sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta

Contracapa do Lp
Amparados pelo sucesso de Milton Nascimento e seu Clube da Esquina, alguns de seus membros gravaram um disco pela EMI, em 1973. Com o nome Beto Guedes / Danilo Caymmi / Novelli / Toninho Horta, algumas das composições que seriam novamente gravadas, foram registradas nessa produção: Caso Você Queira Saber, de Beto Guedes foi registrada com Norwegian Wood (Lennon & McCartney) num compacto simples (era o “EP” da época, mas em vinil), com Milton Nascimento, e depois, fez parte de Minas reeditado, com faixas bônus –, e Manuel, o Audaz, de Toninho Horta, entre eles. Deve ser difícil encontrar esse Lp, mesmo em sebos, e o pior, não foi lançado em CD. Uma ótima opção é baixá-lo pelo blogue Loronix – http://loronix.blogspot.com/2006/10/beto-guedes-danilo-caymmi-novelli-e.html.

Não é preciso dizer muito desse belo disco. Na primeira faixa – Caso Você Queira Saber – Beto Guedes toca violão – a guitarra é de Frederiko –, bateria e canta. Não é uma pena  esteja tão afastado da música? Toninho Horta e Danilo Caymmi continuam mandando, e o Novelli anda meio sumido. É interessante ouvir um disco de 1973 e ver o quanto a linguagem musical de cada um foi se transformando. Ouvimos uma flauta a la Ian Anderson, líder da banda de rock progressivo Jethro Tull. É de Danilo. Em Belo Horror, composição de Beto, Flavio Venturini, Marcio Borges e Vermelho, a flauta “psicodélica”, os teclados de Venturini e Vermelho, o baixo marcado junto com a bateria, a guitarra de Beto e as mudanças de clima que vão ocorrendo no decorrer dela, ajudam a criar uma atmosfera “viajante”. É bem sinal dos tempos em que foi gravada. É a faixa mais diferente.

Vamos de Belo Horror.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A bela Rosita

Dentre os tipos de saxofone, meu preferido sempre foi o tenor. Em escala descendente, os outros são o barítono, o soprano e, por último o alto, apesar de Charlie Parker ou Phil Woods, dois gigantes. Dos tenores, por muito tempo, os preferidos foram Ben Webster, Coleman Hawkins e Lester Young, nessa ordem.

A capa de um clássico
Seria inimaginável não ter os álbuns que meus ídolos gravaram juntos pela Verve Records. Em Coleman Hawkins Encounters Ben Webster, no meio de standards (It Never Entered My Mind, Prisoner of Love, simplesmente, maravilhosos) havia uma música chamada La Rosita. Quando tenho saudades de Rosita, procuro-a no meu iPod de 160 GB. Ouvi-la é um prazer e levanta meu humor, se estiver em baixa.

Coleman Hawkins tinha um som cheio, um tanto áspero, e o de Ben era veludo puro. O Carlos Conde não se conformava com que alguém pudesse gostar de Webster. Dizia que ele fazia “ar” e não som. Questão de gosto. Ele era incomparável tocando baladas. Quem conhece Time After Time (Ben Webster and Associates, Verve) tocado por ele sabe do que estou falando.

Mas La Rosita chegou por outras vias dessa vez. Não lembro de nenhum outro registro além desse de 1957. Qualquer coisa que ache do pianista Bebo Valdés, compro, desde Bebo y El Cigala, DVD duplo com show e documentário dirigido por Fernando Trueba. O cineasta espanhol é responsável pelo “renascimento” do cubano expatriado, que se encontrava meio esquecido. Pela gravadora espanhola Calle 54 foram gravados alguns CDs. Encontrei, casualmente, We Could Make Such Beautiful Music Together (2003), um duo com o violinista uruguaio Federico Britos num site. Adivinhem? Adorei. E mais, ainda, porque me fez lembrar de Rosita. É a quarta faixa de um disco em que se mesclam standards americanos, composições próprias, um Piazzola e um Jobim.

Uma observação: a canção La Rosita foi composta por Allan Stuart (pseudônimo de Lester O’Keefe) e Paul Dupont (pseudônimo de Gustave Haenschen). Estranho, não? Em matéria de 2008 no Los Angeles Times (http://articles.latimes.com/2008/oct/23/world/fg-bebo23), assinado por Sebastian Rotella, Bebo diz: “que bela peça. É mexicana, você sabe, os mexicanos têm músicas melódicas.” Pelo jeito, nem Bebo sabe das origens de Rosita.

Ouçam e comparem.
Coleman Hawkins e Ben Webster:



Bebo Valdés e Federico Brito:

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Jasmine: prazer de ouvir novamente Keith Jarrett e Charlie Haden

No adesivo colado no CD Jasmine, duo de Keith Jarrett e Charlie Haden, na “chamada” assinada pelo pianista está escrito: “Chame sua mulher, esposa ou amante tarde da noite, sentem-se e ouçam.” Não tive chance de fazer isso, ainda, mas ouvi o disco pelo menos umas dez vezes em uma semana. Quem quiser seguir a recomendação de Jarrett, “muito que bem”, como diria uma amiga de muito tempo.

Ouvir música sozinho é uma opção. Jazz não é um gênero fácil de combinar com momentos românticos, principalmente se for instrumental. Alguns preferem ouvir axé com centenas de pessoas ao lado. Ouvir um disco é diferente de estar em sintonia com um bando de gente gritando e pulando. É um ato coletivo e a catarse de descobrir a beleza de alguma coisa acontece em circunstâncias muito diferentes. Ouvir um disco sentado num sofá, sozinho, é um ato reflexivo, antes de mais nada: é você e a música. Aquela convergência que acontece entre pares ouvindo alguma melodia que emociona a ambos em perfeita sintonia é um acontecimento inesquecível. É raro acontecer, e quando acontece, marca.

Não tive esse prazer compartilhado com o novo CD  dos dois geniais músicos que se reencontram depois de muitos anos. Som de primeira: apenas baladas, clássicos como For All We Know, Where Can I Go Without You, No Moon at All, I’m Gonna Laugh You Right Out of My Life, Body and Soul, Goodbye e Don’t Ever Leave Me, de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II.

As interpretações de Jarrett são contidas, reflexivas. Como são a de seu acompanhante. A harmonia de “casal” existe sim, entre eles, não a de amantes, é certo. Muitos anos depois, reúnem-se e a magia interativa não deixou de existir. Antes, muito antes, nas décadas de 1970 a 80, tocaram juntos e produziram grandes discos com o saxofonista Dewey Redman e Paul Motian.

Infelizmente, Jasmine é mais um CD que não será lançado no Brasil. A sugestão é adquiri-lo em lojas físicas que ainda valorizam a boa música, ou comprar através de sites como a Amazon. Sai até mais barato que os discos nacionais. Com as despesas de frete, fica por volta de 45 reais. Cada tostão gasto nessa aquisição será regiamente gratificado com prazer sem preço. No YouTube, várias faixas do CD estão disponíveis (em áudio, com a imagem da capa). É uma opção. Nesse post está disponibilizado um belíssimo standard. Ouça.


Goodbye

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O sangue de Chabrol

Ele não parecia um pouco com 
o jornalista Alberto Helena Jr?
Por coincidência, na semana em que Claude Chabrol faleceu, aos 80 anos, assistia a Garota Dividida em Dois. É boa diversão o caso de uma garota que se apaixona por alguém mais velho – um escritor de renome, sedutor, em cujo universo rodeiam sua mulher e a bela editora de seus livros Mathilda May). Perto dessas duas mulheres maduras, Gabrielle (Ludivine Sagnier), “mulher do tempo” de uma emissora de TV, é até um pouco sem graça. Mas a juventude tem seus encantos e atrações misteriosas. O escritor Charles Saint-Denis (François Berléand) a seduz e, sincronicamente, um jovem mimado, herdeiro de uma indústria farmacêutica se encanta por ela ao vê-la casualmente em algum lugar público. O desfecho, bom, apesar de surpreendente, é até previsível. Agora, Gabrielle ser “cortada” em dois num daqueles números circenses, achei um pouco forçado.

Antes desse, assisti a Comédia do Poder (L’ivresse du pouvoir), com a “gélida” Isabelle Huppert. Como vi faz mais tempo, não lembro direito da história. Nesse hiato de mais de vinte anos sem ver nada de Chabrol, acho seus últimos filmes mais interessantes do que tinha visto na década de 1970. Nessa época, meus franceses preferidos eram Godard, Truffaut e Alain Resnais. Chabrol não me impressionava com seus mistérios hitchcockianos, quando as expectativas desse adolescente – naquela época – eram a de ver filmes com linguagem mais fragmentada, de discurso estético e político instigantes, que suscitavam discussões apaixonadas entre amigos. O que quero dizer com isso? Achava-o meio “careta”, como se dizia naquele tempo. É mentira, no entanto, dizer que nada dele me impressionou.

Capa do DVD lançado nos EUA
Não sei por que – essa é a razão de ter visto esses dois filmes do francês recentemente - andei lembrando de uma cena de O Açougueiro (Le boucher) e contei a alguns amigos, como um cena marcante e guignolesca. Se não achava Chabrol tão interessante, em contrapartida achava sua mulher Stéphane Audran muito interessante. Nesse filme lançado em 1970, uma professorinha de uma cidade do interior da França se envolve com um açougueiro. Alguns crimes misteriosos envolvendo crianças anda acontecendo na região. Não lembro se ele era o responsável ou não. Uma cena, que ficou na lembrança e é antológica é a das crianças que saem com a professora para um pequinique no campo. A cena: um deles está comendo seu lanche sob uma árvore; na hora em que vai dar uma mordida, cai uma gota de sangue no pão.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Nico Assumpção, o nosso Jaco Pastorius

É uma pena que Nico Assumpção tenha morrido tão cedo. Com 47 anos! Teve um câncer de pulmão, implacável para alguém tão novo. Apesar de ter atuado bastante acompanhando luminares da MPB e de ter feito muitas apresentações em casas especializadas em música instrumental, lançou apenas um disco em vida e um póstumo. São apenas uma amostra de seu brilhantismo como baixista acústico e, elétrico, principalmente.

Em sua permanência nos Estados Unidos, estudou na Berklee College of Music e tocou com jazzistas de primeira como os pianistas Larry Willis, Fred Hersch e Kenny Baron, os saxofonistas Joe Henderson, Wayne Shorter e Charles Rouse (o sideman mais conhecido de Thelonious Monk), com o brasileiro radicado há décadas, Claudio Roditti e fez parte do trio do brasileiro, também há muito tempo nos EUA, Don Salvador.

Voltou ao Brasil, deu aulas no CLAM, escola do pessoal do Zimbo Trio, morou no Rio de Janeiro e teve como um dos parceiros mais constantes, o guitarrista e violonista Ricardo Silveira. Em sua seara, a música instrumental, gravou um disco inexplicavelmente inédito em CD: Bateria, de Robertinho Silva, lançado em 1984, pelo selo Carmo, de Egberto Gismonti. O baterista, conhecido por ter tocado por muito tempo com Milton Nascimento, tem, além do baixista como sideman, Ricardo Silveira e o saxofonista e flautista Nivaldo Ornellas. Deve ser um dos melhores discos de música instrumental já gravados no Brasil, pelo menos, na minha opinião. É raro ouvir músicos tão em harmonia. É pena não ser muito conhecido. Sabendo que existia a possibilidade de ter sido lançado na Alemanha, quando estive lá, procurei. O outro que procurava, por ser um dos meus preferidos de Gismonti, era o Nó Caipira, que, se não me engano, não foi lançado no Brasil. Para minha surpresa, achei um deles, o Nó…, em Lisboa, no Rocio, na loja Valentim de Carvalho, tradicional loja de música – vende também instrumentos musicais e é associada à gravadora EMI, não sei se até hoje. o CD de Robertinho Silva, infelizmente, não existe mesmo em CD. Segundo Gismonti, ninguém se interessou por comprar os direitos de sua gravadora Carmo no Brasil. Alguns itens foram lançados na Alemanha e ainda se encontram disponíveis.

Em Bateria, tudo é muito bom. Barra 200, de Silva e Nenê, tocado em trio – bateria, baixo e guitarra – é a síntese dessa harmonia entre eles, como foi ressaltado no parágrafo anterior. A terceira faixa é uma composição de Nico. Balada é um solo dele, com delicadas intervenções de Robertinho nos teclados (é um Oberheim DX?) e na bateria. Olhe, é um solo excepcional, para nenhum fã mais fanático pelo americano Jaco Pastorius botar defeito. Nico começou com o baixo de quatro cordas, passou pelo fretless bass e depois para o de seis cordas (um lembrete: John Patittucci, que se celebrizou tocando esse tipo de baixo, veio depois de Assumpção). Um destaque merecido é o do guitarrista Ricardo Silveira. De tudo o que ouvi dele, nunca tocou tão bem como nesse disco.

Em 1981, Nico lançou o primeiro disco. Com exceção de uma – Constelação (Alfredo Cardim) –, todas as faixas são composições próprias. Ladeado por um bando de amigos, é um bom showcase de suas habilidades como baixista e compositor. O disco póstumo, Three, é mais coeso que o primeiro, provavelmente, por não ter aquela coisa de “mostrar serviço” do primeiro. No formato trio – Nelson Faria e Lincoln Cheib.

A primeira faixa é a conhecidíssima Eu Sei Que Vou Te Amar. Normal, mas suficiente para a atenção se voltar a delicada guitarra de Nelson Faria – deve ter ouvido bastante Jim Hall, Kenny Burrell e outros mais. Bem bossa mesmo, é um excelente começo. À medida que o conhecemos, fica claro que é um disco do trio, antes de mais nada. Não é só de Nico. Os solos estão bem distribuídos e há até preponderância do guitarrista. Os solos do baixo são discretos, sem malabarismos circenses. A terceira faixa, Cor de Rosa, é uma composição de Assumpção. É uma música de cadência agradável em que a melodia é comandada pela guitarra discreta e bela de Faria (lembra um pouco o mood de algumas faixas de Bright Size Life, em que Pat Metheny é acompanhado por Jaco Pastorius e Bob Moses) e pela levada do baixo. A quarta é Ce Sa Ce Sons Pas Savas, um trocadilho fonético de "Você sabe se este ônibus passa na Savassi?", referência ao conhecido bairro de Belo Horizonte. Juliana é uma belíssima composição de Faria, um dos destaques. Fecham o disco com Vera Cruz, de Milton Nascimento e Marcio Borges.

O guitarrista Nelson Faria, com Ney Conceição no baixo e Kiko Freitas na bateria, formaram o Nosso Trio. Gravaram em CD e DVD, Vento Bravo, pela Delira Music. Está esgotado e, parece que a Delira não existe mais.

Nico não era rápido apenas; tinha um senso ritmico e melódico sem par. É por isso que muitos o consideram o melhor baixista que surgiu no Brasil. Comprove nos dois registros abaixo.


Solo de Nico no baixo de seis cordas



Solo de Nico com João Bosco