films”. O trio Norma, Klaus Gesing e Glauco Venier lançou “Distances” (2008), “Stories to Tell” (2010), e “Dance Without Answer” (2014), todos sublimes. No mais recente entrou um percussionista (Helge Andreas Norbakken) e um violoncelista (Mario Brunello).

Composto por temas de filme, como “The Thomas Crown Affair”, “Vivre sa vie”, “Malena”, “Amarcord”, “Il Postino”, e outros, decepciona um pouco, se comparado aos anteriores. É um disco “descansado”, meio carente de contrastes. Mesmo um tema romântico e dramático como o de “Romeu e Julieta”, de Nino Rota, soa um tanto frio. Mas é uma boa introdução para quem não conhece o trabalho da cantora veterana inglesa.

Como a ECM não disponibilizou algum teaser, para você conhecer a música do trio, veja-os em “Dance Without Answer”, de 2014.




Nicolas Masson
As capas dos discos da ECM são quase sempre de paisagens invernais, que de certo modo, representam visualmente o som produzido pelo cast de Manfred Eicher. “Travelers”, de Nicolas Masson, não foge à regra. É a excelência da pureza do som, tendo ao lado de seu sax ou a clarineta, Colin Vallon como pianista, Patrice Moret no contrabaixo e Lionel Friedli na bateria. Para quem gosta até de bolero e tango, como eu, sente falta de um pouco daquela “emoção”, da surpresa de descer uma duna em curva e em velocidade. Masson nos proporciona a beleza vista pela janela em um dia de inverno severo.

Veja o clip de “Gagarine”, a que abre o disco.

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Andy Sheppard
Como sempre, deixo por último o melhor do pacote. O inglês é um veterano da cena europeia, mais conhecido por ter participado de várias bandas de Carla Bley. Gravou o primeiro para a ECM “Movements in Colour” (2008), “Trio Libero” (2010), com Michel Benita e Sebastian Rochford, “Surrounded by Sea” (2015), e “Romaria”, que acaba de ser lançado. Nos dois últimos, que são os melhores, o quarteto é complementado por Elvind Aarset, na guitarra e efeitos eletrônicos, e os mesmos Benita, no baixo e Rochford, na bateria. Em “Trio Libero”, a não participação de Aarset representa uma boa diferença no conceito do som.

Bom, o título “Romaria” remete a alguma lembrança? Pois é a clássica composição de Renato Teixeira. Todas as restantes são do inglês. Não poderia deixar de ser um dos destaques do álbum. Ouça aqui. É muito bela. No álbum, houve uma inversão dos títulos, e a terceira é a quarta, e esta é a terceira. Muitos ouvintes vão pensar que chama-se “Pop”, inclusive quem postou no YouTube.




Sua apresentação na Fnac de Lisboa, que fica no Chiado é razoavelmente longa, com Sheppard solando com ele mesmo. Mais ou menos no minuto 15, toca “Romaria”. Bem interessante.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Paul Bley, o homem que amou suas mulheres

Já notaram como acontecem mortes em dezembro? Nada acaba senão o ano e inicia-se outro, mas o mês é marcado por alguma força simbólica que faz com que as pessoas fiquem mais estressadas, caiam em depressão, planejem fazer diferente a partir do mês seguinte. 

Uma significativa foi a de Cassia Eller em 29 de dezembro de 2001. Em pleno clima de festa, entre o Natal e a passagem do ano, morre subitamente. Em certo momento, passei a prestar atenção. Músicos como Dave Brubeck (5), Cesária Évora (17), Sam Rivers (26), Bob Brookmeyer (16), Ravi Shankar (11), Kurt Masur (19), Natalie Cole (31), atores, como Sérgio Brito (17), Rodolfo Bottino (11), artistas plásticos, como Helen Frankenthaler (27), Elsworth Kelly (27), Mário Gruber (30), arquitetos, como Oscar Niemeyer (5), jornalistas e escritores como Christopher Hitchens (15), Daniel Piza (30), Christa Wolf (1), e o cartunista Ronald Searle (30, todos morreram em dezembro. É mais traumático ainda quando acontece bem próximo às festas de fim de ano.

Como a temporada de chuvas, que, às vezes, se antecipa, ou atrasa, dessa vez, foram poucos os nomes conhecidos a falecer no mês: dos citados, apenas o maestro Kurt Masur, a cantora Natalie Cole e o pintor Elsworth Kelly; mas, iniciado o ano, temos os falecimentos do maestro e compositor Pierre Boulez (5), David Bowie (10) e Paul Bley (3). Cada qual em sua área, foram protagonistas, principalmente os dois primeiros.

O pianista Paul Bley é mais conhecido apenas por aqueles que têm um conhecimento acima do básico no jazz. É uma figura importante e esteve na vanguarda das transformações que ocorrem a partir de meados dos anos 1950s. Teve seu primeiro disco lançado em 1953, ou seja, há mais de 60 anos. E não foi um início qualquer. Introducing Paul Bley saiu pela Debut Records e completavam o trio nada menos que Charles Mingus e Art Blakey. Nos anos formativos, tocou ainda com Charlie Parker, Lester Young e Ben Webster.

O free jazz estava sendo gestado na banda em que fez parte com Don Cherry, Ornette Coleman, Charlie Haden e Billy Higgins. Participou também de outra formação importantíssima nas mudanças que aconteciam. Foi o pianista da banda formada por Jimmy Giuffre, Jim Hall e Steve Swallow. O nome do canadense está também associado ao Jazz Composers Guild, movimento de vanguarda novaiorquino que teve como expoentes Roswell Rudd, Cecil Taylor, Archie Shepp, Carla Bley, Michael Mantler e Sun Ra.


Annette Peacock e Carla Bley

As melhores performances de Paul, na minha opinião, são as da década de 1960. Três álbuns da Arista Freedom, em formato trio, são excepcionais: Touching (1965), Blood (1966) e Live in Harleem (1966). Com Kent Carter ou Barry Levinson no baixo, Barry Altschull na bateria, sua música é pura energia, com improvisos bem no espírito do free jazz. Compositor também, privilegiou obras de Karen Borg, conhecida com o nome artístico de Carla Bley, sua mulher desde 1957, e de Annette Peacock, com quem se casaria em 1966.

Enquanto muitos dos músicos dessas vanguardas estavam a explorar novas sonoridades por meio de instrumentos acústicos, nos últimos anos dos 1960, os interesses de Paul Bley se direcionaram para um novo instrumento, o Moog, o primeiro sintetizador a surgir, ainda analógico, inventado por Robert Moog.

Com Annette sobrenome de seu ex-marido Gary Peacock, amigo e companheiro de Paul nas aventuras musicais, sua mulher então, lançou Dual Unity, em 1970. O disco é cheio de experimentações com sintetizadores Moog, piano acústico e elétrico. É interessante por isso, mas é um tanto datado, ouvido agora.

Já a fase elétrica em que Paul é líder sem Annette, é menos radical. Os destaques são Paul Bley & Scorpio, pela gravadora Improving Artists Inc, criada por ele e Carol Gross, com quem casaria em 1980, e Jaco (IAI 1974), com Jaco Pastorius e Pat Metheny em início de carreira.


Ouça Donkey, deste álbum. Foi composta por Carla Bley.




Em 1970, Paul Bley passou a lançar discos pela ECM. Provavelmente, são os trabalhos mais conhecidos do pianista pela penetração que esta gravadora conseguiu nos mercados europeu e americano. Prolífico, concomitantemente gravou na italiana Soul Note, na dinamarquesa SteepleChase, na francesa Owl, e na canadense Justin’Time. O que há em comum em todos os discos de Bley, e o que era fato, desde meados da década de 1960, sua preferência pelo repertório das ex-mulheres Carla Bley e Annette Peacock. Repetindo indefinidamente clássicos de Carla como Vashkar, Ida Lupino, Seven, Olhos de Gato e Ictus, dentre outras, e El Cordobés, Blood, Cartoon, Mister Joy e Touching, de Annette Peacock, Paul demonsstrou o grande amor musical que nutriu por suas ex-mulheres. É uma obra prima atrás da outra.

Ouça Olhos de Gato, Carla.




Outro grande clássico é Seven, de Carla.




De Annette, ouça Blood, do álbum Jaco.




Os primeiros álbuns na ECM ainda eram inquietantes, diferentes. Aos poucos, entrou no espírito ECM, o que não quer dizer que tenha ficado chato. Mas aí é outra história: Bley resolveu, como diria o poeta, “ser eterno”. Mas nunca perdeu a excelência.