segunda-feira, 18 de abril de 2011

Manhã de carnaval em plena Quaresma

Há alguns anos, “na louca”, resolvemos eu e a a família da minha irmã, passarmos o carnaval em Nova York. Costumeiramente, é muito frio ainda, nem tanto como os invernos dos últimos anos. Ficamos num hotel “mais ou menos” (mesmo assim, custando mais de 100 dólares a diária), próximo ao Madison Square Garden, a três quarteirões do Empire State.

Para aproveitar ao máximo, acordávamos cedo, tomávamos o café no Au Bon Pain da 5ª Avenida, e iniciávamos nossa maratona por Manhattan. Com pequenas variações de percursos e propósitos, íamos diariamente até a parte superior da ilha; chegamos a ir a pé até o Metropolitan Museum.

Na manhã da quarta-feira de cinzas, uma coisa me chamou a atenção: algumas pessoas, homens e mulheres, tinham um sinal na testa. Era uma cruz desenhada a carvão, logo notei. Foi aumentando o número delas. Eram pessoas que iam – ou voltavam, não sei – da missa. Se fosse por amostragem, diria que há um número bem elevado de católicos en Nova York.

Isso me fez lembrar da infância vivida em Passos, Minas Gerais. Decerto é do conhecimento de muitos de que há um contingente enorme de católicos no estado mineiro. Quando criança, fiz a via crucis das crianças de lá: aulas de catecismo, primeira comunhão, e ia à missa aos domingos, e até em feriados, fossem santos ou não. Isso se devia, não a minha inquebrantável fé cristã. A razão era a de que todos os meus amigos faziam issso e não estava na idade de ter ataques de rebeldia. No carnaval, ia à missa no domingo e, na quarta-feira de cinzas, também. A maioria usava a tal cruz desenhada na testa.

Com o tempo, minha fé católica foi esmaecendo. Coloco a culpa nos novos interesses que foram surgindo no decorrer do tempo e um pouco ao padre da igreja que frequentava. Antigamente, para se comungar, antes, era necessário confessar-se. Não sei se é da ciência de todos, existia uma coisa chamada “confessionário”. O padre ficava fechado num cubículo e, por uma janelinha treliçada, ouvia seus pecadores, ajoelhados. Com isso, presumidamente, guardava-se a identidade e os “segredos” contados lá. Nós os pecadores, dependendo das faltas cometidas contra Deus, devíamos orar em silêncio o número de orações que o padre nos pedia (eram as de sempre: Ave Maria, Pai Nosso e Salve Rainha). De tanto rezar, acabávamos sabendo de cor.

Passos era uma cidade racista, se se é possível “cometer” tal afirmação, quando estávamos já no fim da década de 1960. Na Igreja da Matriz, do monsenhor Matias, a frequência era de brancos. Não era explícito, mas era fato. O mesmo ocorria no Passos Clube. Não havia um negro ou mulato nos bailes de carnaval. Apesar de não ser negro – no registro de nascimento está escrito que sou amarelo –, ia à igreja de São Benedito, de frequência miscigenada, mas em razão de ser a mais próxima da minha casa, que ficava na rua Etiópia, conhecida como rua do Sapo, devido ao “corgo” que a cortava e, por isso, cheia desses bichos coaxadores.

Quem ministrava as missas na Igreja de São Benedito era o Cônego Timóteo, um mulato parecido com Mário de Andrade, devido aos óculos de lentes grossas e pela testa alta e calva pronunciada. E foi ele mesmo quem primeiro começou a minar com a minha fé católica. Numa das vezes em que me confessava, tentava lembrar se tinha cometido mais algum pecado além dos que tinha relatado. O cônego Timóteo, irritado, disse “anda logo porque a fila está grande”. Aquilo me bateu forte. Imaginava, até então, que um representante de Deus era paciente com seus fiéis. Assim, minha crença em um Deus compreensivo começou a fenecer a ponto de, hoje, não mais acreditar em Deus e nem em Alá ou qualquer outro ente sagrado. É uma pena. É tão mais fácil fazer coisas, até “imperdoáveis”, e sentir-se perdoado!
Jack é seu nome

Esses parágrafos são para dizer que fico a pensar nos montes de coisas que não se deve fazer na Quaresma. Graças a Deus, chegando a Páscoa, tudo volta ao normal, inclusive poder ouvir mais uma Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá. A que você ouve é um belo solo de um guitarrista, injustamente, pouco conhecido. É Jack Wilkins. Ouça e verás que certas coisas são perdoáveis, como até sair cantando por aí em qualquer tempo, faça sol, chuva… e até na Quaresma.




Ouça Manhã de Carnaval, com Wilkins.