![]() |
| Joni Mitchell, capa da New York Magazine |
Como quase tudo é original, em se tratando de Joni, até a doença é algo que, até então, nunca tinha ouvido falar, e creio que sou maioria nesse ponto. Ela padece da “doença de Morgellons”. É um negócio tão incomum que a comunidade médica não a reconhece. Resumindo, é uma doença de outro planeta, como Mitchell resume em entrevista à Billboard: “É uma doença estranha e incurável que parece vir de outro planeta. Fibras de diferentes cores são expelidas pela minha pele como cogumelos depois da chuva."
Em seu livro de memórias, tratara disso: “Não conseguia usar roupa. Não consegui sair de casa durante vários anos. Às vezes, era de tal maneira doloroso que eu tinha de me arrastar pelo chão. Ficava cheia de cãibras nas pernas, como se fossem espasmos. Estas dores atingiam-me todos os sítios do corpo que foram atacados pela poliomielite [doença infecciosa que a artista conseguiu vencer quando ainda era criança]”. (trecho retirado de matéria da portuguesa Joana Marques Alves, 5/4/2015. http://www.sol.pt/noticia/128469)
Na mesma matéria, esse mal é assim descrito: “A Doença de Morgellons é um problema de pele muito raro, que se caracteriza pelo ‘formigueiro’, a comichão, os arranhões e a sensação de se estar a ser cravado por ferrões. Para além disso, as pessoas que dizem sofrer desta doença afirmam que existem ‘filamentos fibrosos a sair pelas feridas’ que entretanto se formaram na pele.”
Psicossomático ou não, é uma doença que traz grandes sofrimentos, a ponto de Joni ter de estar internada em um hospital. Parece um caso que apenas a equipe de Gregory House pode curar.
Quem conhece um pouco melhor a cantora/compositora, ao ler as manchetes, deve ter imaginado que tivesse sido internada por algum mal na garganta, esôfago ou pulmão. Fumou toneladas de cigarros. Como ela mesma disse, tornou-se cantora para “fumar dinheiro”. Até onde se sabe, no alto de seus 71 anos, continua “sócia da Souza Cruz”. Presume-se também que, por esses dias, deu uma paradinha. Acho que é proibido fumar em hospitais americanos.
Por que ouvir e amar Joni Mitchell?
Joni se define como uma “pintora que escreve canções”. Desde o início ilustrou suas capas com desenhos e pinturas de sua autoria. Era como dizer: canto, componho, desenho e pinto.
A canadense surgiu no mundo musical para fazer diferença. Encantou o público e encantou os homens. A lista de ex-namorados é extensa: David Crosby, Graham Nash, Leonard Cohen, James Taylor, Wayne Perkins, Jackson Browne, John Guerin, Don Alias, o baixista e produtor Larry Klein, com quem manteve o relacionamento mais duradouro, e os atores Warren Beatty e Jack Nicholson. Dizem que teve um caso com o ator e dramaturgo Sam Shepard. Joni não era exatamente bonita, mesmo quando jovem, mas devia ser tremendamente charmosa e encantadora.
Muito desse encanto emanava de sua música. Quem não deve ter se apaixonado por Joni apenas ouvindo seus discos. Ao amar a sua música, passávamos a amar aquela figura longilínea de rosto anguloso e dentuça. E esse amor tornava-se duradouro, como a perenidade de suas composições. É impressionante como canções como Blue, Both Sides Now ou River, compostas há mais de 40 anos continuam atuais e são prazerosas de se ouvir até hoje. Não é à toa que River tenha sido gravada mais de 200 vezes. Joni não estava sendo presunçosa quando disse uma vez que “a minha música não é projetada para pegar instantaneamente. Ela foi projetada para ser apreciada por toda a vida, mantendo-se como um véu.”
Mitchell e o jazz
Músicos associados ao jazz sempre participaram de seus discos desde For the Roses (Elektra, 1972). Neste, conta com Tom Scott e Wilton Felder. Estes, mais Joe Sample (companheiro de Felder no Jazz Crusaders) e o guitarrista Larry Carlton estão no próximo Court and Spark (1974)
O plantel amplia-se bem em The Hissing of Summer Lawns. Aos citados do anterior, temos o baterista John Guerin, também coautor da música título, Bud Shank, Victor Feldman, Max Bennett e Chuck Findley.
Nos dois seguintes, Hejira (1976) e Don Juan’s Reckless Daughter (1977), a contribuição vem de músicos do Weather Report, como Alex Acuña, Manolo Badrena, Airto Moreira (é da primeira formação do Weather), Jaco Pastorius e Wayne Shorter, e do arranjador Mike Gibbs. Esses dois álbuns representam um dos ápices da carreira de Mitchell. Os arranjos instrumentais são extremamente sofisticados, em uma fusão do folk com a música caribenha, africana e o jazz.
Amelia, que está em Hejira, é uma das grandes canções de Joni. É sobre a aviadora Amelia Earhart, desaparecida em 1937, quando tentava fazer uma viagem ao redor do globo.
O ápice da sua ligação com o jazz é o álbum Mingus (Elektra 1979). Neste, além da presença do genial baixista por meio de gravações feitas em seu retiro no México, inseridas no disco entre as faixas, conta com a nata do jazz: Herbie Hancock, Wayne Shorter, Jaco Pastorius, Peter Erskine e Don Alias. Algumas composições de Mingus, como Goodbye Porkpie Hat e The Dry Cleaner from Des Moines, fazem parte deste álbum, com letras de Mitchell. É um dos grandes discos de Mitchell, junto com Blue, Hejira e Don Juan’s Reckless Daughter.
Veja Joni em God Must Be a Boogie Man, em apresentação em Londres. A música faz parte de Mingus.
Ouça Goodbye Porkpie Hat, que Mingus fez em homenagem a Lester Young. O baixo é de Jaco e o sax soprano, de Wayne Shorter.
Pouco tempo depois, em 1980, foi lançado em vídeo um encontro espetacular de Mitchell com alguns jazzistas que já haviam participado de outras gravações – Pastorius e Alias –, e os convidados Pat Metheny, Lyle Mays e Michael Brecker. Há momentos preciosos em Shadows and Lights, como a participação dos vocais de The Persuasions e solos maravilhosos de Pat e de Jaco.
Joni canta The Dry Cleaner from Des Moines, composição de Mingus. O saxofone é de Michael Brecker e o baixo, de Jaco Pastorius.
A influência do jazz persistiu, porém, com menos intensidade em álbuns posteriores, mas nunca prescindiu de bons músicos do gênero, como o maravilhoso baterista Brian Blade e participações eventuais de Wayne Shorter. A partir do momento em que Larry Klein entrou em sua vida, inicialmente como músico e depois como produtor, Joni Mitchell resolveu ficar pop. Assim mesmo, continuou ainda a compor pérolas como Sex Kills.
Ouça Sex Kills.
Ouça o show na íntegra. Vale a pena. Infelizmente, o vídeo foi suprimido do YouTube.
O álbum Both Sides Now, de 2000, é a volta de Joni ao jazz, mas dessa vez, como intérprete, em arranjos orquestrais de pompa, cantando standards como You’ve Changed, You’re My Thrill, Comes Love e Sometimes I’m Happy. Na capa, a exemplo da maioria das anteriores, é uma pintura de sua autoria, e como das outras vezes, autorretratos, aqui, com o cigarro aceso entre os dedos, seu companheiro mais fiel. Uma observação sobre a canção Both Sides Now. Composta em 1967, está relacionada ao fim do primeiro casamento e à sua decisão em entregar a filha recém nascida para adoção para que pudesse seguir com a carreira musical.
Ouça You’re My Thrill.
Joni Mitchell canta Both Sides Now, em apresentação de 2000.
Veja Joni cantando a mesma canção em 1970.
Joni está afastada dos palcos desde 2007 por razões de saúde. Estamos aqui na torcida para que se recupere rapidamente.
