sábado, 14 de janeiro de 2012

Sebastiana

Sebastiana é a de cabelo branco, no centro da foto
Hoje, 14 de janeiro de 2012, Sebastiana – ou Sebastianinha, como, carinhosamente, Key Farias, sua caçula, a chamava –, completaria 86 anos. A imagem ao lado é da última vez em que todos se reuniram em torno dela, no Natal de 2010.

Sebastiana tinha um coração tão grande que acolheu, além de seus dez filhos, pessoas que depois ficaram conhecidas por terem trabalhado no governo do Estado de São Paulo, como Edson Tomás de Lima, que, carinhosamente, era e é conhecido, simplesmente, como Edsinho, e o, hoje, deputado federal, Edson Aparecido.

Mario Covas tinha um de seus filhos, o Tião Farias, como um dos seus. Tratava Sebastiana com o mesmo carinho que nutria por ele. Tião foi secretário de governo de Covas e é, atualmente, vereador da cidade de São Paulo. Silenciosamente, pessoa de personalidade forte e de coração grande, como o de sua mãe, faz um grande trabalho por essa metrópole indomável chamada São Paulo. Mas Tião Farias é um cara de fibra e, contra tudo e todos, acha que São Paulo tem solução. Tião é filho de Sebastiana, mulher forte, nordestina, que foi amada pelos filhos, netos e amigos.

O coração de Sebastiana podia acolher o mundo. É uma pena não tê-la conhecido. Falam tão bem dela que, penso: “queria ter conhecido essa mulher”. O Edsinho me disse uma vez, referindo-se a uma das filhas: “se ela tiver 25% da mãe, ela é perfeita.”

A única homenagem que posso fazer, por hora, a essa mulher, é deixar nesse breve texto, uma de suas músicas preferidas.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Till Brönner, um alemão brasileiro

Capa do CD Rio
O CD Rio, de Till Brönner, como já dá para imaginar, é voltado à música brasileira. A produção é de Larry Klein, baixista também, ex-marido de Joni Mitchell e atual da cantora Luciana Souza. Produtor craque, é responsável por uma das “viradas” da ex-mulher – Joni – e por bons discos de Melody Gardot, Madeleine Peyroux e, naturalmente, Luciana (sobre ele, leia em http://bit.ly/zHzHg6).

Rio abre com Mistérios, com uma dupla improvável e bela: Annie Lennox e Milton Nascimento nos vocais. Não é tão boa quanto àquela que Milton gravou em Clube da Esquina 2, mas vale pela diferença e pelo estilo tão característico da parte feminina do finado Eurythmics.

A segunda, Que Será, Que Será?, de Chico Buarque, é cantada por Vanessa da Matta em versão sob uma base rítmica que privilegia o violão, a bateria e uma discreta marcação de baixo e, em plano secundário, acordes esporádicos do piano e do órgão . Não falta o solo de Brönner ao trumpete, em linhas fáceis e agradáveis.

E não é que Brönner podia passar por brasileiro? Seu Só Danço Samba é cantado em um português com pouquíssimo sotaque. A voz de Aimee Mann só valoriza Once I Loved (Amor em Paz). É um destaque. Tarde, de Milton Nascimento, no original, é climática, meio sombria, e aqui, é cantada em inglês por Luciana Souza. Na “balançada” Ela é Carioca, para minha surpresa, quem canta é Sérgio Mendes. High Night (Alta Noite), de Arnaldo Antunes, é cantada por Melody Gardot (leia em http://bit.ly/gkVOri). Passável. Café com Pão, de João Donato, tem uma cozinha bem samba e, mais uma vez, tem Brönner como cantor: é, ele surpreende na boa dicção. Tem voz pequena, afinada e até puxa um sotaque carioca. Lígia é fraca. Só instrumental, concorre desleamente com a sublime versão de Stan Getz no sax tenor. Brönner não ousa no trumpete e no flugelhorn, em nenhum momento.

Sim ou Não, de Djavan, é interpretada pelo cantor que é considerado o melhor do jazz, atualmente: Kurt Elling. Canta em português, algo que não faz pela primeira vez; já cantou Luíza, de Antônio Carlos Jobim, e Rosa Morena, de Dorival Caymmi. A Rã, de João Donato, é bela de qualquer jeito. O alemão não faz feio. É suingada: dá para mexer os quadris. Till ataca de novo como cantor em Bonita, mas em inglês (“You are bonita, bonita”; engraçado, às vezes, essas misturas do português com o inglês); o piano do brasileiro Fábio Torres, presente em todas as faixas, aqui, é bem jobiniano. E o CD é “fechado” com um balançado Aquelas Coisas Todas (Toninho Horta, grande Toninho Horta!), novamente, com participação de Luciana Souza nos vocalises e scats, em dupla com Till.

Rio é mais um disco de um estrangeiro gravado com participação de vários brasileros. É bem produzido, como qualquer coisa em que o nome de Larry Klein esteja envolvido.

Ouça Mistérios, com Annie Lennox e Milton Nascimento.


O link do CD At the End of the Day para download: http://www.mediafire.com/?8ansof03jkpc1xe
Vale a pena ouvir; é melhor que Rio.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Till Brönner, um alemão no jazz

Till Brönner e seu trumpete
Não existe aquela expressão: “tem japonês no samba”? Se a referência for eu – não tenho a mínima noção de ritmo –, cabe bem. Mas tem alemão no jazz. E daí? E não tem polonês, tcheco, eslovaco, sérvio e indiano no jazz? A música é a linguagem mais universal e mais globalizada (desculpe-me pelo uso dessa expressão, hoje, tão démodée). É uma só, com diferentes sotaques; é uma espécie de esperanto sonoro.

O jazz fincou pé na Europa antes até da Segunda Guerra Mundial. É uma linguagem que nasceu nos EUA e se propagou por meio de americanos que emigraram para o Velho Mundo, principalmente, depois da Segunda Guerra, onde, ao contrário do país de origem, não eram discriminados racialmente. 

Junto à leva de intelectuais, escritores (e pretendentes a), nos “roaring twenties”, havia uma Josephine Baker, dançarina e cantora que encantava parisienses e estrangeiros que lá estavam. Duas figuras dessa época são fundamentais: o belga cigano Django Reinhardt (é referência, até hoje, quando se fala de guitarra), e o violonista Stéphane Grappelli.

A presença militar americana pode ter sido também fundamental à consolidação do jazz. À maneira das big bands, como a do notável e legendário Glenn Miller, desparecido em 1944, quase no fim da guerra, esse formato se expandiu tremendamente. Qualquer cidadezinha inglesa tinha a sua para alegrar os corações sofridos e servir de “pretexto” para aplacar a explosão de hormônios dos jovens.

Mesmo em países que sofreram o jugo do domínio soviético, o jazz floresceu. Alguns emigraram, como Miroslav Vitous, Gabor Szábo e Aladár Page. A queda do Muro de Berlim mostrou que, sob a cortina de chumbo, a música fervilhava em pequenos bares. Hoje, é impressionante o número de talentos revelados na Polônia, por exemplo. Da Escandinávia, nem se fala, mas não serve como exemplo de região que viveu debaixo do jugo de regimes totalitários. Na década de 1960, a Dinamarca fervia no lendário Cafe Montmartre, em Copenhagen.

A Alemanha exerceu importância fundamental para a expansão dos limites do jazz. Músicos, como Manfred Schoof, Alexander von Schlippenbach, Albert Mangelsdorff e Peter Brötzmann, simplesmente, esgarçaram os limites da linguagem jazzística. Um país que produziu Brahms, Bach e Beethoven só tinha que continuar a contribuir para a evolução da música.

Descendo alguns degraus, existe um tipo de música que, antigamente, era chamada de “easy listening”. O alemão Till Brönner (enrolei, enrolei e só agora falo dele) não é o melhor exemplo dessa linha evolutiva à qual me refiro; não tem um décimo da relevância de seus pares citados no parágrafo acima. Mas é que andei ouvindo o seu At the End of the Day, lançado em 2010, e, confesso, me agrada bastante. É “easyíssimo” listening. Tem um belo And I Love Her, de Lennon & McCartney, mas bacana mesmo é um cover de Everybody’s Got to Learn Sometime, do The Korgis.

Sem dúvida, tocando trumpete e cantando, a primeira lembrança é Chet Baker. Em segundo lugar, lembra um pouco o cantor e guitarrista John Pizzarelli. Faz parte de uma linhagem que vem sendo explorada bastante pelo mercado. O curioso desses exemplos é que, quase sempre, produzem uma música fácil, sem deméritos, de grande apelo comercial. Ao mesmo tempo que alguns continuam a trilhar por vias mais radicais, seguindo caminhos que procuram “esgarçar” os limites da música, outros – e não são poucos – resolveram se voltar à instrumentação acústica, mas sempre perseguindo evoluções na linguagem musical. Uma terceira via vai por um viés mais comercial mesmo Sem criticar, esse tipo de música pode ser agradável. Às vezes, é o que nós queremos: uma música sem grandes pretensões que possamos ouví-la, enquanto comemos ou, mesmo que estejamos ouvindo um som no meio de um trânsito infernal.

Bem, falei, falei e não disse muita coisa sobre Till Brönner. Em algum post posterior, comentarei com mais detalhes o CD Rio, no qual o alemão tem a companhia de Annie Lennox, Milton Nascimento, Kurt Elling e Sergio Mendes dentre outros.

And I Love Her.



Everybody’s Got to Learn Sometimes.



A mesma música, no original, com The Korgis.



Curiosidade: ela na interpretação de Beck (em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças)