quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A boneca inflável de Kore-eda

O título em inglês é Air Doll, em japonês, Kûki Ningyô. Tem tudo para ser lançado no Brasil, não se sabe com que título. A tradução é literal. “Kûki” é ar e “ningyô” é boneca. O nome Kore-eda, foneticamente, lembra “karaokê”, palavra bem conhecida dos brasileiros. É curioso que essa coisa de se cantar com “playback”, apesar de não constituir algum ineditismo em nenhum lugar, tenha se consagrado com a expressão em japonês. Esse “divertimento” muito comum em bares orientais e também em qualquer festinha caseira, remonta de longa data. A “sofisticação” chegou a um ponto em que, começaram a gravar em laserdiscs com áudio e imagens de paisagens que, na maioria das vezes, não tinha muito a ver com o que as letras tratavam. “Kara” significa “vazio”; “okê”, “orquestra”. “Orquestra vazia”: nada mais apropriado.

A boneca inflável na videolocadora
O que contém uma boneca inflável? Ar. Ar, vazio: significados muito próximos. Esse artefato que satisfaz os desejos de alguns homens não tem coração, isto é, não são “humanos”. O “vazio” preenche a solidão ou a pulsão de se “possuir” algo não humano. Em algum lugar Bukowski escreveu que comprou uma mulher inflável. A parte ruim foi ter de ir até o posto de gasolina mais próximo para enchê-la.

Em Depois da Vida, os recém-falecidos têm de passar por algo parecido a uma repartição pública. Seus entrevistadores perguntam sobre a melhor coisa que lhes aconteceram para que estes a levem como lembrança para a eternidade. Kore-eda se utiliza de elementos além do real para construir a história do filme. É a liberdade que o ficcionista tem, seja ele um escritor ou cineasta. No caso de seu filme mais recente, uma mulher inflável faz companhia a um solitário atendente de um restaurante. Juniti, ao chegar em casa, conversa, faz sexo, dá banho, como se ela fosse de verdade. Um dia, a boneca “vira gente”. O mundo exterior se revela através da janela. Veste-se com uma roupa de empregada doméstica e sai pelas ruas a observar o movimento. É um “peixe fora d’água”. Interessa-se pelas imagens dispostas em displays de uma videolocadora. Em suas visitas frequentes, tem contato com o dono e o empregado e, convidada, passa a trabalhar lá.

Tornando-se “humana”, revela-se a vaidade. Numa loja de departamento descobre que pode camuflar as emendas do material de que é feita. Troca a roupa de empregada e passa a usar vestidos coloridos e graciosos. A atriz coreana Doona Bae é a própria boneca. Parece uma figura dos quadrinhos japoneses: olhos amendoados, rosto redondo, boca pequena, cabelos curtos e franja a cobrir-lhe as sombrancelhas. Ao passar a ter “coração”, sofre. Um sentimento como o ciúme aflora quando vê uma foto do atendente da videolocadora com uma garota, em seu apartamento. Na língua japonesa, a palavra “shi” tem vários significados. Pode ser “morte”, “cidade” (São Paulo-shi=cidade de São Paulo) ou “quatro”. Por essa razão, muitos japoneses não gostam desse número, vai aí uma dose de superstição. Nos hotéis, normalmente, não existe o quarto andar, assim como não “existe” o 13º andar em muitos lugares dos EUA. Por coincidência a palavra que significa angústia ou sofrimento é “kurushi”. Contém a palavra “morte” (shi). Sofrer tem a ver com a sensação de morte. A boneca, tornando-se humana, naturalmente, sofre. Sendo uma “boneca”, é objeto.

Hirokazu Kore-Eda é jovem – nasceu em 1962 – e é um dos mais destacados cineastas japoneses. Seus filmes revelam grande versatilidade. Tem filmes excepcionais em que trata das relações familiares e reflexões sobre a morte vistas num prisma original. Em Maborosi, filme que o tornou conhecido, sem motivo aparente, um jovem se mata, deixando Yumiko (Makiko Esumi) só. Por meio de um casamento arranjado – costume arraigado na cultura japonesa –, une-se a Tamio (Takashi Naitô) e vai morar numa aldeia de pescadores. Apesar de tudo parecer bem na nova vida, persiste um sentimento de vazio em Yumiko. As imagens do filme potencializam essa incompletude que nenhuma felicidade será capaz de suprir. Uma longa cena de um cortejo fúnebre na praia resume esse vazio.

Os japoneses possuem o costume de se reunir por ocasião da morte de alguém em períodos que diferem bastante dos costumes católicos. Assim como os ocidentais, que promovem a missa de sétimo dia e, algumas vezes, a de um mês, os japoneses encomendam algum tipo de cerimônia em períodos determinados. Além da solenidade do sétimo dia, acontecem outras: 49º dia, um ano, três e sete anos. Raramente se faz do 13º ano. Até o 49º dia não se mexe nada do morto. Em Aruitemo, aruitemo (a tradução mais próxima seria “Vamos andando”), de 2008, uma família se desloca para uma cidade do interior do Japão onde mora o patriarca em razão de uma dessas datas fúnebres. Um pouco à maneira de Ozu, somos espectadores das diferenças familiares que afloram nessas ocasiões. Em Ninguém Pode Saber (2004), exibido no Brasil, quatro crianças, filhos de pais diferentes, são abandonadas pela mãe. Vivem juntas e não revelam a condição. Dá para desconfiar no que dá. O diretor se baseou num fato que aconteceu e causou comoção no Japão.

Air Doll demonstra a versatilidade de Kore-eda. O filme anterior a Aruitemo, Aruitemo é sobre um samurai que retorna a sua aldeia para vingar a morte do pai. É uma comédia. Imagina-se, logo no início do último Kore-eda, que é também. Logo, descobre-se que não.

Veja uma cena de Air Doll:


Um comentário:

  1. O filme é fantástico. Tem um quê de poético e ao mesmo tempo intigante, levando-nos a pensar:
    "Não somos ou nos sentimos todos vazios?"
    Vale assistir, uma, duas vezes...

    k4akis

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