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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O mais belo grave de Johnny Hartman

Ao ouvir “Wave” no álbum “Invitation”, de Art Van Damme e The Singers Unlimited, lembrei-me de Johnny Hartman. Em LP nunca lançado em CD, “Once in Every Life” (Bee Hive Records, 1980), o cantor mais subestimado do jazz solta um “together” respeitável no verso “The fundamental loneliness goes whenever two can dream a dream together”. É um grave de respeito.

O título original “Vou Te Contar” quase caiu no esquecimento. Até no Brasil lembram dela como “Wave”. Uma das coisas que irritava Antônio Carlos Jobim era ouvir suas músicas com letras vertidas para o inglês por Ray Gilbert e Norman e Marilyn Bergman. Fora a perda do espírito original, os letristas ficavam com metade dos royalties, o que não era nem um pouco justo. Por conta disso, Jobim resolveu ele mesmo escrever várias das versões. “Wave” é uma delas. Se não me engano, foi cantada com letra em inglês pela primeira vez por Frank Sinatra. Hartman deve ter ouvido esse registro, de 1969 pois, tão bom quanto o seu grave, é o de Sinatra. Bom, não vale comparar algum cantor com o velho Frank. É covardia. Apenas para registro, “Wave” teve sua primeira gravação nos Estados Unidos no álbum do mesmo nome, com arranjos de Claus Ogerman, em 1968.

Johnny Hartman é considerado cult, portanto, é aquele conhecido apenas pelos considerados “descolados”. Pelo menos, é o que parecia quando alguns “formadores de opinião”, como certo jornalista conhecido, em meados da década de 1990, decretou que em Nova York o álbum do momento era “Johnny Hartman and John Coltrane”. Detalhe: o disco é de 1963. Bom, dando um desconto, é provável que tenha lido alguma matéria sobre o álbum que estava sendo lançado pela primeira vez em CD, em 1995.

Bom, moda é moda. Teve uma época em que, se você não conhecesse “Chet Baker Sings”, era considerado um inculto e out. Lembro de quando trouxe esse álbum em CD, quando voltei do Japão, em 1988. Foram muitos os pedidos de cópias em fitas cassete, único meio de duplicação naquele tempo. Apenas os por volta de 50 anos tinham “CB Sings” em formato de LP e, provavelmente, em estado precário para audição, de tanto terem escutado. Os mais jovens estavam sendo apresentados àquele que diziam ter sido o grande influenciador da forma suave de cantar dos intérpretes da bossa nova. Nem o complete, inédito também no resto do mundo, de Billie Holiday na CBS, que eu tinha pago uma quantia considerável, fez tanto sucesso.

John e Johnny
Com a fama e prestígio adquiridos como sideman de Miles Davis e tocando com Thelonious Monk e os lançamentos dos excepcionais “Giant Steps” (1961). “Coltrane Jazz” (1961) e “My Favorite Things” (1961), Creed Taylor contratou John Coltrane a peso de ouro para a Impulse. Tinha recebido uma bela bolada na assinatura com a Atlantic Records. Mas no novo selo, seu passe só não foi maior do que a assinatura de Miles Davis com a CBS: 10 mil dólares no primeiro ano por dois discos, e 20 mil pelos próximos dois anos.

Os que ouviam Coltrane conheciam a sofisticação lírica inigualável ao tocar baladas e em composições próprias como “Naima”. Esse estilo belo e dinâmico nos andamentos lentos ficou registrado em “Ballads” (1963) e “Duke Ellington & John Coltrane” (1964). Sua interpretação de “In a Sentimental Mood”, neste último, é um dos clássicos de todos os tempos.

Ouça “In a Sentimental Mood”.



Hartman não atingiu a fama de Eckstine. Na fase pós Segunda Guerra Mundial, as orquestras ainda estavam à toda. Johnny começou com Earl Hines e logo depois com Dizzy Gillespie. Início brilhante. O primeiro disco que gravou como líder foi “Songs from the Heart” (1955), pela Bethlehem Records, e lançou apenas mais três LPs antes de “John Coltrane and Johnny Hartman”. O cantor mais famoso, fora Frank Sinatra, era Billy Eckstine. Era considerado o Sinatra negro. Bonitão, sua voz grave, de macho, como se falava antigamente, e carisma atraía milhões de ouvintes e, como não fosse isso suficiente, em suas orquestras tocavam os melhores músicos do jazz.

“John Coltrane and Jonnhy Hartman” foi gravado na mesma época dos dois citados. A escolha de Hartman foi a ideal. Os três álbuns representam o “gentle side” do gigante do saxofone. 

O crítico A.B. Spellman, autor das liner notes do disco original, escreve que a era dos cantores, principalmente os do sexo masculino, perderam o protagonismo com o fim das bandas de bebop. Vários crooners que ficaram conhecidos eram barítonos, com vozes potentes, casos de Hartman, Herb Jeffries, Arthur Prysock e o grande Billy Eckstine.

Ouça “My One and Only Love”. A introdução de Coltrane é doce e genial.



Devido à boa repercussão, Hartman gravou mais dois álbuns na Impulse: “I Just Dropped to Say Hello” (1963) e depois, “The Voice That Is” (1965). Mas havia um problema que acometeu o mundo do jazz. O evolução e popularidade do rock matou esse gênero tão americano. Lançou vários discos depois, mas nem tudo é bom, por conta da escolha de repertório, por razões de mercado. Nem Tony Bennett escapou.

Na minha opinião, a canção mais marcante dos dois álbuns é “Charade”. É a melhor interpretação de todos os tempos do clássico de Henry Mancini e Johnny Mercer. Ouça.



De todos os posteriores, a obra prima é “Once in Every Life” (1980), pelo selo BeeHive. Quando ninguém mais ligava para ele, nos surpreende com essa pérola. A banda que o acompanha, com exceção do pianista Billy Taylor e do flautista e saxofonista Frank Wess, mais conhecidos, é completada por Joe Wilder no trompete e flugelhorn, Al Gafa na guitarra, Victor Gaskin no contrabaixo e Keith Copeland na bateria.

Neste álbum, nunca lançado em CD, Johnny Hartman reforça o talento que tinha em cantar baladas. São clássicos como “Easy Living”, “For All We Know”, “I Could Write a Book”, “I See Your Face Before Me”, “By Myself” e “Wave”.

Clint Eastwood que, além de ator e diretor, é um grande entendedor de jazz, comprou os direitos do disco e resolveu “picá-lo” e incluir todas as canções nos dois CDs que lançou como trilha de “Madison County”. Bom, a solução foi, ideia do Carlos Conde: montar o CD com as músicas na ordem original e copiar a capa original do LP. Foi o que fiz.

Ouça “Wave”, a música que me inspirou a escrever esse texto.



‘Moonlight in Vermont” fica mais genial na voz de Hartman.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O melhor disco da última fase de Johnny Hartman não saiu em CD

Johnny Hartman, Elvin Jones e Coltrane no fundo
Um jornalista, que chegou a ocupar os cargos mais altos, “chique no último”, como se dizia, no alto de sua autoridade, escreveu uma vez que John Coltrane & Johnny Hartman era o “disco do momento” em Nova York. Isso foi no fim do século 20. Não faz tanto tempo. Se ele e essas pessoas estavam “descobrindo” Hartman, estavam um pouco atrasados. Pode ter pesado que o álbum originalmente lançado em 1963, saiu pela primeira vez em formato CD em 1995. Esses moderninhos estavam, provavelmente, ouvindo esse clássico pela primeira vez.

O cantor, que um dia foi chamado de “Bronze Sinatra” nunca ficou efetivamente conhecido. Mas foi cultuado por muitos. Não era um cara bonitão como Billy Eckstine, que chegou a ser considerado um Sinatra negro. Este foi um verdadeiro ídolo em seu tempo e um talento para arregimentar grandes músicos para a sua orquestra.

Hartman, pelo contrário, nem unanimidade foi entre os apreciadores do jazz. Seus crítico diziam que não tinha suingue. É uma verdade, parcialmente. Cantores com registro de barítono têm esse problema. Mas cantando baladas, foi inigualável.

É possível que não tenha feito tanto sucesso como Billy Eckstine ou Arthur Prysock, este nitidamente inferior a Hartman, ficando entre os de voz de barítono, em razão de ter sido uma pessoa de natureza mais retraída e alguém que nunca frequentou páginas de jornais e revistas fazendo o modelo do músico doidão, drogado ou alcoólatra, ou notado por sair com estrelas de Hollywood. Outra coisa que pesou, foi a falta de sorte com produtores e gravadoras.

Johnny e John
Bob Thiele, diretor da Impulse Records, tencionava gravar um álbum de John Coltrane com algum cantor. Sugeriu Sarah Vaughan. Este se mostrou reticente e falou de Hartman. Marcou, pois foi a única vez que Coltrane gravou com cantores e foi o disco de Hartman que mais vendeu. O crítico Will Friedwald classificou-o como o “Kind of Blue dos álbuns com vocalistas”.


Ouça Lush Life, de Billy Strayhorn.



Ouça My One and Only Love, com a linda abertura com o tenor de Coltrane.



Aproveitando a onda do sucesso, gravou mais alguns álbuns para o mesmo selo. I Just Dropped By to Say Hello, lançado no mesmo ano, apresenta a mesma qualidade do que gravou com Coltrane. Charade, de Henri Mancini, é a primeira faixa. É, simplesmente, a melhor interpretação de todos os tempos da música tema do filme do mesmo nome, de Richard Donen.

Ouça Charade.



Depois de The Voice That Is, saiu da Impulse e foi para a ABC-Paramount. Seus produtores acharam que gravando um repertório mais acessível, teriam vendas melhores. Não deu certo. Não agradou nem esse público que almejaram e muito menos os seus fãs. Com 60 anos, faleceu em decorrência de um câncer no pulmão.

O único álbum bom que lançou depois da Impulse foi Once in Every Life, pelo selo Bee Hive, em 1980. É excepcional e recebeu a cotação máxima pela Downbeat na época. Conta com músicos como Frank Wess na flauta e saxofone, Billy Taylor ao piano, Joe Wilder no trompete e flugel, e Al Gafa na guitarra. Creio que foi último em vida, pois morreu em 1983. Todos os demais lançados depois são de gravações anteriores.

Pegadinha
Once in Every Life saiu apenas em LP e, infelizmente, nunca no formato CD e, provavelmente, nunca sairá. Os direitos pertencem a Clint Eastwood. Muitos devem saber do apreço que o ator e diretor tem pelo jazz. Ele é autor da cinebiografia Bird, sobre Charlie Parker, já foi o homenageado no show After Hours, no Carnegie Hall, Nova York, com participações de Slide Hampton, Hank Jones, Joshua Redman, Christian McBride, dentre outros, e costuma inserir bons números em seus filmes. Tem um filho, Kyle Eastwood, que tomou gosto pelo gênero e é um contrabaixista de talento.

Quem assistiu ao filme As Pontes de Madison (Bridges of Madison County) deve lembrar-se das belas músicas que acompanham a história de Francesca e Robert Kincaid. Na trilha, Eastwood, foge do óbvio. Fora Dinah Washington, a mais conhecida, os outros intérpretes são Irene Kral, grande cantora, falecida precocemente de câncer, Barbara Lewis e Johnny Hartman. São escolhas de alguém que tem um conhecimento além da superfície do jazz. De Johnny são quatro as que constam no CD lançado.

Quando percebi que eram de Once in Every Life, fiquei endoidecido. Era um daqueles álbuns que sonhava em repor no formato CD.

Não sei quanto tempo depois, um segundo CD referente ao filme de Clint, foi lançado. Em Remembering Madison County tinha mais sete números de Hartman, que eram exatamente as que faltavam para completar Once in Every Life. Quando comentei com o Carlos Conde, expert do jazz, cque tinha um programa exclusivamente sobre o gênero na Rádio Cultura, contou-me que “montou” o CD conforme o original. Não tinha pensado nisso. Fiz o mesmo.

Anos depois, acho que nem o Conde deve ter percebido, senão teria falado. Clint Eastwood tinha nos pregado uma peça. No primeiro CD, Easy Living é a terceira, I See Your Face Before Me é a de número 5, It Was Almost Like a Song a nona, e For All We Know, a décima primeira.

Faltaram a primeira (I Could Write a Book), a segunda (Nobody Home), a quarta (Will You Still Be Mine), a sexta (Wave), a sétima (By Myself), e a oitava (I See Your Face Before Me). Juntando os dois “Madison County”, na ordem, dava Once in Every Life completo.

Na plataforma que uso para streaming, o Tidal, não tem o LP disponível. Por sorte o Spotify tem. Ouça na íntegra e perceberão como Hartman era genial.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Clint Eastwood, o homem que veio do oeste

His name is Clint. Eastwood
Alguém se lembra de que Clint Eastwood foi prefeito de Carmel? Pelo partido republicano, o que nos faz pensar que, gostos musicais são apartidários. Ele ama o jazz, assim como adorava Eisenhower e, até o caso Watergate, apoiou Richard Nixon. Depois disso, suas posições se tornaram dúbias, defendendo causas que estariam mais associadas ao partido democrata.

Não assisti a nenhum dos Dirty Harry, da vida, dirigidos por seu parceiro de muitos filmes, Don Siegel. Não vi Por um Punhado de Dólares ou suas continuações por causa de Clint: vi porque o filme era de Sergio Leone, um dos meus diretores preferidos. Quem fez Era Uma Vez no Oeste não precisa fazer mais nada para ser considerado gênio. Digo tudo isso, porque, confesso, até um certo tempo, tinha preconceito em relação a Eastwood. E preconceito é uma m….! Porém comecei a “rever os meus conceitos” ao assistir Bird, dirigido por ele. Forrest Whitaker faz o papel do maior sax alto de todos os tempos, Charlie Parker. Só fui ver um outro de Clint muitos anos depois: Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992) – grande filme –, e depois, Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1995), sensível leitura do amor da meia-idade.

No entanto, a razão desse texto não são seus filmes especificamente. São os soundtracks lançados por sua gravadora Malpaso. O álbum lançado em razão do filme Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal (Midnight in the Garden of Good and Evil, 1997) contém verdadeiras preciosidades, a começar pela sempre competente k.d. lang cantando Skylark. A tia do ator George Clooney, Rosemary Clooney, cantora das “antigas”, contribui com Fools Rushes In. Temos belas interpretações de Cassandra Wilson (Days of Wine and Roses), Tonny Bennett (I Wanna Be Around), o basieano Joe Williams (Too Marvelous for Words), Diana Krall (Midnight Sun) e o “Barry White do jazz”, Kevin Mahogany (Laura). As faixas instrumentais também são de primeira: Dream, com o pianista Brad Mehldau e I’m an Old Cowhand, com o sax tenor Joshua Redman. Como curiosidades há um registro de Ac-cent-tchu-ate The Positive, cantado por Clint e That Old Black Magic, com o ator – e bom cantor – Kevin Spacey, protagonista do filme.

Melhor ainda são as músicas dos álbuns The Bridges of Madison County (1995) e seu apêndice, Remembering Madison County. São preciosidades como Dinah Washington cantando I’ll Close My Eyes, Easy Living e Blue Gardenia e Irene Kral, grande intérprete, morta prematuramente em razão de um câncer, cantando It’s a Wonderful World e This Is Always. O destaque dentre as instrumentais são as interpretações do pianista preferido de Miles Davis, Ahmad Jamal, com (Put Another Nickel in) Music! Music! Music! e o consagrado Poinciana. Porém o melhor são as canções interpretadas pela “voz de trovão’, Johnny Hartman. Aqui, Clint Eastwood cometeu um verdadeiro crime: detentor dos direitos de alguns registros da extinta gravadora BeeHive, picotou o genial LP – nunca saiu em CD – Once in Every Life. Nele tem uma versão maravilhosa de Wave, de Tom Jobim e um não menos brilhante Moonlight in Vermont.

Em 1996 aconteceu um concerto em homenagem a Clint Eastwood no Carnegie Hall, com vários músicos de primeira. Quem tiver interessse em assisti-lo, está disponível em DVD: Eastwood After Hours: Live at Carnegie Hall. Grande concerto e grandes músicos.

Ouça algumas preciosidades do gosto de Clint.
Kevin Spacey canta That Old Balck Magic.




Dinah Washington canta I’ll Close My Eyes.




Johnny Hartman
Ouça uma que não está no disco do John Coltrane e é o máximo: “Charade”.




Esse texto foi publicado, pela primeira vez, em 2011.