Entre Sam Cooke e Otis Redding encontra-se Arthur Conley. Ou melhor, encontravam-se.Todos estão mortos; dois em circunstâncias trágicas e Arthur, desaparecido em 1980, ou melhor, 2003. Em 1975, Conley mudou-se para a Inglaterra. Passou um tempo na Bélgica e fixou residência na Holanda a partir de 1980. Além de mudar de casa, resolveu mudar de nome. Passou a se chamar Lee Roberts. Apesar de ter gravado sob a nova “identidade”, foi ficando cada vez mais empresário e menos cantor. A segunda morte de Conley foi em consequência de um câncer no cólon, com 56 anos.
Conley montou a banda Arthur & the Corvets em 1963. Não fez muito sucesso. Disseram que tinha a voz muito parecida à de seu ídolo Sam Cooke, um dos astros do rhythm’n’blues da época. Eram parecidas mesmo, assim como a de outro cantor que lhe surgiria no caminho: Otis Redding.
Em 1964, ano em que Cooke morreu assassinado (leia em http://bit.ly/1jgFAKe), Otis era uma estrela em ascensão. Havia lançado These Arms of Mine, que foi incluído em Pain in My Heart, seu primeiro LP. Rufus Mitchell, proprietário de um selo de discos, impressionado com a voz de Arthur, apresentou uma gravação de Arthur. Melhor, impossível. Não só assinou um contrato com uma subsidiária da Atlantic como teve Otis como produtor. Lançado o álbum Sweet Soul Music, Conley tinha as portas abertas para o sucesso. Em 1967, no auge, Redding morreu em um acidente aéreo. Conley era o sucessor de Sam Cooke e Otis Redding.
A morte do mentor e amigo poderia significar o retorno aos tempos difíceis. Mas Conley continuou e a emplacar sucessos nas paradas do R&B. Sua carreira começou a declinar em razão da irregularidade dos lançamentos. Resolveu mudar para a Inglaterra. Era a senha para o esquecimento paulatino desse nome importante da música soul e do R&B.
Veja Conley cantando Sweet Soul Music em um programa de televisão.
Veja-o cantando Whole Lotta Woman.
Ouça I’m a Stranger, uma das minhas preferidas.
A homenagem de Conley a Otis Redding: Otis Sleeps on.
Quando A Change Is Gonna Come foi lançada, em 1964, seu autor, Sam Cooke, não pôde ouvi-la nas rádios. É que fora lançada duas semanas após a sua morte. Não fez sucesso à época, parece, mas, hoje, é um dos standards do repertório de Cooke e da música popular, parte talvez em razão de ter se tornado o “hino” do movimento americano pelos Direitos Civis. No início dos anos 1960 vigorava ainda a regra da segregação dos negros em relação aos brancos na utilização de banheiros públicos e em ônibus ou quaisquer tipos de transporte. Muitos hotéis não aceitavam negros. E era acintoso, com cartazes afixados com a frase “whites only”.
No dia 8 de outubro de 1963, excursionando pelo sul dos EUA, Cooke e seu grupo foram presos sob a alegação de terem provocado um distúrbio em um hotel em Shereveport, Louisiania. Tinha lá o “famoso” cartaz. Três são as referências para que Cooke se inspirasse para compor A Change Is Gonna Come. Uma foi esse incidente, outro foi o impacto que lhe causou Blowin’ the Wind, de Bob Dylan – ficara impressionado que um “branco pudesse ter escrito uma canção como aquela”; palavras dele –, e a morte do filho de 18 meses por afogamento, em junho do mesmo ano.
Desde 1957, Sam tinha emplacado 18 músicas entre as “30 Top Hits”. Fazia sucesso entre brancos e negros com canções mais “light” que A Change Is Gonna Come. Quem sabe, esta pode ter sido a razão de não ter ido para o topo das paradas de sucesso. Hoje, no entanto, é considerada um clássico. A revista Rolling Stone, em “500 Greatest Songs of All Time” (dezembro de 2004), classifica-a como a 12ª, à frente de Yesterday, de Lennon e McCartney, Blowin’ the Wind, de Bob Dylan, e London Calling, de The Clash.
A Change Is Gonna Come foi gravada depois por dois grandes intérpretes: Otis Redding e Aretha Franklin (leia em http://bit.ly/X8NI4y). Repito as coincidências trágicas com Sam e Otis: o primeiro foi assassinado em 11 de dezembro de 1963 (os detalhes estão no link que eu passei), e o segundo morreu em um acidente aéreo com seu avião particular em 10 de dezembro de 1967. Redding também não pôde presenciar o sucesso de um de seus grandes clássicos; (Sittin’ on the) Dock of the Bay.
Anos depois, ou melhor, décadas, ouço um álbum de uma intérprete sueca cantando clássicos americanos, lançado por uma gravadora alemã, a ACT Music + Vision. Por linhas completamente tortas “cheguei” em Ida Sand. Quando assisti à apresentação do pianista Vijay Iyer (sobre ele, leia http://bit.ly/WnAjas), com Rudresh Mahanthappa, em São Paulo, num festival de jazz, comprei discos de ambos. E eram da ACT Music. Por curiosidade, passei a explorar o catálogo do selo alemão e percebi que havia muita coisa boa. A maioria do cast é de europeus, muitos, escandinavos.
Ida Sand é uma cantora, e pianista também, de origem sueca. Fui de curioso pela seleção em The Gospel Truth. A Change Is Gonna Come, de Sam Cooke, uma das minhas favoritas do gênero soul era uma delas. Outra era God Only Knows, de Brian Wilson, dos Beach Boys. Uma nova geração de músicos mais jovens ligados ao jazz como John Pizzarelli e Jamie Cullum a descobriram. A de Pizzarelli vi numa das vezes em que esteve no Bourbon Street, em São Paulo. Sand incluiu também outra que gosto muito: Ain’t No Sunshine, de Bill Withers (ouça-a cantada pelo próprio e por Melody Gardot em http://bit.ly/XNvf1T), além de Have a Talk with God, de Stevie Wonder, e He Ain’t Heavy, He’s My Brother, de Bobby Scott e Bob Russell, popularizada pela versão de The Hollies.
Ouça Ain’t No Sunshine, com Ida.
A voz de Ida Sand lembra um pouco a de Annie Lennox. The Gospel Song é um disco muito agradável. Está disponível na iTunes Store. Custa US$ 10.99.
Ouça A Change Is Gonna Come.
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É questão de observar o ano em que A Change Is Gonna Come foi gravada por Otis Redding; e o ano em que Aretha Franklin gravou. Essa não é a única que ambos gravaram. Ou quando gravaram Respect. Franklin explodiu mesmo foi quando passou a gravar pela Atlantic Records, a mesma de Redding (a Stax/Volt era subsidiária da Atlantic). Será que ocorreu a algum produtor espertalhão fazer uma versão feminina de Redding? Gravadoras adoram fabricar ou amoldar talentos de um jeito e assim ganharem muito dinheiro.
Uma canção, pelo menos, foi gravada antes por Aretha: Try a Little Tenderness. Ela é bem antiga: de 1932. Foi composta por Jimmy Campbell, Reg Connelly e Harry M. Woods e a primeira gravação foi pela orquestra de Ray Noble. Apesar de bela nas vozes de Mel Tormé, Frank Sinatra, Nina Simone e Aretha, a de Otis Redding, em 1966, virou o standard dela. A letra triste que falava de uma moça trajando um mesmo vestido velho e desgrenhado e que, se você a encontrasse tão cansada, “trate-a com carinho”, nunca foi tão dramática e dolorida como na voz de Redding.
A Change Is Gonna Come é do genial e precocemente falecido (foi assassinado em circunstâncias obscuras em um motel) Sam Cooke. Está no disco Ain't That Good News, de 1964, ano de sua morte. Dizem que Cooke a compôs em razão de um incidente ocorrido com ele e sua banda que, por tentarem se hospedar em um hotel que não aceitavam negros, foram presos sob a alegação de “perturbar a ordem”. Verdade ou não, essa canção causou um tremendo impacto e foi gravada por um mundareu.
Uma coincidência estranha acontece com as datas de morte de Cooke e Redding. O primeiro morreu em 10 de dezembro, e o segundo, no dia 11. A outra é a de que tiveram mortes estúpidas. O tribunal considerou como homicídio justificável (justified homicide), uma modalidade que consta nas leis americanas, o assassinato do cantor por parte da gerente do Motel Hacienda, uma “tipa” chamada Bertha Franklin. Redding morreu em acidente aéreo. Estava no auge do sucesso e excursionava com seu próprio avião. Disseram que quem o pilotava era Otis, e nessa ocasião, estava “cheiradão” de cocaína, mas isso parece mais a uma invenção mitológica. Outro ponto em comum: os dois nasceram no estado da Georgia.
A gravação de A Change Is Gonna Come (nos seus discos ficou sem o artigo inicial) é de 1965; a de Aretha é de 1967 e antecede um pouco a morte deste. A outra que ambos gravaram é Respect, de autoria de Redding. Foi registrada como single em setembro de 1965. A de Aretha está no mesmo disco em que gravou A Change Is Gonna Come – I Never Loved a Man the Way I Love You.
Na voz de Redding, a estrofe “I was born by the river in a little tent/ Oh, and like that river I've been running ever since/ It's been a long, long time coming/ But I know a change is gonna come/ Oh yes it is”, é tremendamente visceral, e seu “yes it is” é dramaticamente afirmativo. O de Franklin vai por um outro viés, lento também, é menos “denso” e mais “soul”. Embarcamos nas primeiras notas do piano e surfamos pelas firulas de um órgão eletrônico combinadas com a voz de Aretha.
Nunca surgiu voz tão marcante quanto a de Redding. Fundia aspereza, delicadeza e expressividade. Contribuiu em muito na marca de seu som uma seção de sopros irresistível, fundida à energia visceral desse intérprete. Era doce/amargo [Try a Little Tenderness], energie pura [Respect e (I Can Get No) Satisfaction], e evocativo [(Sittin’ on) The Dock of the Bay]. Otis Redding faz muita falta. Aretha continua por aí.