quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quem é Jamie Saft?

O barbudo Jamie Saft
São tantas as cantoras novas que vão surgindo que, como guia, vejo quem as acompanha. Se é Fred Hersch, Hank Jones (é um exemplo apenas, pois este morreu no ano passado), tento ouvir um trecho nos samples do site Amazon. Nem sempre a aposta é boa. Nunca tinha ouvido falar de Jamie Saft. Em Borscht Belt Studies, vejo que é acompanhado por Larry Grenadier, um baixista que conheço por ter acompanhado o pianista Brad Mehldau por muito tempo. Noto que participa de apenas uma faixa, mas a aposta está feita.

Depois de ouvir o CD, pesquiso na internet e descubro que participou de alguns discos e apresentações do saxofonista John Zorn. Borscht Belt Studies – nome diferente, não? – foi lançado em 2011 pela Tzadik, a mesma de Zorn. Saft toca, além do piano acústico, o elétrico (Fender Rhodes). Na maioria das faixas, é acompanhado pela clarineta de Ben Goldberg. A primeira Issachar começa com o piano elétrico; entra a clarineta. Belo tema.

A clarineta é um instrumento que não é tão comum quanto o saxofone ou o trompete, mas está totalmente incorporado à linguagem do jazz. Sem falar de Buddy DeFranco, só entre os da atualidade, temos Don Byron, Gianluigi Trovesi, Anat Cohen, Marty Erlich, Eddie Daniels e Ken Peplowski, e claro, Ben Goldberg.

A segunda – Hellenville – é um solo de Saft. Em Darkest Arts, entra novamente a clarineta, e o solo remete ao klezmer, gênero intrinsecamente judaico. O piano elétrico em Pinkus, a próxima música, representa bem o espírito do disco. É climática, como um tema de alguma cena cinematográfica; é reflexiva, uma das mais belas do CD. Saft explora ao máximo a sonoridade do piano elétrico, abusando dos ecos tão típicos dos Fender Rhodes. The Pines é meio “quebrada”, como um estudo, um exercício estilístico. Darash e Solomon County têm climas semelhantes à Pinkus. Jews for Joseph (Manieri) é frenética: foge um pouco do clima geral do disco. Kutschers: belo tema no piano acústico. Nossa, é muito bonita mesmo. Emociona. Azulai é um pouco estranha: não entra na lista das preferidas. A última, New Zion, é diferente de tudo: tem bateria, um som que parece o de um baixo mas não é. Não estranhe: mesmo que lhe pareça meio parada, é a mais agitada do disco. New Zion tem uma beleza estranha. O teclado de Saft, em todo o CD é de extremo bom gosto. O cara sabe das coisas. A cada audição – ouço pela sexta vez –, acho melhor. Em cada faixa, me transporto para algum lugar desconhecido. A beleza está nesse universo desconhecido.

Ouça Pinkus.




New Zion.


terça-feira, 3 de abril de 2012

Dá pra reinventar Garota de Ipanema?

A Garota de Ipanema virou cinquentona, digo da música, bem entendido. Quantos anos terá a garota que inspirou Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes? Bom, isso não vem ao caso. Há 50 anos, João Gilberto e Os Cariocas apresentaram a Garota em um pequeno show em Copacabana. Pery Ribeiro foi o primeiro a gravá-la em disco. Até, por isso, essa música era o tour de force do filho de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, morto há pouquíssimo tempo. Em 1967, foi a vez de Frank Sinatra gravá-la com o jovem Jobim. Muitos devem ter visto a apresentação dele no programa televisivo de Sinatra (está no DVD A Man and His Music + Ella + Jobim). “O instrumento: o violão; a batida: bossa-nova; o artista: um dos que inventou esse novo e emocionante som” : Jobim é assim anunciado.

Frank e Tom
Um espertalhão americano criou a versão em inglês e ela virou The Girl from Ipanema. Ficou riquíssimo com essa e outras canções de Jobim, em versões, às vezes sofríveis. Como Marilyn e Alan Bergman, que se tornaram quase versionistas exclusivos das melhores canções francesas, Ray Gilbert o foi das músicas brasileiras da época da bossa-nova.

Foi marcada de touca de um músico que não devia estar tão preocupado com o dinheiro; se bem que existe aquela história, contada até pelo próprio compositor, de quando foi convidado a fazer um trabalho com Vinícius.

Em Em Minas ao Vivo, CD que foi lançado postumamente, com Jobim ao piano, em clima informal, fala bastante e, inspirado pelo lugar em que está, conta um monte de “causos”. Uma delas se refere, justamente, à história do “dinheirinho”: “O Lúcio Rangel me apresentou ao Vinícius, […] que me levou ao grande mundo carioca, em casas com pianos de cauda e aquelas senhoras bonitas, bem lavadas. […] Eu andava com uma pastinha cheia de arranjos, competindo com o aluguel. Perguntei: — Escuta, tem um dinheirinho nisso? O Lúcio ficou escandalizado: — Ô, Tom, esse aí é o poeta Vinícius de Moraes. Eu digo: — Ah, bom.” Vinícius estava procurando um parceiro para Orfeu da Conceição.

Em pouquíssimo tempo, Jobim não teve mais de brigar pelo “dinheirinho” do aluguel; e como João Gilberto, foi morar nos EUA. Outros fizeram o mesmo e surfaram na onda da bossa-nova. O mundo gravou Tom. Depois de tanto tempo, é natural que esse “mundo” encolha. Segundo matéria publicada em 18 de março em O Estado de S. Paulo, assinada por Roberta Pennaforte, pelos dados da Universal Music, editora de Garota de Ipanema, são 1.571 gravações em inglês contra 430 em português. Ainda, segundo a jornalista, Corcovado, Samba de uma Nota Só e Águas de Março, atualmente, são mais solicitadas do que Garota de Ipanema.

Apesar de as composições de Jobim serem basicamente “músicas com letra”, devido à riqueza melódica e harmônica, são veículos perfeitos para serem interpretadas apenas instrumentalmente. Muitas músicas de Tom viraram standards e são tocadas à exaustão por músicos de jazz. Em um terreno em que o que vale é o improviso, os temas do brasileiro são perfeitos.

Das últimas Garotas, por ser tão heterodoxa, uma me chamou a atenção: a de Pat Metheny em What It All About (Nonesuch, 2011). É um disco-solo do americano. Não é o seu primeiro. Pat explora ao máximo as possibilidades do violão e da guitarra e é músico audacioso e desassossegado, sempre inovador. Goste-se ou não, Pat “desconstruiu” Garota.

Ouça.



Outra recente é a da cantora Lisa Lindsley. Poucos a conhecem, inclusive eu. Como a bela loura gravou Garota, vamos ouvi-la. Está em seu disco de estreia Everytime We Say Goodbye. Não se destaca em relação aos milhares de outros registros, mas o piano de George Mesterhazy é muito bom. O CD ganhou 3 estrelas pela Downbeat, o que não significa muita coisa.

Ouça.



Tom Jobim e Frank Sinatra. No medley: Change Partners, I Concentrate on You e The Girl from Ipanema.