quinta-feira, 13 de abril de 2017

O olhar moderno de Nicola Conte

Mistura de DJ, produtor, músico, arranjador, Nicola Conte é um pesquisador sagaz, e seu talento está em conseguir fazer uma boa sopa com ingredientes bem diferentes entre si. Em sua sede de descobrir, conhece a música brasileira muito mais que nós, moradores dessa terra, e também de muitos especialistas no assunto. Na saga em conhecer ritmos sul americanos, lançou cinco álbuns, até agora (pode ser mais), com o título “Nicola Conte Presents Viagem” (1, 2, 3 etc.). Inclui nomes da música brasileira como Edith Veiga, Luis Carlos Vinhas… esses você conhece, sem dúvida mas, e esses? Zumba 5, Papudinho, Myrzo Barroso, Kazinho, Marcio Diniz? São 84 canções, com vários de quem poucos de nós ouviram dizer. A tônica, ou o gosto dele,  é o samba jazz, por meio de luminares do gênero, como Tenório Jr, JT Meirelles, Brazilian Octopus, César Camargo Mariano, Som Três e outros mais.

Em um post, programado há muito e até agora irrealizado, escreverei sobre as “viagens” de Conte. Tenho até o título: “O Brasil que o Brasil não conhece”. Mas vamos ao tema de hoje, o álbum duplo “The Modern Sound of Nicola Conte: Versions in Jazz-Dub”, de 2011. A razão de ter citado a série “Viagem” é porque os ritmos brasileiros são a fonte das remixagens de Conte.

“The Modern Sound” é um mélange de dois gêneros: o jazz e o que já é uma mistura, o samba jazz, que foi a forma brasileira de apimentar o gênero originário do hemisfério norte. Aliás, o que Nicola faz não é bem jazz: é o tal do “jazz-dub”, que sub-intitula esse álbum.

Os temas considerados standards são “Stolen Moments”, “All or Nothing at All”, “Charade”, “Take Five”, “When You Wish Upon a Star”, famoso tema de “Pinocchio”, filme de Walt Disney, e “Mood Indigo”. “Flamenco Sketches” (Miles Davis), “Shape of Jazz to Come” (Ornette Coleman) e “Quiet Nights” (Antônio Carlos Jobim), apesar dos títulos conhecidos, não possuem alguma semelhança com os originais. JT Meirelles, Marcos Valle e Sérgio Mendes são os compositores brasileiros presentes no álbum.

A qualidade de Conte é a de juntar bons músicos vindos de várias searas e de criar uma sonoridade original. Dentre os que dão a base sonora estão nomes de conterrâneos da primeira linha do jazz italiano, como Lorenzo Tucci (bateria), Nicola Stilo (flauta), Gianluca Petrella (trombone), Rosario Giuliani (sax alto), Fabricio Bosso (trompete e fluguel), Flavio Boltro (trompete), dentre outros, e convidados como Till Brönner, Lisa Bassenge, Sabrina Malheiros, Sheila Landis e José James.

Dentre as reinterpretações de standards, duas faixas são os destaques: “Stolen Moments”, em que usa a voz de Mark Murphy e o arranjo original de Oliver Nelson, autor da canção, e “All or Nothing at All”, na voz de José James.

Ouça “Stolen Moments”.



Ouça “All or Nothing at All”.



Um destaque, fora dos standards, é “Elevated States”, interpretado pelo Thunderbird, formado por Rob Myers, Steve Raskin e Sid Barcelona.



Outra boa é o remix que Conte faz de “Yellow Daisies”, do Fertile Ground, muito mais interessante que a original.