Muitos, com razão, se perguntados sobre qual é o grande disco dos Rolling Stones, elegerão Exile on Main Street. Se não é o melhor, pelo menos, é o último grande disco deles. Muitos dos posteriores eram bons, afinal, se são os RS, o médio deles é melhor que o melhor da maioria das bandas. Agora, em 2010, foi lançado um DVD registrado em quatro noites no Texas da excursão de lançamento do Exile…, em 1972. Esqueça os megaespetáculos e megashows que fizeram em série a partir de Bridges to Babylon (1997). Tem produção, claro, mas nada comparado a qualquer show atual de Ivete Sangalo, por exemplo.
Grande Mick Taylor. Richards e Wyman em segundo plano
Que diferença faz um guitarrista! Não é para menosprezar Ron Wood, o atual segundo guitarrista dos RS. Depois da morte de Brian Jones, seu sucessor, Mick Taylor, foi o perfeito parceiro para a guitarra suja de Keith Richards. Antecede a fase glitter de Mick Jagger, de roupas espalhafatosas e maquiagem, mas não prescindia de brilhos em um macacão dourado ou na camisa preta de seda pois e o chapéu de caubói – afinal, o show era no Texas. É claro que You Can’t Always Get What You Want (excepcional), Street Fighting Man e Jumpin’ Jack Flash fazem parte do set list, mas as músicas são, na maioria, de Exile on Main Street e Sticky Fingers: Brown Sugar, Bitch, Dead Flowers, Happy, Love in Vain, Tumbling Dice e Sweet Virginia.
Os Rolling Stones, apesar do tempo e das rugas, da saída de Mick Taylor e da entrada de Ron Wood, bem como da deserção de Bill Wyman, mantiveram certa unidade. Não compõem sucessos à altura dos antigos, mas, graças à energia de Mick Jagger e ao carisma de Richards e Charlie Watts (o baterista cool, que não sorri, não movimenta um músculo do rosto enquanto toca, na hora das apresentações dos músicos, é sempre o que recebe os aplausos mais calorosos). E merece ser citado o saxofonista Bobby Keys, assim como, apesar de morto em 1994, o tecladista Nicky Hopkins. Ambos são ou foram partes da “alma” dos RS.
Com certeza – o DVD é da Eagle Vision – será lançado no Brasil. Que os mais pacientes esperem. Os apressados podem adquiri-lo nos sites como a Amazon por um preço pra lá de camarada (US$ 8 + frete). Os loucos por novas tecnologias podem comprar em Blu-ray (US$ 16 + frete, preço baixo frente aos ridículos 90 reais que cobram no Brasil por um DVD Blu-ray).
Ouça Happy, cantada por Keith Richards e Mick Jagger:
O título em inglês é Air Doll, em japonês, Kûki Ningyô. Tem tudo para ser lançado no Brasil, não se sabe com que título. A tradução é literal. “Kûki” é ar e “ningyô” é boneca. O nome Kore-eda, foneticamente, lembra “karaokê”, palavra bem conhecida dos brasileiros. É curioso que essa coisa de se cantar com “playback”, apesar de não constituir algum ineditismo em nenhum lugar, tenha se consagrado com a expressão em japonês. Esse “divertimento” muito comum em bares orientais e também em qualquer festinha caseira, remonta de longa data. A “sofisticação” chegou a um ponto em que, começaram a gravar em laserdiscs com áudio e imagens de paisagens que, na maioria das vezes, não tinha muito a ver com o que as letras tratavam. “Kara” significa “vazio”; “okê”, “orquestra”. “Orquestra vazia”: nada mais apropriado.
A boneca inflável na videolocadora
O que contém uma boneca inflável? Ar. Ar, vazio: significados muito próximos. Esse artefato que satisfaz os desejos de alguns homens não tem coração, isto é, não são “humanos”. O “vazio” preenche a solidão ou a pulsão de se “possuir” algo não humano. Em algum lugar Bukowski escreveu que comprou uma mulher inflável. A parte ruim foi ter de ir até o posto de gasolina mais próximo para enchê-la.
Em Depois da Vida, os recém-falecidos têm de passar por algo parecido a uma repartição pública. Seus entrevistadores perguntam sobre a melhor coisa que lhes aconteceram para que estes a levem como lembrança para a eternidade. Kore-eda se utiliza de elementos além do real para construir a história do filme. É a liberdade que o ficcionista tem, seja ele um escritor ou cineasta. No caso de seu filme mais recente, uma mulher inflável faz companhia a um solitário atendente de um restaurante. Juniti, ao chegar em casa, conversa, faz sexo, dá banho, como se ela fosse de verdade. Um dia, a boneca “vira gente”. O mundo exterior se revela através da janela. Veste-se com uma roupa de empregada doméstica e sai pelas ruas a observar o movimento. É um “peixe fora d’água”. Interessa-se pelas imagens dispostas em displays de uma videolocadora. Em suas visitas frequentes, tem contato com o dono e o empregado e, convidada, passa a trabalhar lá.
Tornando-se “humana”, revela-se a vaidade. Numa loja de departamento descobre que pode camuflar as emendas do material de que é feita. Troca a roupa de empregada e passa a usar vestidos coloridos e graciosos. A atriz coreana Doona Bae é a própria boneca. Parece uma figura dos quadrinhos japoneses: olhos amendoados, rosto redondo, boca pequena, cabelos curtos e franja a cobrir-lhe as sombrancelhas. Ao passar a ter “coração”, sofre. Um sentimento como o ciúme aflora quando vê uma foto do atendente da videolocadora com uma garota, em seu apartamento. Na língua japonesa, a palavra “shi” tem vários significados. Pode ser “morte”, “cidade” (São Paulo-shi=cidade de São Paulo) ou “quatro”. Por essa razão, muitos japoneses não gostam desse número, vai aí uma dose de superstição. Nos hotéis, normalmente, não existe o quarto andar, assim como não “existe” o 13º andar em muitos lugares dos EUA. Por coincidência a palavra que significa angústia ou sofrimento é “kurushi”. Contém a palavra “morte” (shi). Sofrer tem a ver com a sensação de morte. A boneca, tornando-se humana, naturalmente, sofre. Sendo uma “boneca”, é objeto.
Hirokazu Kore-Eda é jovem – nasceu em 1962 – e é um dos mais destacados cineastas japoneses. Seus filmes revelam grande versatilidade. Tem filmes excepcionais em que trata das relações familiares e reflexões sobre a morte vistas num prisma original. Em Maborosi, filme que o tornou conhecido, sem motivo aparente, um jovem se mata, deixando Yumiko (Makiko Esumi) só. Por meio de um casamento arranjado – costume arraigado na cultura japonesa –, une-se a Tamio (Takashi Naitô) e vai morar numa aldeia de pescadores. Apesar de tudo parecer bem na nova vida, persiste um sentimento de vazio em Yumiko. As imagens do filme potencializam essa incompletude que nenhuma felicidade será capaz de suprir. Uma longa cena de um cortejo fúnebre na praia resume esse vazio.
Os japoneses possuem o costume de se reunir por ocasião da morte de alguém em períodos que diferem bastante dos costumes católicos. Assim como os ocidentais, que promovem a missa de sétimo dia e, algumas vezes, a de um mês, os japoneses encomendam algum tipo de cerimônia em períodos determinados. Além da solenidade do sétimo dia, acontecem outras: 49º dia, um ano, três e sete anos. Raramente se faz do 13º ano. Até o 49º dia não se mexe nada do morto. Em Aruitemo, aruitemo (a tradução mais próxima seria “Vamos andando”), de 2008, uma família se desloca para uma cidade do interior do Japão onde mora o patriarca em razão de uma dessas datas fúnebres. Um pouco à maneira de Ozu, somos espectadores das diferenças familiares que afloram nessas ocasiões. Em Ninguém Pode Saber (2004), exibido no Brasil, quatro crianças, filhos de pais diferentes, são abandonadas pela mãe. Vivem juntas e não revelam a condição. Dá para desconfiar no que dá. O diretor se baseou num fato que aconteceu e causou comoção no Japão.
Air Doll demonstra a versatilidade de Kore-eda. O filme anterior a Aruitemo, Aruitemo é sobre um samurai que retorna a sua aldeia para vingar a morte do pai. É uma comédia. Imagina-se, logo no início do último Kore-eda, que é também. Logo, descobre-se que não.
Em seu último CD, Litoral e Interior, Sérgio Santos juntou um time invejável: André Mehmari no piano, Teco Cardoso nos saxes e flautas, Rodolfo Stroeter no baixo e Tutty Moreno na bateria, além dos convidados Dori Caymmi, responsável pelos arranjos de Lua e Sol, Ézer Menezes (oboé), Fabio Cury (fagote), Zeca Assumpção (contrabaixo), Jota Moraes (vibrafone), Marcos Suzano (percussão) e Mônica Salmaso cantando Mar, Montanha e Sertão. Os títulos citados, como a música-título, dão uma pista das intenções do mineiro de Varginha (segundo Dori, em uma brincadeira de que Sérgio não gostou nem um pouco, ele é um cruzamento de Milton Nascimento e dele próprio, Dori; só falta descobrir quem é a mãe). Nas notas do encarte o compositor “quis falar sobre diferenças. Mais até do que diferenças, sobre dicotomias, sobre contradições.” Os destaques, além de Lua e Sol, são as composições sem letra, algumas arranjadas pelo próprio Sérgio e outras do pianista André Mehmari, um dos talentos mais completos surgidos nos últimos tempos no Brasil. O Mar Adormece é, simplesmente, fantástico. É densa e climática. Esta e A Montanha Sonha remetem às orquestrações de Urubu, de Antonio Carlos Jobim.
Em São Paulo, no Sesc-Vila Mariana, com os mesmos Mehmari, Teco, Tutty e Rodolfo Stroeter, nos dias 5, 6 e 7 de novembro fez um show impecável. A pretexto de estarem concorrendo pelo Grammy Latino, Dori Caymmi e Edu Lobo eram os convidados especiais.
O primeiro set foi de músicas compostas por Sérgio em parceria com Paulo César Pinheiro. O show foi crescendo até Litoral e Interior e, em Abertura, entrou o primeiro convidado, Dori Caymmi. Beira-mar, de Dori com o “parceiro da humanidade”, segundo ele – o mesmo PCP, letrista da maioria das canções apresentadas – foi o primeiro momento de emoção. O outro convidado entrou no palco, meio sem saber o que fazer com as mãos pois impossibilitado de empunhar seu costumeiro violão devido a um acidente doméstico – caiu em casa, mas jurou que não tinha bebido, já que era de manhã. Com o microfone na mão usando óculos escuros, Edu cantou o clássico Vento Bravo. Bela entrada, ótimo solo de Teco Cardoso. Muitos aplausos. As luzes diminuíram em fade out e ficaram apenas Edu e o pianista. Cantou aquela que, depois das interpretações definitivas de Milton Nascimento e Mônica Salmaso, tornou-se desafio para qualquer um. Mas, já que a composição é sua, ele pode, segundo o próprio. Delírio. Beatriz ficou linda na voz cool de Edu e o piano não menos que maravilhoso. Canta também Corrupião que, com a letra composta pelo “parceiro da humanidade”, virou Dança do Corrupião. No bis, os três fecham com o clássico Desenredo, de Dori e, adivinhe quem é o autor da letra? Perfeito.