Até quem não gosta de ópera ou de música erudita e nunca viu “Cantando na Chuva”, por não gostar de musicais, deve ter ouvido “Nessum dorma”, uma das árias mais conhecidas. Depois dos milhões de álbuns vendidos de “Three Tenors”, com Luciano Pavarotti, Placido Domingo e José Carreras, árias como de Giacomo Puccini, citada acima, caíram, como se dizia antigamente, “na boca do povo”. Quem não a conhece a desse disco – tudo é possível –, deve conhecê-la na interpretação de Andrea Bocelli, o tenor mais pop do mundo, ou, quem sabe, com o espetaculoso André Rieu.
Questão de gosto. A ópera é daquele gênero “amo ou odeio”. Os libretistas capricham em enredos fantasiosos e teatralidade exuberante. Traições, violência, paixões, finais trágicos, nem tudo é leve e engraçado como nas “Bodas de Fígaro” e “Flauta Mágica”, de Mozart. É um gênero over por natureza, e exige uma certa sofisticação cultural/musical de seu ouvinte.
Alguns escolheram cenários que podem ser considerados exóticos, como Verdi, em “Aída”, no antigo Egito, como gancho, em razão da inauguração do canal de Suez, ou o Japão, para cantar a impossibilidade do amor de um tenente americano por uma gueixa. “Turandot”, ópera que Puccini não conseguiu concluir, o cenário é a China.
A ária “Nessum dorma” é a mais conhecida dessa ópera. É Calaf, um dos pretendentes da princesa Turandot, quem canta. Dentre as inúmeras gravações, a dirigida por Zubin Mehta, com Joan Sutherland e Luciano Pavarotti, de 1972, é considerada um clássico.
Ouça “Nessum dorma”, com o italiano.
Tão conhecida e sublime, natural que existam gravações como no jazz, com o trumpetista Lester Bowie e sua Brass Fantasy e até uma com o roqueiro Jeff Beck.
Comecemos com Jeff Beck.
Com Lester Bowie.
E lucevan le stelle
Em cenário mais familiar, Itália, mais precisamente, o pintor Mario Cavaradossi aguarda sua execução, no terceiro ato. É quando canta “E lucevan le stelle”, lembrando-se de sua amada Tosca. É uma ópera com belo libretto e merece ser conhecida até por quem não gosta do gênero. Várias árias são clássicas, sendo “E lucevan…” a mais bela. Uma grande montagem, com cenários de Franco Zefirelli, é a do Metropolitan, regência de Giuseppe Sinopoli, com Hildegard Behrens e Placido Domingo. É a apresentada aqui.
Alguns músicos mais ligados ao jazz fizeram boas gravações dessa ária. Uma delas é a de Grover Washington Jr, no álbum “Aria”.
Outra bem boa, que postei no YouTube e foi bloqueada é a presente em “Tati” (ECM, 2005). Não foi seu único registro. Ouça a que está em “Rava l’opéra va” (Label Bleu).
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quinta-feira, 28 de junho de 2018
Puccini é pop e é jazz
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quinta-feira, 19 de julho de 2012
“E lucevan le stelle”. Puccini é pop
A ópera tem adoradores fanáticos e um mundo que não gosta e até chega a odiar o gênero. Acontece até com gente que gosta (e conhece bem) música erudita. Ocorre uma coisa semelhante em relação aos musicais de teatro e de cinema. Mas, despindo-se de certo preconceito quanto à “arquitetura” da ópera, não há como deixar de se reconhecer a riqueza da música contida nela. O grande songbook americano vem dos musicais: Cole Porter, Stephen Sondheim, George and Ira Gershwin, Richard Rodgers & Oscar Hammerstein (e Lorenz Hart, também), e muitos outros. Até a patuleia (como assim designava, com certa ironia e um tico de maldade e preconceito, o chamado povão, meu amigo Conde) comprou o disco (Three Tenors in Concert, 1990), com Jose Carreras, Placido Domingo e Luciano Pavarotti. Foi uma tremenda jogada de marketing da Decca. Funcionou, além da grana que cada qual dos envolvidos embolsou, como uma forma de proporcionar biscoitos finos à massa. Pensando bem, nem tudo era biscoito fino, mas vamos fazer de conta.
Sentimentos poderosos como o amor e seu oposto, o ódio, e uma variante desses dois elementos – o ciúme –, fazem parte do enredo de Tosca, uma das óperas mais conhecidas de Giacomo Puccini. Ah, e o poder personificado no mal. Você conhece esse enredo, não? Pensando bem, faz parte da vida cotidiana. Nas óperas, na literatura e em alguns casos da vida real, esses elementos se apresentam potencializados; essa é a diferença. Quem sabe, críticas em relação a determinado esquematismo dos “librettos” ou aos roteiros dos musicais, sejam injustos: se na ficção alguma coisa parece exagerada, pensando bem, a realidade é mais tudo e mais alguma coisa em sua crueza; a mulher traída mutila seu par, o traficante deixa expostas cabeças cortadas de suas vítimas para servirem de exemplo, o vizinho estupra e mata o amigo em guerras.
Bom, não vou contar a história toda. Mais uma coisa só: Scarpia ordena que seus guardas de irem à villa de Cavaradossi em busca de Angelotti. Não o encontra, mas prendem o pintor. Tosca implora pela vida do amado a Scarpia. Que ele peça: ela fará. Agora, imagine o que Scarpia quer?
É, estou me alongando demais e já nem sei se estou contando direito a trama. Bem, resumo da ópera: o fim é trágico, muito trágico.
Cavaradossi está na prisão e o carcereiro lhe diz: “Tens uma hora.” Pede-lhe autorização para escrever uma carta. Começa a escrever e se perde em lembranças de sua amada Tosca. É nessa hora em que canta uma das mais belas árias do repertório operístico: “E lucevan le stelle…”. “E reluziam as estrelas/ e perfumava a terra./ […]/ Entrava ela, perfumada/ me caía entre os braços./ Oh, doces beijos, oh lânguidas carícias”. Nos versos finais – “E non ho amato mai tanto la vita/ Tanto la vita” – o canto de Cavaradossi é emoção e catarse. Na montagem do Metropolitan Opera, Placido Domingo é aplaudido em cena aberta; se bem que o público dessa casa costuma aplaudir qualquer coisa.
Puccini é pop
Não é nenhuma novidade peças da música clássica serem executadas no repertório popular. Há peças manjadíssimas como Ode à Alegria (do último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven), Ária da Suíte em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach. “Invadiu” não apenas o pop ou o rock, como nas investidas de bandas do rock progressivo como Emerson, Lake & Palmer, mas o jazz também, com músicos classudos como John Lewis, Branford Marsalis e muitos outros. As óperas têm servido de bom caldo a ótimas interpretações. E, como estou falando de “E lucevan le stelle…” ouça algumas.
As interpretações
Sentimentos poderosos como o amor e seu oposto, o ódio, e uma variante desses dois elementos – o ciúme –, fazem parte do enredo de Tosca, uma das óperas mais conhecidas de Giacomo Puccini. Ah, e o poder personificado no mal. Você conhece esse enredo, não? Pensando bem, faz parte da vida cotidiana. Nas óperas, na literatura e em alguns casos da vida real, esses elementos se apresentam potencializados; essa é a diferença. Quem sabe, críticas em relação a determinado esquematismo dos “librettos” ou aos roteiros dos musicais, sejam injustos: se na ficção alguma coisa parece exagerada, pensando bem, a realidade é mais tudo e mais alguma coisa em sua crueza; a mulher traída mutila seu par, o traficante deixa expostas cabeças cortadas de suas vítimas para servirem de exemplo, o vizinho estupra e mata o amigo em guerras.
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| Puccini, autor de Tosca |
Scarpia é o “bandido” da história. Mario Cavaradossi está fazendo uma pintura de Maria Madalena em uma igreja. Logo no início do primeiro ato, surge Angelotti, que fugiu da prisão. O pintor ajuda-o. Floria Tosca é uma célebre cantora e amante de Cavaradossi. Ele é surpreendido com a aparição de Tosca, e ela, acreditando por ter ouvido vozes, desconfia que pode ser outra amante. Mario tenta acalmá-la com um beijo, mas Tosca, lhe diz que não pode beijá-lo sem antes rezar e ofertar flores à Madonna (não é a famosa cantora americana, por favor). Tosca havia ido até Cavaradossi para lhe dizer que a esperasse após sua apresentação para depois irem à villa do pintor. Já desconfiada da forma com que ele quer se ver livre dela, por causa de Angelotti, faz uma cena de ciúmes ao perceber alguma semelhança nas feições da imagem que Mario está pintando à da marquesa Avanti. Os olhos de Tosca são negros, e os da pintura, azuis. Logo depois, aparece Scarpia, à procura do fugitivo.
Bom, não vou contar a história toda. Mais uma coisa só: Scarpia ordena que seus guardas de irem à villa de Cavaradossi em busca de Angelotti. Não o encontra, mas prendem o pintor. Tosca implora pela vida do amado a Scarpia. Que ele peça: ela fará. Agora, imagine o que Scarpia quer?
É, estou me alongando demais e já nem sei se estou contando direito a trama. Bem, resumo da ópera: o fim é trágico, muito trágico.
Cavaradossi está na prisão e o carcereiro lhe diz: “Tens uma hora.” Pede-lhe autorização para escrever uma carta. Começa a escrever e se perde em lembranças de sua amada Tosca. É nessa hora em que canta uma das mais belas árias do repertório operístico: “E lucevan le stelle…”. “E reluziam as estrelas/ e perfumava a terra./ […]/ Entrava ela, perfumada/ me caía entre os braços./ Oh, doces beijos, oh lânguidas carícias”. Nos versos finais – “E non ho amato mai tanto la vita/ Tanto la vita” – o canto de Cavaradossi é emoção e catarse. Na montagem do Metropolitan Opera, Placido Domingo é aplaudido em cena aberta; se bem que o público dessa casa costuma aplaudir qualquer coisa.
Puccini é pop
Não é nenhuma novidade peças da música clássica serem executadas no repertório popular. Há peças manjadíssimas como Ode à Alegria (do último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven), Ária da Suíte em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach. “Invadiu” não apenas o pop ou o rock, como nas investidas de bandas do rock progressivo como Emerson, Lake & Palmer, mas o jazz também, com músicos classudos como John Lewis, Branford Marsalis e muitos outros. As óperas têm servido de bom caldo a ótimas interpretações. E, como estou falando de “E lucevan le stelle…” ouça algumas.
As interpretações
O saxofone é um instrumento perfeito para emular vozes nas transcrições de árias operísticas. Um bom exemplo é essa versão de Grover Washington, Jr., que apesar de ter, durante muito tempo, optado por fazer um tipo de música mais comercial (tipo Kenny G, antes deste), foi excelente instrumentista. Aqui, é acompanhado pelo baixista Ron Carter e peka Orquestra de St. Luke’s, conduzida por Robert Freedman. Está no álbum Aria (Sony, 2000)
Outra ótima interpretação é a de Danilo Rea ao piano e Flavio Boltro no trumpete no disco Opera (ACT, 2011).
Uma terceira: a do também italiano, Stefano Bollani, em Volare (Venus, 2002).
Assista à performance de Placido Domingo, no Metropolitan.
Nem tão bom ator quanto Domingo, Luciano Pavarotti tinha uma voz deslumbrante.
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