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| Charlie Haden e Keith Jarrett no estúdio do pianista |
Mas, e se for um golpe mercadológico do produtor Manfred Eicher? Agora que Haden está morto, sabe-se que padecia de uma enfermidade grave, consequência de uma variante da poliomielite contraída quando tinha quinze anos e comprometera-lhe os movimentos da face e as cordas vocais. É por isso que tinha aquela expressão de estátua. A doença ceifou seu desejo de ser cantor profissional, que era o que fazia na Haden Family. Para muitos que o conheceram como baixista devem ter se surpreendido quando o ouviram cantar Wayfairing Stranger, a última faixa de Art of the Song (1999). Em Rambling Boy (2008), álbum que relembra a família musical – dessa vez, com participação das filhas Petra, Rachel, Tanya e Josh, mais a mulher Ruth Cameron – Haden canta Oh Shenandoah, um tema tradicional do folk americano. Shenandoah é a cidade natal do baixista. Em ambas as canções ouvimos uma voz muito fraca e extremamente afinada.
My Old Flame, My Ship, ’Round Midnight, Dance of the Infidels, It Might as Well Be Spring, Everything Happens to Me, Where Can I Go Without You, Everytime We Say Goodbye e Goodbye são as canções que compõem Last Dance. O CD é complemento do anterior Jasmine (ECM, 2009). Todas foram gravadas no estúdio de Keith Jarrett, em 2007. Em Jasmine, a chamada de venda, assinada pelo pianista, era: “Chame sua mulher, esposa ou amante tarde da noite, sentem-se e ouçam.” Serve para Last Dance, também. É relaxante ouvir o piano e o contrabaixo dos dois. São temas em tempo lento, em sua maioria. Mesmo Dance of the Infidels, de Bud Powell, cujo original é mais uptempo é executada em tempo médio.
Ouça Goodbye, de Gordon Jenkins.
Ouça também Everytime We Say Goodbye.
Haden ficou mais conhecido quando fez parte do conjunto de Ornette Coleman, Jarrett, como pianista da banda de Charles Lloyd. Montaram uma banda infernal com o diabólico saxofonista Dewey Redman e o ex-baterista de Bill Evans, Paul Motian. Gravaram álbuns excepcionais.
A primeira vez em que ouvimos os dois em duo foi com Ellen David, em Closeness (A&M, 1976). Lançaram, pela ECM, Arbour Zena, com orquestra e o saxofonista Jan Garbarek. Belíssimo. Algo muito diverso do som do quarteto americano. A maior característica do som de Haden era o lirismo e a predominância do melódico e menos da potência rítmica de Ray Brown. Aliado ao lirismo do piano de Jarrett, fizeram uma parceria quase perfeita. Assim como Jasmine, Last Dance não é aquele álbum que tem lugar na história como um Kind of Blue, de Miles Davis, mas tem um lugar bem especial na estante de qualquer amante do jazz.
Ouça a maravilhosa Ellen David, duo de Haden e Jarrett, em Closeness.
Ouça na íntegra o álbum Arbour Zena (ECM, 1976).

