quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A originalidade de Hilde Hefte

A norueguesa Hilde Hefte
A música é Mercy Street. Voz e contrabaixo apenas. Percebe-se uma pequena dificuldade dela em alcançar as notas mais baixas. Mesmo assim, é uma interpretação sensível e capta bem o espírito melancólico da canção de Peter Gabriel.

A seguinte – O Tysta Ensamhet - Visan Fran Utanmyra –, é apenas vocal, com overdubs. Estranha. Somos levamos a pensar que é quando ouvimos uma língua que não é parecida com o português, o espanhol, o francês ou o inglês. Natural. Descubro, pesquisando na internet que é uma canção sueca. Mas Hilde Hefte é norueguesa. Dou-me conta da minha ignorância: são línguas parecidas? Imagino que o sueco não deve ser tão distinto do dinamarquês ou do norueguês. Já o finlandês…

O álbum se chama Short Stories. Cada faixa parece “contar” uma história diferente. E são “estórias” (por que não existe mais essa palavra, bom diferencial de “história”?) minimalistas. Quase sempre é a voz de Hilde e algum instrumento. Tudo muito enxuto.

My Bells, a terceira, é Hilde e a harpa de Sidsel Walstad. Logo depois, canta um balançado (pela discreta percussão) O Pato, em inglês, acompanhada do violão. Seu pato, além de fazer “cuen, cuen”, faz “onc, onc”. Independente das interjeições, é a “estória” mais animada do CD. Aí, bom tudo é jazz, não? É um gênero com que parece familiarizada. Canta dois standards conhecidos: But Beautiful e My Romance; esta, acompanhada apenas pela harpa, é muito boa.

Ouça.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Após a deixa jazzística, canta In German Before the War. A música de Randy Newman, conhecido por muitas trilhas cinematográficas, fala de um homem, em Dusseldorf, antes da guerra, que em todos os fins de tarde, atravessa o parque em direção ao Reno: “Olho o rio, mas estou pensando no mar.” É um dos destaques desse disco, no geral, muito bom.

Ouça.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Hilde tem gosto apurado. Interpreta um Danny’s All-Star Joint originalíssimo, bem diferente do original de Rickie Lee Jones. Lembra um pouco as aventuras vocais de Bobby McFerrin.

Ouça.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


A norueguesa volta ao jazz cantando You Leave Me Breathless e à Escandinávia em Jag Vet En Dejlig Rosa, da sueca Robyn. Flotervise é a canção que fecha o disco: piano e sax.

Confira.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Veja uma apresentação de Hilde Hefte cantando Close Enough for Love, de Johnny Mandel.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Rare Silk e a tradição dos conjuntos vocais

Grupos vocais como o Hi-Lo’s, Four Freshmen, The Pied Pipers, Andrew Sisters e Boswell Sisters fizeram muito sucesso no período entre guerras e após. No Brasil também. Tivemos formações como Os Garotos da Lua, liderado por Jonas Silva, que depois fundaria o pequeno selo Imagem, gravadora que lançou bons títulos de jazz. Aliás, um dos melhores álbuns do Hi-Lo’s não saiu lá: é a coletânea que Jonas lançou aqui. Outro conjunto famoso – o mais, provavelmente – é Os Cariocas. Foram grandes divulgadores da então nascente bossa nova.

Veja os Hi-Lo’s em com Frank Sinatra.





Ouça Os Cariocas cantando Samba do Avião.




Há certo charme nostálgico nesses grupos vocais que estiveram tão em voga em certo período e hoje estão quase extintos. Ativo ainda, não tenho a certeza, é o New York Voices.

Posteriores aos citados, na era bebop, surgiu o Lambert, Hendricks and Ross. Jon Hendricks resolveu fazer uma coisa que parecia impossível: adaptar letras em temas de Tadd Dameron, Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Era uma coisa meio alucinante, como os versos em temas rapidíssimos como A Night in Tunisia: algo como Ademilde Fonseca cantando Brasileirinho. Não ficaram juntos por muito tempo. A bonitona (naquele tempo; se você quiser saber quem é ela, assista a Shortcuts, de Robert Altman; é a mãe da cellista suicida) caiu fora logo e foi perseguir carreira solo. No seu lugar entrou Yolande Bavan e mudaram o nome para Lambert, Hendricks and Bavan. Não foram longe. Hendricks continuou em carreira solo e até outro dia (tem hoje 98 anos) estava fazendo participações especiais em álbuns de outros músicos.

Um dos grupos vocais mais conhecidos na década de 1960 foi o Singers Unlimited. O mesmo Gene Puerling, um dos Hi-Lo’s, foi um de seus criadores. Eram excepcionais. O álbum que gravaram com Oscar Peterson – In Tune – é uma preciosidade. Lançaram três álbuns “a capella” que são clássicos. Como era um grupo surgido na era do rock’n’roll dos Beatles e os Rolling Stones, não restringiram o repertório aos standards do jazz. Gravaram bossa nova e canções como Here, There and Everywhere, de Lennon e McCartney.

No Brasil, nesta mesma década, vimos surgir vários conjuntos desse tipo. O mais conhecido é o MPB4, mas tivemos também o Quarteto em Cy, Trio Esperança e os Golden Boys. Os dois últimos iam por um caminho voltado mais ao pop. Inspiraram-se mais por outros conjuntos conhecidos, como os Platters. Os Golden Boys (três irmãos e um primo) eram afinadíssimos; até mereciam ser relançados.

Nos anos 1970, a vez foi do Manhattan Transfer. Apropriaram do título de um romance de John Dos Passos e seguiram uma linha próxima a do Singers Unlimited, cantando standards com uma roupagem mais moderna. Um dos destaques é a versão de Killer Joe, famoso tema de Benny Golson.

Veja a apresentação da música, que consta do DVD Vocalese.





A formação original de Rare Silk
Gaile Scriver, MaryLynn Gillaspie, Marguerite Juenemann e Todd Buffa formaram o Rare Silk. Chamaram a atenção quando participaram do Playboy Jazz Festival, com a banda de Benny Goodman, em 1980. Ganharam um contrato da Polydor e lançaram New Weave (nova trama), bom trocadilho com “new wave”, contando com participações de Ronnie Cuber, Randy Brecker, Michael Brecker e Gary Bartz. O disco foi um sucesso e até indicado para o Grammy. Eles e o Manhattan Transfer eram os melhores grupos vocais.

Dois anos depois, lançaram American Dream (Palo Alto, 1985). Não era tão bom quanto o primeiro. Saiu ainda mais um e depois não se falou mais do Rare Silk. É quase inexplicável o ocaso. Simplesmente, evaporaram: não possuem nada à venda na loja iTunes e nem em sites de downloads piratas. Mereciam ser conhecidos pelas novas gerações que possuem bom gosto. Quer uma prova?

Ouça Spain, de Chick Corea, com letras de Al Jarreau.




Ouça Lush Life “a capella” com o Rare Silk.




Ouça a ótima Joy!