quinta-feira, 24 de julho de 2014

A última dança de Charlie Haden com Keith Jarrett

Charlie Haden e Keith Jarrett no estúdio do pianista
Duas coisas são curiosas, pensando na morte de Charlie Haden aos 76 anos, na semana passada: o título do CD mais recente, em duo com Keith Jarrett, é Last Dance, e a última faixa é Goodbye. Seria uma premonição. Sendo assim, serve como testamento de um dos maiores baixistas da história do jazz.

Mas, e se for um golpe mercadológico do produtor Manfred Eicher? Agora que Haden está morto, sabe-se que padecia de uma enfermidade grave, consequência de uma variante da poliomielite contraída quando tinha quinze anos e comprometera-lhe os movimentos da face e as cordas vocais. É por isso que tinha aquela expressão de estátua. A doença ceifou seu desejo de ser cantor profissional, que era o que fazia na Haden Family. Para muitos que o conheceram como baixista devem ter se surpreendido quando o ouviram cantar Wayfairing Stranger, a última faixa de Art of the Song (1999). Em Rambling Boy (2008), álbum que relembra a família musical – dessa vez, com participação das filhas Petra, Rachel, Tanya e Josh, mais a mulher Ruth Cameron – Haden canta Oh Shenandoah, um tema tradicional do folk americano. Shenandoah é a cidade natal do baixista. Em ambas as canções ouvimos uma voz muito fraca e extremamente afinada.

My Old Flame, My Ship, ’Round Midnight, Dance of the Infidels, It Might as Well Be Spring, Everything Happens to Me, Where Can I Go Without You, Everytime We Say Goodbye e Goodbye são as canções que compõem Last Dance. O CD é complemento do anterior Jasmine (ECM, 2009). Todas foram gravadas no estúdio de Keith Jarrett, em 2007. Em Jasmine, a chamada de venda, assinada pelo pianista, era: “Chame sua mulher, esposa ou amante tarde da noite, sentem-se e ouçam.” Serve para Last Dance, também. É relaxante ouvir o piano e o contrabaixo dos dois. São temas em tempo lento, em sua maioria. Mesmo Dance of the Infidels, de Bud Powell, cujo original é mais uptempo é executada em tempo médio.

Ouça Goodbye, de Gordon Jenkins.



Ouça também Everytime We Say Goodbye.



Haden ficou mais conhecido quando fez parte do conjunto de Ornette Coleman, Jarrett, como pianista da banda de Charles Lloyd. Montaram uma banda infernal com o diabólico saxofonista Dewey Redman e o ex-baterista de Bill Evans, Paul Motian. Gravaram álbuns excepcionais. 

A primeira vez em que ouvimos os dois em duo foi com Ellen David, em Closeness (A&M, 1976). Lançaram, pela ECM, Arbour Zena, com orquestra e o saxofonista Jan Garbarek. Belíssimo. Algo muito diverso do som do quarteto americano. A maior característica do som de Haden era o lirismo e a predominância do melódico e menos da potência rítmica de Ray Brown. Aliado ao lirismo do piano de Jarrett, fizeram uma parceria quase perfeita. Assim como Jasmine, Last Dance não é aquele álbum que tem lugar na história como um Kind of Blue, de Miles Davis, mas tem um lugar bem especial na estante de qualquer amante do jazz.

Ouça a maravilhosa Ellen David, duo de Haden e Jarrett, em Closeness.



Ouça na íntegra o álbum Arbour Zena (ECM, 1976). 



terça-feira, 22 de julho de 2014

A lista dos melhores álbuns do ano na Downbeat, segundo a crítica

WomanChild, o álbum do ano
Como de costume, em julho, a lista dos melhores do ano.

1. Cécile McLorin Salvant - WomanChild (MackAvenue Records)
2. Ambrose Akinmusire, The Imaged Savior Is Far Easier to Paint (Blue Note)
3. Dave Holland & Prism, Prism (Dare2)
4. Gregory Porter, Liquid Spirit (Blue Note)
5. Pat Metheny Unity Group, Kin (Nonesuch)
6. Frank Wess, Magic 101 (IPO)[sobre o álbum, leia em http://bit.ly/1zVlcsM]
7. Kenny Garrett, Pushing the World Away (MacAvenue)
8. Jane Ira Bloom, Sixteen Sunsets (Outline)
9. The Bad Plus, The Rite of Spring (Sony Masterworks)
10. Terence Blanchard, Magnetic (Blue Note)
11. Dave Douglas Quintet, Time Travel (Greenleaf)
12. Keith Jarrett/Gary Peacock/Jack DeJohnette, Somewhere (ECM)
13. Eric Alexander, Chicago Fire (High Note)
14. Preservation Hall Jazz Band, That’s It! (Sony/Legacy)
15. Matt Wilson Quartet + John Medeski, Gathering Call (Palmetto)
16. Michele Rosewoman’s New Yor-Uba, 30 Years! A Musical Celebration of Cuba in America (Advance Dance Disques)
17. Chucho Valdés, Border-Free (Jazz Village)
18. Chick Corea, The Vigil (Stretch/Concord)
19. Wadada Leo Smith & TUMO, Occupy the World (Tum)
20. Craig Taborn Trio, Chants (ECM)

Liquid Spirit é o segundo álbum de Gregory Porter que fica em quarto, segundo os críticos. Veja-o interpretando música título.




The Imaged Savior Is Far Easier to Paint, de Ambrose Akinmusire ficou em segundo lugar. O trumpetista é outro novato que promete. Ouça As We Fight, a segunda faixa.




Frank Wess faleceu em outubro do ano passado, aos 92 anos. Manteve-se ativo até pouco antes da morte. Seu Magic 101, merecidamente, ficou em sexto lugar. Ouça The Very Thought of You.




Do 21º ao 30º. Os destaques, dentre os que ouvi, muito bom é a mais nova aventura orquestral de Darcy James Argue’s Secret Society (Brooklyn Babylon). Bons são também o da New Gary Burton Quartet (Guided Tour), com o pianista revelação Vadim Neselovskyi; o de Catherine Russell (Bring It Back), do qual escrevi em http://bit.ly/1p6sQLb; 3 Cohens (Tighrope) [ouça algumas músicas desse álbum em http://bit.ly/1zTUQYo]; de Tierney Sutton (After Blue), seu tributo ao disco Blue, de Joni Mitchell; de Bill Frisell (Big Sur); e, por fim, o de Fred Hersch com Julian Lage (Free Flying). Lage é um dos guitarristas que tem se destacado entre os novos.

O destaque do ano. Quem “explodiu” nessa votação foi Cécile McLorin Salvant. Em outro post comento mais sobre ela. Surpreendente para uma cantora que acabou de ter seu primeiro disco gravado nos Estados Unidos. Em 2010, venceu o Thelonious Monk Internationals Jazz Vocals Competition. Desbancou, nesse ano, outra intérprete em ascensão, a francesa baseada em Nova York, Cyrille Aimée. Coincidência que os dois nomes tenham raízes francesas.

Cécile veio como um tsunami. Ficou em primeiro como “rising star” e na principal na categoria  ”female vocalist”. Confundiu a cabeça dos críticos. É um caso especial. Ficou em primeiro como a “artista do ano” na categoria “rising star”. Fora isso, seu disco WomanChild foi considerado o melhor do ano. É para poucos. E conseguiu algo que parecia improvável: desbancar a eterna eleita Cassandra Wilson. Conseguiu o mesmo que Gregory Porter. O autor de Be Good (ouça em http://bit.ly/UjCi2R), o quarto melhor álbum de 2012, ficou em primeiro, tirando Kurt Elling, depois de um reinado de mais de uma década. Fora isso, foi eleito o “jazz artist” do ano. Pelo jeito, é o ano dos cantores. Há muito não acontecia isso.

Veja Cécile McLorin Salvant cantando I Didn’t Know What Time It Was, no Dizzy’s