Mostrando postagens com marcador Mark Murphy. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mark Murphy. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de março de 2012

Benny Golson. Grande compositor

Benny Golson
De uma imagem que ficou célebre, publicada na revista Esquire, ficou faltando apenas o autógrafo de um dentre todos os que foram até o Harlem naquela manhã de 12 de agosto de 1958 para serem fotografados por Art Kane. Viktor Navorski pegou um avião com destino a Nova York com o intuito de consegui-lo e assim “completar” a coleção de seu pai.

Enquanto está voando, acontece um golpe de estado no país onde nasceu. As relações entre a Krakhozhia e os EUA estão rompidas e Viktor fica impedido de entrar no país. Resultado: fica morando por nove meses numa ala em construção do Aeroporto Internacional John F. Kennedy, de Nova York.

Nesse período, torna-se amigo dos funcionários do aeroporto, namora uma comissária de bordo, com quem se encontra nas suas idas e vindas e é “perseguido” inclementemente pelo chefe da segurança, um narigudo careca pentelho, para usarmos o termo mais correto. Monoglota, só falando “krakhozhiano”, aos poucos, vai assimilando a língua inglesa, por meio das conversas com os “amigos do aeroporto” e vendo televisão.

Bom, você já viu esse filme, não? Até no Brasil acontece disso. Não vou me lembrar do lugar em que ocorreu, mas já li nos jornais sobre um africano que passou uns tempos morando no aeroporto, porque não tinha bilhete de volta ou dinheiro para comprá-lo. O mesmo, me parece, aconteceu com um português. Aconteceram em aeroportos nordestinos, do Ceará ou de Pernambuco, onde há um grande fluxo de turistas europeus. E parece que existe a história de alguém de origem árabe que, na década de 1980 ou 90, teve seus documentos furtados e vive até hoje no Aeroporto Charles DeGaulle. Histórias como essa dariam um filme mesmo.

Certamente Steven Spielberg não deve ter tido notícias de passageiros impedidos de embarcarem ou desembarcarem em terras brasileiras, mas, inspirado em algumas dessas histórias, floreseceu o argumento para O Terminal (2004). Acertou quem pensou nesse filme durante a leitura dos parágrafos iniciais.

Sobre a célebre foto foi feito até um documentário: A Great Day in Harlem. Art Kane conseguiu reunir 57 músicos (veja as foto com a lista de todos) num dia de verão em Nova York. Quem viu o filme sabe que estou falando do saxofonista e compositor Benny Golson.

Golson estava na Europa quando ficou sabendo que Steven Spielberg tinha deixado uma mensagem no aparelho de seu agente: “Será que Benny Golson gostaria de participar do meu novo filme fazendo uma ponta com Tom Hanks?” É claro que aceitou. Pensou, de início, que era uma brincadeira, mas viu que o convite era a sério.

A propósito de estar na foto, Golson comentou que era muito jovem quando foi convidado. “Até tinha cabelo naquele tempo”, ralhou. Quando chegou lá, olhou em volta e não acreditou: “O que é que estou fazendo aqui? Monk, Basie, Art Blakey, Chubby Jackson! Por que estou aqui? Mas lá estava eu.”

Falha minha. Conheço pouco Golson como instrumentista, mas o admiro por duas composições que considero excepcionais: Killer Joe e I Remember Clifford. De cara, digo quais são as interpretações favoritas: a Killer Joe, com o Manhattan Transfer é matadora (veja abaixo a disponível no YouTube e em DVD); a melhor I Remember Clifford é a do disco A Tribute to Cannonball, de Don Byas e Bud Powell (Columbia, 1961). Desta última, tenho 28 interpretações diferentes em CD – a única com seu compositor é em Benny Golson and The Philadelphians (Blue Note 1958).

I Remember Clifford foi composta em homenagem ao genial trumpetista Clifford Brown (leia http://bit.ly/GzL290), morto precocemente pouco antes de fazer 26 anos. Golson e ele haviam tocado juntos na banda de Lionel Hampton por um tempo muito breve. Brown morreu em junho de 1956; I Remember Clifford é a oitava faixa de Benny Golson and The Philadelphians e foi gravada no dia 12 de dezembro de 1958. Foi um sucesso instantâneo: é uma daquelas baladas de dilacerar os corações. Até por isso, outra boa interpretação, além da citada, com o saxofonista Don Byas e o pianista Bud Powell, é a do Modern Jazz Quartet; sempre fez parte do setlist do MJQ; funciona muito bem com o piano de John Lewis e o vibrafone de Milt Jackson. Não posso deixar de citar também a de Stan Getz e Kenny Barron em People Time (Verve, 1992).

A composição de Golson recebeu letras de Jon Hendricks – o título ficou Oh Yes, I Remember Clifford. A primeira gravação, salvo engano, é de 1957, de Carmen McRae, com arranjo de Fred Katz. É muito boa, tanto quanto a de Helen Merrill, em Brownie (Gitanes, 1994). Das versões masculinas, a minha preferida é a de Mark Murphy, em The Artistry of Mark Murphy (Muse, 1982).

Ouça I Remember Clifford, com Byas e Powell.




Killer Joe, com Manhattan Transfer, que foi registrada em DVD.



Killer Joe em apresentação do Manhattan Transfer, em 2006.



Killer Joe com o próprio.



A famosa foto de Art Kane.




A lista: 01 - Hilton Jefferson, 02 - Benny Golson, 03 - Art Farmer, 04 - Wilbur Ware, 05 - Art Blakey, 06 - Chubby Jackson, 07 - Johnny Griffin, 08 - Dickie Wells, 09 - Buck Clayton, 10 - Taft Jordan, 11 - Zutty Singleton, 12 - Red Allen, 13 - Tyree Glenn, 14 - Miff Molo, 15 - Sonny Greer, 16 - Jay C. Higginbotham, 17 - Jimmy Jones, 18 - Charles Mingus, 19 - Jo Jones, 20 - Gene Krupa, 21 - Max Kaminsky, 22 - George Wettling, 23 - Bud Freeman, 24 - Pee Wee Russell, 25 - Ernie Wilkins, 26 - Buster Bailey, 27 - Osie Johnson, 28 - Gigi Gryce, 29 - Hank Jones, 30 - Eddie Locke, 31 - Horace Silver, 32 - Luckey Roberts, 33 - Maxine Sullivan, 34 - Jimmy Rushing, 35 - Joe Thomas, 36 - Scoville Browne, 37 - Stuff Smith, 38 - Bill Crump, 39 - Coleman Hawkins, 40 - Rudy Powell, 41 - Oscar Pettiford, 42 - Sahib Shihab, 43 - Marian McPartland, 44 - Sonny Rollins, 45 - Lawrence Brown, 46 - Mary Lou Williams, 47 - Emmett Berry, 48 - Thelonious Monk, 49 - Vic Dickenson, 50 - Milt Hinton, 51 - Lester Young, 52 - Rex Stewart, 53 - J.C. Heard, 54 - Gerry Mulligan, 55 - Roy Eldgridge, 56 - Dizzy Gillespie, 57 - Count Basie.
Obs.: não verifiquei direito se a lista está correta; puxei a lista da Wikipedia. De “prima”, corrigi o nome de Monk, sem o “o” em Thelonious.




terça-feira, 13 de setembro de 2011

Angel Eyes ou quem copiou quem

Duke Pearson
O mundo gravou Angel Eyes, clássico composto por Earl Brent e Matt Dennis. Frank Sinatra finalizou seu show de despedida com ela, em 1971, portanto, não foi a sua despedida final. A propósito da expressão “todo mundo”, não significa exatamente todo mundo. Passou de meia dúzia, é “todo mundo”. Em línguas mais literais, creio, como no português de Portugal, imagino que para “muitos” não se usa essa expressão.

Lembrei-me, outro dia, de Angel Eyes ouvindo uma belíssima interpretação de Duke Pearson ao piano, Thomas Howard no baixo, e Lex Humphries. É uma gravação de 1961. Columbus Calvi Pearson Jr. é o autor de um standard muito conhecido – Jeannine – e foi grande pianista. Ficou “atrás do balcão”, trabalhando como produtor e A&R na Blue Note Records, na década de 1960.



Mas, quando penso em Angel Eyes, a interpretação que me ocorre, em primeiro lugar, é a de Mark Murphy. O início dessa canção – é a primeira do álbum Rah (Riverside, 1961) – é inesquecível. Murphy repete “angel eyes” por duas vezes como um chamado desesperado antes de cantar os versos seguintes – “Try to think/ That love is not around/ Still it’s uncomfortably near”. No arranjo excepcional de Ernie Wilkins, um naipe de três trombones (Jimmy Cleveland, Urbie Green e Melba Liston) soam em tons misteriosos, e Murphy entra com os trumpetes. É difícil descrever; melhor ouvir.



Rugolo é autor da trilha de O Fugitivo, clássica série de TV
Para minha surpresa, ao ouvir Softly As in a Morning Sunrise cantada por June Christy, notei semelhança impressionante na introdução. A de Christy foi arranjada por Pete Rugolo, conhecido por sua cooperação com Stan Kenton. Grande arranjador, estudou composição com Darius Milhaud na Mills College, Oakland. A gravação de Christy ocorreu em 29 de dezembro de 1954, a de Murphy, em 1961. É bem provável que Wilkins a conhecesse. Ouça, para comparar. E fica registrado: que grande cantora era June Christy. Está entre as minhas cinco preferidas de todos os tempos. O álbum Something Cool, com arranjos de Pete Rugolo, é esplêndido.